a vida é bélica II

Assim como as milhares de galáxias do Universo que se expandem e se retraem, em contínuo movimento, Coraline não conseguia aquietar-se. Tudo se mexia – apesar dela não querer se mexer. Queria mesmo era se fechar em um casulo por tempo indeterminado. Nem borboleta ela queria ser. Tudo transbordava. Tudo, tudinho. Era tanto sentimento que ela não sabia o que fazer com todos eles. Com tantos deles. Não tinha um único pequenininho. Eram todos imensos. Nem colocá-los em seu diário estava resolvendo: não diminuíam.

Foi aí que ela teve uma ideia: e se pudesse fazer com que eles fossem de outra pessoa? Não, não se tratava de inventar múltiplas personalidades. Era mais como… inventar personagens para si mesma. Coraline não sabia nem sequer como colocar tanto sentimento no papel. Mas Alice, por exemplo, saberia. Foi assim que Coraline começou a escrever: a partir da visão de Alice.

E não é que ela conseguiu? Ao se colocar para fora de si mesma, as palavras vieram. Ela sabia que Alice, na verdade, era uma parte dela. Talvez só assim a gente consiga resolver algumas coisas: externando elas. Olhando de fora – e ao mesmo tempo de dentro. Mas melhor não explicar muito: a própria Coraline já estava se perdendo tentando explicar esse desdobramento. Deixemos as explicações para lá. Voltemos ao que importa: os sentimentos.

Ainda estavam lá, é claro. Fazendo barulho, muito barulho. Grandes, grandões. Mas, ufa, ela havia conseguido transformá-los em algo. Tem gente que pinta seus sentimentos, gente que canta seus sentimentos, gente que compõe seus sentimentos… Coraline descobriu que era do time dos que escrevem.

“Alice estava em seu quarto. Não sabia se era dia ou noite. Ou mesmo se estava realmente em seu quarto. Aliás, aquele era seu quarto? Mas de uma coisa ela tinha certeza: estava viva. Sentia em si todos os sentimentos do mundo. Mas o problema não era necessariamente SENTIR todos eles. O problema estava no TAMANHO. Ocupavam o quarto (?) inteiro. Não cabiam nela”.

Alguma dúvida de que Alice é nossa Coraline? Repito: é mais fácil assim. Enquanto escrevia, eles (os sentimentos) pareciam se acalmar. Mas era só voltar a si mesma e não a si-mesma-como-personagem que eles pareciam voltar a lhe sufocar. Aquele se tornou seu escape. Ali se sentia segura. Alice entendia! Alice sentia o mesmo que ela. Agora Coraline tinha seu próprio mundo das maravilhas. Um dia ainda gostaria de perguntar ao Sr. Carroll por que ele usou essa palavra. Seu mundo e o de Alice não eram tão maravilhosos assim.

a vida é bélica II

a vida é bélica

a Lua minguante já não estava visível (dizem que a Lua em sua fase minguante pode sugerir alguma desarmonia emocional e atos contraditórios). o dia começava a clarear. Coraline acordou diferente. o que era aquele sentimento? não quis voltar a dormir – e ter novos pesadelos –, mas a realidade também não a confortava. fechou os olhos por alguns segundos, sentiu um torpor invadir todo o seu ser. tudo doía, girava, desencaixava, rasgava. optou por manter os olhos abertos. tudo ainda doía, girava, desencaixava, rasgava. ainda assim, os monstros não pareciam menos reais do que em seus pesadelos. descobriu que não se tratava sobre estar dormindo ou acordada: eles estariam ali de qualquer maneira, seja de olhos (bem) fechados ou abertos. “conviver”, pensou. teria que aprender a conviver com eles – até que tivesse força o suficiente para eliminá-los para sempre. “mas será que alguém já conseguiu eliminar um monstro para sempre?”, questionou. ah, os monstros! eles sempre vêm e vão. a gente cresce e eles só mudam de forma, não é, Coraline? “antes eu tinha medo do bicho papão. hoje o bicho papão se transformou em algumas pessoas, e, de certa forma, em mim.”, continuou a questionar. Coraline chegou à conclusão de que o maior bicho papão era ela mesma.

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