a vida é bélica

a Lua minguante já não estava visível (dizem que a Lua em sua fase minguante pode sugerir alguma desarmonia emocional e atos contraditórios). o dia começava a clarear. Coraline acordou diferente. o que era aquele sentimento? não quis voltar a dormir – e ter novos pesadelos –, mas a realidade também não a confortava. fechou os olhos por alguns segundos, sentiu um torpor invadir todo o seu ser. tudo doía, girava, desencaixava, rasgava. optou por manter os olhos abertos. tudo ainda doía, girava, desencaixava, rasgava. ainda assim, os monstros não pareciam menos reais do que em seus pesadelos. descobriu que não se tratava sobre estar dormindo ou acordada: eles estariam ali de qualquer maneira, seja de olhos (bem) fechados ou abertos. “conviver”, pensou. teria que aprender a conviver com eles – até que tivesse força o suficiente para eliminá-los para sempre. “mas será que alguém já conseguiu eliminar um monstro para sempre?”, questionou. ah, os monstros! eles sempre vêm e vão. a gente cresce e eles só mudam de forma, não é, Coraline? “antes eu tinha medo do bicho papão. hoje o bicho papão se transformou em algumas pessoas, e, de certa forma, em mim.”, continuou a questionar. Coraline chegou à conclusão de que o maior bicho papão era ela mesma.

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a vida é bélica

Lady

Tudo começou com um sonho no final de semana. Sim, um sonho. Uma gatinha preta surgia para mim e eu a levava para casa. Acordei com a sensação de que eu realmente iria encontrar a gatinha. Então no meio da semana, quando estou voltando da faculdade, ouço um miado. Olho para o lado e… vejo a gatinha dos meus sonhos!

Gatos de rua, ainda mais quando são filhotes, são ariscos e fogem quando alguém se aproxima. Ela não fugiu quando me aproximei dela. Fui conferir se realmente era uma fêmea. Era. Não pensei duas vezes: peguei ela no colo e a levei para casa. Fui rindo com os comentários que ouvia, do tipo “uma gata carregando outra gata” e coisas do tipo.

Chegando em casa, a primeira coisa que fiz foi alimentá-la. Leite, ração e água. Ela devorou tudo. Me agradeceu ronronando. Aliás, ela parece um motorzinho. É só encostar a mão nela que já se ouve prrr. Quando comecei a pensar em nomes, ela estava no chão, brincando com o meu fone de ouvido. Assim que pensei em “Lady”, ela se virou e olhou para mim. Pronto, o nome já estava definido. Lady. Assim como a loba gigante da Sansa no Game of Thrones.

Pêlos pretos, semi-longos, rabo bem peludo e olhos verdes. Estou completamente apaixonada por ela, tipo mãe coruja mesmo. Impossível resistir aos encantos dessa gatinha. Ela mal de deixa andar, de tanto que fica roçando em minhas pernas. Me segue para todo lugar e fica tentando me escalar. Dorme na minha cama, esquentando as minhas costas. Gosta de ficar pisando no teclado do computador e deitar bem em frente à tela. Adora lamber e dar umas mordiscadinhas em mim.

Chegar em casa e ter aquela bola preta de pêlo ronronando e subindo em mim é uma delícia. Meu antidepressivo natural. A gata dos meus sonhos é real.

Lady

The Dreamers

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não sei quanto a vocês, mas eu realmente acredito em sintonia, sincronicidade e afins. Parafraseando o filme Cidade dos Anjos, algumas coisas são verdadeiras, acredite nelas ou não. Sempre me liguei muito aos sonhos. Eles sempre me disseram muitas coisas. Sobre mim, sobre os outros, sobre a vida e sobre a morte. Ultimamente, eles tem dito muita coisa sobre ELE.

1.

Era um sábado. Havíamos dormido juntos. Quando estávamos de casa, olhei para o céu e lembrei do sonho que tive aquela noite. Fogos de artifício. Contei para ele. “Estávamos em uma varanda, e os fogos estavam bem distantes?” – foi o que ele perguntou. Eu respondi com um sorriso. Nem precisei dizer que sim, estávamos em uma varanda e os fogos estavam bem distantes. Tivemos o mesmo sonho. Como diria Raulzito, sonho que se sonha junto é realidade.

2.

Outro dia, eu estava em casa, sozinha. Deitada na cama, quando começamos a trocar mensagens por celular. Acabei dormindo. Sonhei que ele me mandava uma mensagem de boa noite. Quando acordei, não é que eu tinha recebido uma mensagem igualzinha àquela com que eu havia sonhado?!

3.

Havia um tempo que ele estava procurando o livro O Senhor dos Anéis. Quando ele encontrou, veio me falar. “Parecia que a gaveta me chamava” – foi o que ele disse. Perguntei se o livro estava na gaveta do armário, no quarto dele. E realmente estava. “Agora que percebi que eu não tinha te falado em que lugar eu encontrei” – ele respondeu. Não me pergunte como ou por quê, mas de alguma maneira eu sabia que ele havia encontrado ali.

4.

Geralmente trocamos mensagens por celular durante a noite/madrugada. Só que eu fçao faculdade de manhã. Então muitas vezes acabo pegando no sono. Uma coisa curiosa tem acontecido: percebo que estou sonhando e lembro que estávamos trocando mensagens e que provavelmente eu não respondi a última que ele enviou, aí, ainda no sonho, falo para mim mesma que preciso acordar para ler/responder; e incrivelmente eu realmente acordo.

Então não venham de dizer que sonhos são apenas sonhos. ‘Cause you may say I’m a dreamer, but I’m not the only one.

The Dreamers

Sonho de uma noite de verão

Eu sabia que era um sonho porque não lembrava ao certo como havia chegado ali. As cores eram vivas e quentes, parecendo um cenário de algum filme do Almodóvar. Era uma casa simples, daquelas de madeira, sem revestimento. Flores e quadros faziam parte da decoração. Da janela avistávamos o céu: laranja, azul, rosa… Uma mistura deliciosa de se observar.

Estávamos nos preparando para sair. “Que para nós dois, sair de casa já é se aventurar”, como na música dos Los Hermanos. Você sorria com os olhos e aquilo me deixava imensamente feliz. Aliás, aquele lugar inteiro inspirava felicidade. Depois procura uma música do Marcelo Jeneci, chamada “Felicidade”, gosto bastante dela.

Ao sairmos, o vento soprava uma melodia parecida com Debussy, e apesar de frio, era confortante. Havia árvores e montanhas. Algo meio bucólico, selvagem, livre. Respirávamos liberdade. A vida era o agora, não o antes ou o depois.

Não lembro ao certo sobre o que conversamos, mas era como se não precisássemos de palavras para nos comunicar. Realmente elas não eram necessárias. Olhares, sorrisos, gestos e toques falavam por nós. Lembro de borboletas e libélulas pelo ar.

Trazendo para o tempo real, o sonho teria poucos minutos, mas enquanto eu sonhava, ele parecia durar horas e mais horas. Horas de aconchego, aventura, sintonia… Horas suas e minhas. Horas que eram nossas.

Então o despertador tocou. Acordei sentindo a sua presença. Mandei uma mensagem de bom dia para você. Você respondeu e disse que estava exatamente pensando em mim naquele momento. Toda aquela sintonia vivida no sonho, afinal, foi experimentada nesse mundo que chamamos de real. No caminho para a faculdade, avistei uma borboleta enquanto ouvia “Felicidade”. Um sorriso permaneceu estampado no meu rosto durante o dia inteiro.

 

Sonho de uma noite de verão

Apanhador de Sonhos

Eu tinha esquecido o quanto é bom dormir abraçada com outra pessoa, ouvindo a respiração dela e sentindo as batidas do coração.

               ***

Dormi.

              ***

Sonhei que eu tinha uma ratinha chamada Agnes. Ela era preta & branca.

              ***

Minha irmã sonhou que a minha vó ficou triste por mim quando soube que meus ratos morreram. E disse que eu realmente preciso de outros ratos. Ou seja, ela apoia que eu tenha a Agnes.

              ***

Sonhei que eu ia visitar o Humberto em Mogi-Guaçu. Andávamos de skate e de bike. Fazíamos stêncil. Pixávamos os muros. Ajudávamos animais de rua. Tirávamos fotografias de grandes e pequenos momentos e acontecimentos. Conversávamos sobre Proudhon, Bakunin e Malatesta. Discutíamos sobre veganismo e vegetarianismo. Ouvíamos Misfits, Suicidal Tendencies e Beastie Boys. Fumávamos maconha. Bebíamos cerveja, vódega e tequila. Fugíamos da polícia. Líamos Nietzsche, Kerouac, Fante e Bukowski. E de repente eu não queria mais nada além de ficar ali com ele fazendo todas essas coisas. Eu me vi apaixonada por tudo aquilo. Eu estava… apaixonada por ele.

             ***

Depois da ayuhasca meus sonhos ficaram mais nítidos. Abri tantas portas…

            ***

Sonho sempre com ela.

            ***

Mas é preciso sentir-se parte de algo – e alguns de nós, muitos de nós, não conseguem sentir-se parte de coisa nenhuma…

Apanhador de Sonhos

Laura’s song

Difícil mesmo é você ouvir de mim a frase “tive um pesadelo”. Eu sempre tenho sonhos, não pesadelos. Por pior que eles sejam, sempre são sonhos. Odeio a palavra pesadelo. Enfim, foi um daqueles sonhos que ficam te perseguindo pelo dia inteiro depois que você acorda, sabe? Aliás, quem disse que a gente realmente acorda? Como não saber se a “realidade” é quando estamos dormindo? Well, muita divagação, vamos aos fatos. Ou melhor, ao sonho.

 Eu tava em um lugar parecido com a escola em que estudei durante minha vida inteira. De repente, começa uma tempestade. Somos todos mandados para casa. Mas quando estamos a caminho de nossos lares, doces lares, olhamos para o céu e vemos que o mundo vai acabar. Aí começa aquela loucura comum dos sonhos: você não sabe ao certo onde está, as cenas mudam rapidamente e as pessoas também.

 De um lado, tufões, vendavais e água, muita água. Do outro, explosões, terremotos, fogo, muito fogo. Ou seja, não tinha para onde correr. Fomos – quando eu falo fomos, tô falando de família, amigos e metade da população de São Paulo – para um abrigo, mas tivemos que logo sair dali, pois tudo começava a desmoronar.

 Avistei meu livro “Guerra dos Tronos”, da série As Crônicas de Gelo e Fogo, do George R. R. Martin. Não tive tempo de pegá-lo. Reunimos toda a família e íamos colocar todos no carro para partir sabe-se-lá-para-onde. Antes de entrar no carro, vi que o notebook tava ligado e entrei no meu Facebook. Sim, o mundo tava acabando e a rede social do Mark Zutenberg continuava funcionando. Me despedi de todos, mas não conseguia me despedir da Laura. O perfil dela tinha sumido. Ela não tava mais em um relacionamento sério com o Roberto. Aliás, o Roberto tava online, tentava ligar, mas a Laura não atendia.

 Meu deus, eu quase enlouqueci. Queria tanto conseguir falar com ela antes de morrer. E eu tinha certeza que ia morrer. De repente, morrer ficou tão pequeno perto de não conseguir me despedir da Laura! Todos morreríamos logo, mas eu não podia morrer sem dizer para ela coisas que não cabiam nem dentro do sonho. Uma agonia sem precedentes. De doer na alma.

 Acordei sentindo aquela angústia terrível ainda. Quis ligar para Laura e dizer tudo o que não coube no sonho e que também não cabeem mim. Nãosei se eu liguei mesmo ou se foi apenas aquela vertigem que sentimos após despertar. Sei que ouvi a voz dela e voltei a dormir. Ainda assim, aquele sentimento de não-sei-o-que-é-essa-angústia-que-tô-sentindo persistia.

 Não sei. Pelo menos se o mundo acabar hoje a Laurinha sabe de tudo isso. Ok, o mundo não vai acabar hoje. Mas somos tão frágeis que não sabemos quando vamos também acabar, então não dá pra ficar fazendo cú doce e negando aquilo que a gente é, aquilo que existe dentro da gente.

 Laura, eu sei que você também gosta do Caio. Então assim, apesar de “se não for hoje, um dia será. Algumas coisas, por mais impossíveis e malucas que pareçam, a gente sabe, bem no fundo, que foram feitas pra um dia dar certo” , eu tive que te falar sobre as coisas que não cabem em mim só para você ter certeza delas, apesar de saber que mesmo sem eu dizer, você já sabia… Anyway, eu fico bem aqui, você fica bem aí e um dia a gente resolve – ou não – tudo isso. Pelo menos a gente sabe. Você sabe, Laura!

Laura’s song