Entre abismos & vertigens

Carol Teixeira abre a porta do seu apartamento e da sua vida*

“Pede para o porteiro deixar você entrar pela porta do fundo, porque não sei onde está a chave da porta principal, acho que perdi”, me diz Carol Teixeira, quando ligo em seu celular para avisar que estou na portaria do seu apartamento, na Alameda Campinas. Na tarde de um sábado quente, pego o elevador e entro pela porta dos fundos. “Nossa, desculpa, nem tirei o lixo de trás da porta”, exclama a filósofa, escritora, vocalista e apresentadora. Na verdade, o lixo era o que menos importava. O cheiro doce de incenso perfumava toda a cozinha, destoando um pouco do clima rock and roll da casa: geladeira e paredes com fotos de ídolos do rock, como Iggy Pop e Sid Vicious. Carol me recebe de batom vermelho, vestido estilo pin-up com coraçõezinhos e meias 7/8 pretas. O cabelo solto e platinado dá ênfase às sardas espalhadas pelo rosto. Puro charme. Carol-Teixeira

Logo de cara, Carol me oferece água. Abre o freezer a retira uma fôrma de gelo vermelho, feita de silicone, com desenho de caveirinhas: “Comprei faz pouco tempo, achei demais os desenhos. Você vai estrear o gelo de caveirinha!”. Mas quem disse que o gelo saía da forma? “Deve ter uma forma mais fácil de tirar e eu não sei!”, diz rindo. Sugiro colocar a fôrma embaixo da torneira, para água escorrer nela e o gelo sair. Dá certo. E tomo minha água com gelo de caveirinha.

Carol Teixeira nasceu em 1979, no Rio de Janeiro, mas é gaúcha de coração: “Nasci praticamente por acaso no Rio. Meus pais estavam passando um tempo por lá, mas com poucos meses fui para Porto Alegre”, revela, com o seu inconfundível sotaque de quem foi criada no sul do Brasil. Carol veio para São Paulo com aproximadamente 26 anos (“sou péssima com idades/datas, nunca me lembro delas ao certo!”), junto com seu ex-marido Fred Chernobyl, produtor, DJ e guitarrista da banda gaúcha Comunidade Nin-Jitsu. Chernobyl fazia a ponte entre funk, eletrônico e rock. Dizem que se o funk carioca conseguiu sair dos morros do Rio para chegar ao mundo afora, um dos grandes incentivos para essa difusão veio do ex-companheiro da Carol. “Casei com o Fred em Porto Alegre. Mas teve uma hora em que nos olhamos e falamos, temos que ir para SP. Achava Porto Alegre uma cidade muito limitada, apesar de gostar de lá, sempre tive ânsias que extrapolavam a cidade. Todas as áreas de arte aqui tem mais espaço, tanto no âmbito de realização pessoal quanto em relação a grana, o que foi ótimo para nós dois”, revela a carioca por acaso.  Carol já havia vindo a São Paulo a passeio, mas nunca para morar. “Essa cidade me acolheu. Sinto que as minhas ideias têm mais ressonância aqui”, completa.

Se na cozinha a frase da janela diz que o sol está chegando, como na música dos Beatles, “Here Comes the Sun”, ao irmos para a sala, vemos “Come As You Are”, título de uma música do Nirvana, escrito (em cor de rosa) na parede branca. Sentamos no sofá, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Carol levanta e vai pegar café. “Quer com açúcar ou com adoçante?”, ela me pergunta. Respondo que prefiro puro, sem nada. “Que hardcore!”, diz Carol, surpresa pelo meu gosto por coisas amargas, para em seguida falar sobre seu gosto por café: “Amo café, mas tenho que tomar cuidado porque tenho insônia, estão não posso tomar muito”.

Enquanto Carol serve o café, reclamamos sobre o trânsito de São Paulo. Ela diz que vários amigos estão cogitando não ter mais carro, fazer percursos de bike e andar mais a pé. Comenta que não pretende abandonar o seu próprio automóvel, mas que diminuiu o uso, já que ultimamente tem percorrido apenas pequenas distâncias no seu bairro, Jardim Paulista. Gosta de ir ao Starbucks, que fica a apenas algumas quadras do seu apartamento, pedir um café e ficar lendo um livro, escrevendo ou ouvindo música. “Estou em uma fase mais diurna”, revela Carol, que começou a fazer aulas de yoga ali perto também e diz estar muito mais equilibrada. “Eu era uma pessoa muito da noite e isso me atrapalhava pelo fato de eu ficar menos produtiva. Mas agora tô a louca do yoga, você não tem ideia! Faço todo dia, mudou a minha vida!”, empolga-se.

A impressão é a de estar conversando com uma amiga de longa data. Uma daquelas amigas que você admira pela personalidade forte, inteligência, simpatia, abertura para falar sobre qualquer assunto… Enfim, uma pessoa que não tem medo de dizer sim à vida. Carol tem, inclusive, um sim tatuado em seu pulso, exatamente como uma “resposta afirmativa à vida”, em suas próprias palavras. Aliás, essa não é a única palavra tatuada em seu corpo. Fã de Nietzsche, exibe as frases “a arte existe para que a realidade não nos destrua”, em alemão, nas costas, e “torna-te quem tu és”, em português, no braço direito. A paixão pela filosofia surgiu ainda na adolescência: “Eu era uma adolescente de 13 anos que lia Nietzsche! Sempre fui, desde criança, muito questionadora. Encontrei na filosofia uma forma de dar vazão a esses questionamentos”, conta Carol. “Mas foi por causa do colégio que comecei a me interessar por filosofia. Eu tinha professores muito chatos e sem graças, como todo mundo tem em determinado momento. Aliás, acho isso um grande problema. A imagem, por exemplo, que os professores de ensino médio passam para os alunos é completamente desligada da realidade e acaba se tornando uma coisa exaustiva. Eu sempre tento trazer a filosofia pra realidade das pessoas, o processo do aprendizado fica muito mais gostoso”, completa.

A filósofa

Sua vida de leitora começou aos quatro anos, quando aprendeu a ler. Com essa idade passou a ler histórias em quadrinhos e aos poucos foi passando para obras mais densas. Ela conta que foi a melhor aluna da sala. Pelo menos até a 8ª série, hoje 9º ano: “Depois disso começaram as festas, passei a sair mais e não era mais a melhor, mas nunca deixei de tirar boas notas”. Quando entrou para faculdade de filosofia, na PUC-RS, Carol mostrou novamente seu gosto pelos estudos: passou o primeiro ano da graduação praticamente só estudando. “Eu me apaixonei tanto que abdiquei da minha vida social. Fiquei só estudando, ficava em casa o dia inteiro, eu não queria sair, eu não queria ‘ficar’ com ninguém, então acabei não beijando ninguém durante esse ano. Eu me tornei tipo uma louca, ermitã filósofa, uma coisa meio Zaratustra. Mas foi aí que o aprendizado veio com tudo e a filosofia entrou em mim”, relembra.

Atualmente, Carol faz mestrado na PUC-SP, mas diz ter problemas com a academia. Admite que hoje tem alguns professores incríveis, outros que poderiam ser mais incríveis e outros que a incomodam. Para ela, há uma tentativa de enquadramento aos moldes acadêmicos: “Me incomoda a maneira como tentam nos tornar seres extremamente ligados ao status que a academia representa, algo que não comunica ao restante da sociedade, à realidade”. A mestranda revela que teve problemas com a sua tese, pois tentaram mudar o tema que ela escolheu, “O poder da mulher como objeto sexual”, por outro “menos ousado”. Carol conta que não quis fazer algo óbvio, repetindo fórmulas prontas. “Infelizmente, acho que a filosofia no Brasil te ensina a repetir, repetir, repetir. Diferente, por exemplo, do que é na França, onde você é estimulado a pensar. Me sinto um pouco enclausurada”, lamenta.

Ao falar de sua tese, Carol lembrou de uma exposição que visitou, chamada “Em Nome dos Artistas”, uma exposição coletiva em comemoração aos 60 anos da Bienal. A obra de Jeff Koons, artista norte americano de quem a filósofa gosta muito, foi a que mais a marcou. Intitulada “Made in Heaven”, a obra trazia o próprio Koons e sua esposa na época, a atriz pornô Cicciolina, em fotos que mostravam os dois fazendo sexo. A visita estava sendo guiada pelo filósofo Walter José. “Paramos diante de uma cena que era assim: era ele parado, de pau duro, pornô mesmo, e ela ajoelhada, com a perna aberta, agachada, segurando o pau dele, então o Walter, comentou que analisando semioticamente a foto, esse pau é dela, nada nessa foto é dele, é tudo dela, quem está no controle dessa situação é ela, embora ela esteja abaixada numa posição que sugere submissão, quem domina é ela. E eu fiquei pensando, porra, tudo a ver com a minha tese. Quem detém o poder é quem detém o desejo do outro”, diz Carol. Para ela, geralmente a visão feminista mostra que a mulher, quando observada como objeto sexual, como objeto de adoração, é tida como submissa, pertencente a um sistema patriarcal feminino que não permite com que ela saia dessa posição, visão com a qual ela não concorda: “Acho que ao contrário, o poder que a gente tem quando está na posição de objeto sexual é absurdo, porque você detém o desejo do outro e quando você detém o desejo do outro, quem tá no poder é tu, é evidente”, discorre.

Pergunto a Carol sobre como ela lida com o sexo em sua vida. “Me interesso pela sexualidade. Gosto da energia erótica ao meu redor, é uma energia muito afirmativa”, ela responde prontamente, me mostrando um livro da Sacha Grey, uma atriz pornô, que estava na mesinha de centro da sua sala. Ao ser questionada se alguma vez sofreu preconceito por discorrer tão abertamente sobre sexo e sair em revistas com pouca roupa em ensaios sensuais, Carol é enfática: “No começo rolava um pouco. Muitas pessoas acham que se você é sexy, não pode ser inteligente. Mas não ligo. Eu sei que não sou apenas uma imagem, um corpo ou um rostinho bonito na revista”. Mesmo acreditando que as pessoas estão cada vez mais abandonando essa dicotomia entre beleza e inteligência, ela explica de onde vem esse pensamento: “É toda uma herança platônica, por essas e outras que não gosto do Platão, começou com ele essa história de diferença entre corpo e alma, acho um absurdo. Eu gosto muito é do Michel Onfray, filósofo francês, que é super combativo a esse pensamento platonista, para ele, não há separação entre alma e corpo, entre corpo e intelecto”.

A escritora

Ela escreve sobre sexo para a revista VIP, onde todo mês aparece ao lado de sua coluna, uma foto sensual. “Tô cagando e andando se alguém vier duvidar de alguma capacidade intelectual minha”, resume. Carol chegou até a VIP, inclusive, por conta de um ensaio sensual. Ela já fazia parte da banda Brollies & Apples, quando foi convidada, juntamente com sua companheira de banda Bianca Jhordão, a posar para a revista. Elas conheceram o editor chefe Ricardo Lombardi, Carol, que sempre gostou do conteúdo das revistas masculinas, teve então uma ideia. Chamou Lombardi para conversar e foi enfática: “Acho que eu deveria ter uma coluna na VIP”. Simples assim. “Me comunico muito bem com o público masculino, acho interessante ter na revista uma mulher que possa transmitir sensualidade e ao mesmo tempo escrever uma coluna. Acho que serei ouvida, por mil motivos, mesmo que inicialmente, um desses motivos seja a minha bunda”. Lombardi gostou da ideia e no mês seguinte, Carol começou a escrever sua própria coluna. “É uma das coisas que mais gosto de fazer. Me conectei total com o leitor da VIP, eles escrevem elogiando, dando sugestões… até namoradas já me escreveram me agradecendo”, comenta.

Carol começou a escrever em uma revista chamada Wake Up, quando tinha por volta de 20 anos e já estava na faculdade. A revista era editada por um colega seu Escrevia crônicas, a maioria polêmicas, envolvendo temas como sexo, amor e relacionamentos. As crônicas começaram a dar o que falar. Ao me contar sobre essa sua primeira experiência com a escrita que teve repercussão, ela vai até o quarto buscar o flyer do lançamento de um site que criou: “Sempre fui uma pessoa muito metida no sentido de meter a cara, eu não tenho medo. As pessoas tem que ser assim, eu com 18 anos, vou até te mostrar. Eu fiz um site assim do nada, e resolvi fazer um coquetel”, conta. Ela me mostra o papel, que tinha achado essa semana ao revirar uma gavetas, com a data de 8 de dezembro de 2003, chamando para o “Coquetel de Lançamento do Site da Carol Teixeira”. Carol se tornou conhecida e foi assim que a chamaram para substituir a Marta Medeiros, que entraria de férias, em sua coluna no jornal Zero Hora. Uma grande honra para a jovem de 20 e poucos anos que estava começando a ter suas palavras lidas por um grande público.

Os textos do blog acabaram se tornando o livro “De abismos e vertigens” (editora Sulina), que Carol lançou em 2004, com crônicas e trechos de seu diário, onde mostra toda a urgência que carrega dentro de si com textos que mostram terem sido escritos com a alma. “Foi o grito da minha saída da adolescência e descobrimento da vida adulta”, conta. Seu segundo livro, “De verdades e mentiras” (editora L&PM), saiu em 2006: “com o sucesso do primeiro, quisemos lançar o segundo logo em seguida, mas confesso que hoje esperaria um pouco mais para lançá-lo, mudaria algumas coisas nas crônicas e contos que compõe o livro”, revela. Carol avisa que o terceiro está a caminho, pretende lançá-lo até janeiro. “Me cobra?”, ela brinca.

Além dos livros, Carol já se aventurou em duas peças: escreveu “Festa de Bebete”, uma comédia com situações inusitadas que ocorriam durante o ano novo; e “Cenas de Amor Intenso”, que falava sobre relacionamentos e tinha trechos de um de seus autores preferidos, Caio Fernando Abreu. “O Zé Adão Barbosa, que foi meu professor de teatro durante anos e hoje é meu amigo, pediu para que eu escrevesse e dirigiu as peças”, diz Carol. Quando pergunto se já trabalhou como atriz, ela conta que apenas nas aulas de teatro mesmo, mas que se a oportunidade surgir, ela não teria dúvidas de que abraçaria a ideia de atuar. Pensa também em escrever uma terceira peça, que seria uma junção de seus dois primeiros livros, mas essa ideia ainda não foi para o papel.

Além de Nietzsche, Michel Onfray e Caio Fernando Abreu, Carol também se encontra e busca inspiração em Sartre, Gilles Deleuze, Peter Paul e Jack Kerouac, segundo ela, autores que são intensos naquilo que escrevem. Mas o grande livro da sua vida é “A Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera, segundo Carol, esse livro consegue tocar a sua alma “com tanta delicadeza e força ao mesmo tempo, que é impossível ficar indiferente”.

Outra iniciativa da qual Carol participou foi o curso B.I.T.C.H, no espaço Perestroika, do qual foi coordenadora de um curso sobre o poder da mulher. A aula inicial contou a participação dela e da Marcia Tiburi, de quem é grande amiga. Foram cerca de 30 mulheres participantes.

A música

Carol não pensava em ter banda, mas desde pequena tocava piano e tirava músicas de ouvido. Teclado. A música foi chegar mais forte para ela através dos meus namorados, principalmente através do ex-marido Chernobyl: “Ele é mais do rock, eu estava nessa fase mais rock. Escrevi duas letras com ele e gostei do resultado. Um dia eu encontrei a Bianca Jhordão, que já tinha uma banda, chamada Leela,  no prêmio Nicklodeon” conta. As duas apresentaram prêmios, se encontraram no backstage e começaram a conversar. Acabaram ficando muito amigas. “Então do nada, falamos ‘vamos fazer uma banda?’ A noite nos encontramos novamente, o Fred estava junto comigo, e o Rodrigo, marido da Bianca, foi com ela, na hora veio a ideia de  fazer uma banda de casais”, completa Carol. Surgia assim o Brollies & Apples. Ela conta que era para ser uma coisa mais de internet mesmo, mas o Lúcio Ribeiro, jornalista, conheceu a banda e quis que tocassem num grande festival chamado Popload. O B&A ganhou mais estrutura, Lúcio é considero o padrinho da banda até hoje. Porém, a formação está um pouco diferente. Fred não está mais no grupo e Bianca também saiu. Entrou em seu lugar a roqueira Dizzy Queen. “No palco deu outra mistura, eu e a Bianca interagíamos muito, mas a Dizzy entrou e esotu achando muito mais performático e legal, o show ficou mais louco, a gente causa bastante, nos jogamos no chão…”, explica Carol.

Além do B&A, Carol participa de um projeto intitulado “Groovin’ You”, com duas amigas DJ’s, onde ela faz vocais em cima da base eletrônica. Enquanto conversamos, a gata de estimação da Carol aparece e sobe no sofá. Descubro que Lou Salomé, como é chamada, é uma gata preta que adora aparecer na frente da câmera. Voltando à conversa, ela me conta de outros projetos que já participou como o programa na Rádio Atlântida em que ela e uma amiga conversavam com famosos como Cacá Diegues, Daniel Galera, Angeli, Tico Santa Cruz, entre outros, sobre sexo; e o na rádio Jovem Pan, onde comandava de segunda a sexta, um programa de auditório.

Entre suas influências musicais estão David Bowie, The Strokes e Arctic Monkeys. Carol gosta bastante de rock, mas foge um pouco de bandas mais clássicas como Rolling Stones: “Não gosto muito do óbvio. Hoje mesmo estava ouvindo Devendra Benhart”, revela. No cinema, Carol se identifica com a delicadeza erótica de Bertolucci para retratar a sexualidade – em sua sala, há um quadro enorme do filme “Os Sonhadores”. Admira também a obra de Woody Allen: ela conta que se identifica com a neurose dos personagens dele.

Quando questionada sobre o amor, diz que está em um relacionamento sério consigo mesma. “Hoje fico pensando que a felicidade é boa quando vem de maneira discreta, ela não precisa ser eufórica sempre. Tô procurando felicidades discretas mais do que grandes euforias, porque eu vi que é dessa maneira que encontro meu equilíbrio e minha paz”. Após o término do casamento com Fred, ela está novamente se encontrando. “De repente começou a voltar para mim essa vontade de viver intensamente, tô muito energizada, buscando coisas que me inspiram, pretendo voltar para as aulas de francês, por exemplo”, diz toda sorridente. Saio da casa da Carol com aquela sensação de ter saído da casa de uma velha amiga que não via há muito tempo e que resolveu me contar como tinha sido a vida dela nesse tempo em que estive ausente. E também com uma vontade imensa de viver essas tais felicidades discretas.

*escrevi esse perfil  após uma tarde inteira de conversa com a Carol Teixeira, em 24 de novembro de 2012

Entre abismos & vertigens

Ao nosso gosto

Agosto começou há exatamente 6 dias. Agosto geralmente traz um gosto ácido, porém doce.  Representa meu ano novo astral, uma revolução astral completa. Cainho diz que para atravessar agosto é preciso antes de mais nada paciência e fé. “Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro – e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco”. Ao contrário dele, não me importaria se setembro não chegasse. Gosto dos agostos. E dos sonhos. Cainho também diz que é necessário reaprender a dormir, dormir muito, com gosto, e que são incontroláveis os sonhos de agosto. “Se bons, deixam a vontade impossível de morar neles, se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições”.

Época de armazenar viveres. Intelectuais e espirituais, principalmente. Cainho sugere muitos livros de Nietzsche. “Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos”, se referindo aos zaps que damos no controle remoto para mudar de canal a TV. Dou risada quando ele diz que angústias agostianas são “mesmo coisa de gente assim, meio fresca, que nem nós”.

Um leve sorriso angustiado me vem aos lábios quando leio que para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se a vida não o deu ou ele partiu, sem o menor pudor, invente um. “Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados”. Ai, ai.

Também é importante “não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se , e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques – tudo isso ajuda a atravessar agosto”.

Tudo isso ajuda. Mas o que ajudaria mesmo, seria você ao meu lado. Atravessando juntinho. Passeando pelos dias agostinos de mãos dadas, sem precisar anotar no calendário uma data para passarmos o dia juntos. Porque todos os dias seriam nossos. Porque para atravessar agosto tudo o que eu preciso é que você atravesse junto comigo. Ao nosso gosto…

Ao nosso gosto

Apanhador de Sonhos

Eu tinha esquecido o quanto é bom dormir abraçada com outra pessoa, ouvindo a respiração dela e sentindo as batidas do coração.

               ***

Dormi.

              ***

Sonhei que eu tinha uma ratinha chamada Agnes. Ela era preta & branca.

              ***

Minha irmã sonhou que a minha vó ficou triste por mim quando soube que meus ratos morreram. E disse que eu realmente preciso de outros ratos. Ou seja, ela apoia que eu tenha a Agnes.

              ***

Sonhei que eu ia visitar o Humberto em Mogi-Guaçu. Andávamos de skate e de bike. Fazíamos stêncil. Pixávamos os muros. Ajudávamos animais de rua. Tirávamos fotografias de grandes e pequenos momentos e acontecimentos. Conversávamos sobre Proudhon, Bakunin e Malatesta. Discutíamos sobre veganismo e vegetarianismo. Ouvíamos Misfits, Suicidal Tendencies e Beastie Boys. Fumávamos maconha. Bebíamos cerveja, vódega e tequila. Fugíamos da polícia. Líamos Nietzsche, Kerouac, Fante e Bukowski. E de repente eu não queria mais nada além de ficar ali com ele fazendo todas essas coisas. Eu me vi apaixonada por tudo aquilo. Eu estava… apaixonada por ele.

             ***

Depois da ayuhasca meus sonhos ficaram mais nítidos. Abri tantas portas…

            ***

Sonho sempre com ela.

            ***

Mas é preciso sentir-se parte de algo – e alguns de nós, muitos de nós, não conseguem sentir-se parte de coisa nenhuma…

Apanhador de Sonhos

Homem primata

Terminei de ler Ecce Homo, do Nietzsche. É uma espécie de autobiografia. Ele nos revela que a vida é movimento para auto superação. Mesmo se reconhecendo inicialmente como decadente, ele mostra-se capaz de ir além, ser o seu contrário e com isso, se superar. Por essa condição, ele já nos avisa para não o confundir com os outros que vieram antes e que virão depois dele.

Para quem não conhece o filósofo, parece meramente uma obra egocêntrica. Não que não seja. Mas é muito mais: ele evidencia a extrema libertação das formas de pensamento. “Ninguém vive por nós a nossa própria vida, ninguém pode pensar por nós e para nós”. Ele recusa toda moral que já existe. Segundo Nietzsche, a melhor maneira de conseguir se superar, é enfrentar a si próprio.

Quando me deparei com os capítulos “Por que sou tão sábio” e “Por que sou tão inteligente”, não contive a risada. Não, não foi uma risada sarcástica, mas um riso de quem entendeu o que ele estava querendo dizer com aquelas palavras. A vitória sobre si mesmo é a lógica que ele utiliza.

Ainda não sou uma expert em Nietzsche. AINDA. Mas não aconselho ninguém a começar a conhecê-lo com Ecce Homo. Talvez Humano, Demasiado Humano seja melhor. As vivências do filósofo com o pensamento foram tantas que fica difícil condensar todas as palavras dele em uma só obra.

Ter uma “base” sobre Nietzsche é interessante antes de começar Ecce Homo, já que nele, o autor comenta a respeito das próprias obras. Ele traz para nós a possibilidade de repensar o destino da humanidade, através de um fluxo intenso de energias denominado “pathos”, ou “vontade de potência”. Assim, a dura realidade da vida for percorrida por uma vontade de potência múltipla.

 É, ainda tenho muito a aprender sobre meu alemão preferido…

Homem primata

Pra sempre Alice

Entramos no carro dele, uma daquelas Hilux gigantes. Ele dirigindo, ela ao seu lado no banco da frente. Eu e Otávio no banco de trás com o vidro aberto fumando mais um cigarro. A história é aquela: eu e Otávio na Augusta enchendo a cara quando conhecemos esses dois.

No carro, sabe-se-lá-como começamos a conversar sobre Nietzsche. Mentira sei sim. Acabo de lembrar. Minha memória funciona assim vezenquando (sim, eu quis escrever tudo junto, e aí?): vou lembrando conforme vou escrevendo. Ele disse que era filósofo. Quando perguntei qual filósofo ele admirava mais, a resposta foi certeira: Nietzsche. Me contive pra não soltar um gritinho histérico. Eterno retorno, amor fati, super-homem… Aquele papo intelectual bêbado, sabe?

Saímos da Augusta, fomos a um pub, continuamos enchendo a cara e ouvimos The Strokes, Jet, The Clash, David Bowie, The Cure, enquanto Nietzsche, Schopenhauer, Sartre, Descartes, Platão continuava no repertório. Óbvio que no meio da conversa eu começa a cantar ou a conversar com uma das bartenders tatuadas, mas eu conseguia manter o foco ali. E claro que depois da noite inteira mandando e enchendo a cara, eu não parava de falar.

Em uma mudança de perspectiva, comecei a conversar com a garota me veio com a gente. Garota não, mulher mesmo. Fez curso de piloto – começou a usar uma linguagem técnica que eu não fazia ideia do que ela falava – , quatro filhos, moça do interior que veio para São Paulo… No começo, nada muito inspirador. O lance de verdade começou quando a gente chegou à casa do cara da Hilux.

De cara, avistei “Crepúsculo dos Ídolos” na mesa. Ele ligou o notebook e escolheu um som. Sentamos no sofá. Ele trazia as bebidas, mudava de música e preparava algumas enquanto eu e ela não parávamos de falar. A vidaem São Paulo, as crianças, a morte aos 27, os homens, as mulheres e todo o caralho a quatro.

Já deitados no quarto, cada um em um canto da cama, aquilo se tornou um divã. Traumas de infância, saudade daquilo que não vivemos, uma falta que nunca é preenchida, a necessidade de urgência. Contei minha infância, ela contou a dela. Então chegamos naquele estágio em que sabíamos que estávamos ali mais uma vez, com desconhecidos, na casa de um cara x, enchendo a cara, se drogando e…  E.

Paramos nessa vogal. Não foi a primeira vez nem a última que isso aconteceu/acontecerá. Mas sabíamos que jamais nos contentaríamos e ir para casa, fazer janta e dormir, ter uma vidinha considerada normal. “Porque a gente tem aquele ‘quê’ a mais dos artistas”, foi o que ela disse. Nietzsche sempre soube disso. Sabe aquele meu gritinho histérico já comentado por aqui? Mais uma vez me segurei para não soltá-lo.

“Tudo o que eu vivi me tornou quem eu sou hoje e não eu não mudaria nenhuma experiência”, ela continuava dizendo. Eu concordava e continuava o raciocínio. Sobre as vezes que nos fudemos, sobre o voltar para casa depois de uma noite como aquela. A sensação de que mais uma vez você não encontrou aquilo. E você continuar não sabendo que porra é esse aquilo. Então falamos o quanto transmitíamos isso para a arte, ela por trabalhar com decoração, eu por escrever e como a música unia tudo isso e íamos, íamos, íamos.

Já era quase uma hora da tarde. Havíamos passado a manhã inteira ali. Ele dormindo e a gente sem calar a boca por um só instante. Eis então, do alto e auge da minha loucura, viajo ao mundo de Matrix. Explico toda a cena entre Morpheus e Neo para ela, com as diferenças entre a pílula azul e a vermelha. No final, pergunto qual ela escolheria. Sem hesitar, ela escolhe a azul. Respiro fundo. Explico novamente. Ela continua com a azul.

Depois de toda aquela conversa, alma de artista, desgosto, não voltar atrás, de se tornar o que realmente somos, depois de tudo aquilo, ela vai e escolhe a azul?! “Ah, acordar sem pensar em toda essa merda, sem sentir essa falta, seria a melhor coisa do mundo, eu finalmente poderia dizer que sou feliz, a existência seria tão mais fácil”, foram as palavras dela.

Sabe uma facada no coração? Então. E eu nem a conhecia. De alguma forma, aquilo causou em mim um desconforto enorme. Só eu não trocaria todo esse desconforto por uma venda nos olhos que tornasse o mundo cor-de-rosa? Só eu não vejo graça naquilo que vem fácil?

É curioso como uma coisa tão pequena aos olhos dos outros significou tanto para mim. Pelo jeito a toca do coelho continua sendo só minha. E fim.

Pra sempre Alice

Sobre vertigens, abismos e liberdade

Tô pensando aqui e vendo o quanto é difícil voltar ao mesmo ponto depois que a gente para. Então não, não vou voltar ao mesmo ponto. Até porque… que ponto era aquele mesmo? Aliás, não sei em que ponto estou, então o que posso oferecer como “explicação”, é todo esse caos e confusão. Mas como diria nosso querido Nietzsche, numa das frases dele que mais amo, isso é preciso pra gerar uma estrela. Essa frase já é tão usada que chega a parecer clichê continuar usando. Não ligo e continuo usando, e vou continuar usando enquanto continuar acreditando nela. Acho que nunca escrevi diretamente pra ti algo em que eu tivesse divagado tanto. Anyway, sempre tem a primeira vez pra tudo. Aliás, vi que estou passando por um novo trânsito astrológico, no qual a arte, a escrita, a leitura e a criatividade estão sendo favorecidos. Um dos melhores livros do Caio Fernando Abreu, é um livro com cartas que ele trocava com diversas pessoas. Clarice Lispector e a própria Virginia também tem cartas incríveis publicadas. Então, talvez por ter sido favorecida pelos astros e pelos últimos acontecimentos, me bateu uma vontade imensa de escrever uma carta. Uma carta como a que nossos escritores favoritos trocavam entre si. Soa bastante antiquado. E aos escrever essas palavras chego até a me sentir em outra época. Afinal, quem hoje em dia escreve dessa maneira? Não sei. Mas eu vou escrever. E vai ser longa. Não espere nada curto ou superficial. Talvez a minha primeira “carta literária”. Que pretensão a minha, não? Com sol, lua e vênus em leão, não há como se esperar menos. Prepotente, diriam alguns. Não negaria pra eles. Mas pra você posso negar: toda essa dita prepotência, é uma capa contra a insegurança. Sim, preciso constantemente de auto-afirmação. Sim, preciso constantemente de atenção e elogios. Carência emocional poderia ser uma palavra usada pra definir. Mas definições não são pra mim. Uma hora isso, outra hora aquilo. Você sabe. Lembrei daquele “maldita bipolar” que você escreveu pra mim em um guardanapo no bar da 9 de Julho.
 
Falando em bar da 9, podemos dizer que foi lá a primeira vez que vi você. Não nos conhecemos ali, já havíamos nos encontrado em diversos lugares e inclusive ali mesmo. Mas naquela noite, que não me lembro exatamente a data (e quem se importa com números?!), foi diferente e eu te vi realmente pela primeira vez. Até então, você era a Dani, namorada da Tetê e divertidíssima. Não que eu não gostasse de você. Eu sempre gostei de você. Assim como gosto de muitas pessoas desse nosso círculo social. Mas de repente, eu não só gostava de você. Eu comecei a admirar você. Sempre estávamos loucas pela Augusta, enchendo a cara e coisas afins. Já havíamos engatado assuntos, digamos, mais “sérios”, mais ou menos na época em que descobri que você estudava Filosofia, mas nada tão profundo. Até que naquela noite, não me pergunte por quê ou como, as coisas mudaram e eu finalmente vi você. Sim, estávamos bêbadas. Sim, estávamos com os hormônios a mil. Sim, você estava em um relacionamento sério e eu sabia disso. Naquele momento nada mais importava, e nem estou dizendo psicologicamente ou afetuosamente, e sim, fisicamente. Aquela noite conversamos sobre as coisas que escrevo no meu blog e você disse que era do caralho e fomos ao banheiro e você disse que eu também era do caralho. Hum, será que a carta fica menos literária se tiver palavrão no meio? Não sei. Só sei que nesse caso, fica mais sincera. Anyway, continuando… Você falava alguma coisa e eu concordava, eu falava alguma coisa e você concordava, eu falava de um artista ou escritor, você conhecia, você falava sobre um artista ou escritor, e eu conhecia. Ok, isso pode acontecer entre quaisquer duas pessoas. Mas aconteceu entre a gente e sabe-se lá por que, foi mesmo do caralho.
 
E realmente voltei pra casa achando que foi do caralho. Mas que não podia ser do caralho. Um ou dois dias depois, você me contou que tinha terminado o namoro com a Tetê. Não vou ser hipócrita ao ponto de dizer que não senti uma alegriazinha quando ouvi aquilo. Nos vimos, se não me engano, uns dois ou três dias depois disso e mais uma vez, foi do caralho. Você me mandou a letra de uma música incrível, que disse ter a minha cara, eu procurei no Google de quem era, baixei a música, coloquei no meu celular e ouvi repetidamente milhares de vezes. Conclusão: hoje tenho todas as músicas do Brollies & Apples no celular. Mas se eu já tinha mudado a forma como te via, quando depois disso tudo, fomos ao bar só nos duas, a ficha caiu completamente: eu queria você.

 

Escrevi no meu blog sobre essa noite: “Apenas nós duas no bar. Virgínia e eu. São Francisco, vódega, cerveja e cigarros. Um assunto puxava o outro e falávamos sobre o quanto as pessoas fazem uma ideia errada sobre a gente, achando que somos apenas junkies fudidas, sem olhar pra todo o resto que existe dentro da gente. E sobre a frustração com a faculdade e com as pessoas da faculdade. E sobre educação, escolas construtivistas e escolas Waldorf. Sobre mercado de trabalho, prazer em trabalhar versus ganhar muita grana. Televisão, Pânico na TV, Emílio e Dudu Surita. Tiago Leifert, esporte, futebol, São Paulo, Corinthians, Santos. Família, crianças, pais, filhos. Festas, vida louca, responsabilidades. Amadurecimento, crescimento pessoal e profissional. Um negócio que junta todo mundo e não é suruba. Sobre uma tal de festa da castanha que ocorria há alguns séculos atrás, onde em uma sala repleta de castanhas no chão, o clero se reunia junto com várias mulheres e ficavam todos nus e assim que elas abaixavam pra pegar uma castanha eles iam lá e comiam elas – as mulheres, não as castanhas; nisso, eram aplaudidos pelo papa e pelo rei que ficavam presentes nessa reuniãozinha; e os caras que ejaculassem mais eram presenteados pelo rei. Sobre antigos amores e relacionamentos mal resolvidos. E sobre uma porrada de outras coisas.

Podia estar só nós duas ali, mas foi uma noite melhor do que muitas que já passei ali com toda a galera. Ainda ouvi um “é disso que eu tô falando”, sobre a falta que sentimos de pessoas que consigam falar sobre absolutamente qualquer assunto e fazer a noite ser boa só estando vocês, e que mesmo sendo “porra-louca” tem seus compromissos e consegue ser muito mais, fazer muito mais, sentir muito mais. Resolvemos dar uma volta pela Augusta, e realmente foi apenas uma volta, logo subimos pra Paulista novamente e é brega mas é lindo dizer que a gente subiu e desceu a Augusta de mãos dadas.
Aí fui pra casa rindo sozinha e pensando se eu realmente sei o que eu tô fazendo…”
 

Então eu percebi que estava sentindo por você algo que nunca tinha sentido por uma garota. Lembro que tinha comentado sobre a Woltz. Mas lembrando dela, conclui não, não senti por você o que eu senti por ela. Eu não a admirava igual admiro você, nós não tínhamos as melhores conversas como tenho com você. Mas tinha um porém: você ser a ex de uma amiga minha.

 

No meio disso tudo, tinha a Camila, que estava apaixonada pela Carol, que se dizia hétero. A Camila é uma das pessoas mais parecidas comigo que já encontrei, e nem digo por gosto – igual foi o meu caso com você -, mas no quesito personalidade. Então, já que não tínhamos ou não podíamos ter quem queríamos, resolvemos “namorar”. De mentirinha. Tanto, que no primeiro dia de “namoro” com a Camila, eu e você nos beijamos.

 Você me falou tão bem da Virginia Woolf e eu que já gostava dela, mas nunca tinha lido uma obra dela, comprei um box com seis livros dessa britânica que tem que conquistado a cada nova página de “A Viagem”. Além dela, teve a Carol Teixeira, minha mais nova paixão declarada. Também comprei o livro dela e devorei rapidinho. Mais recentemente, teve o Sartre e você me explicando um pouco do conceito existencialista. Não sei quanto a você, mas quando admiro uma pessoa, quero conhecer todos os escritores, todas as músicas e todo o universo cultural dessa pessoa. Passei a querer conhecer o seu universo. Cada detalhe, cada centímetro dele.

 Continuamos andando com o mesmo pessoal e o que me deixava irritada era o fato de nunca poder te abraçar, te beijar, ou simplesmente ficar junto a você, quando todos estavam por perto. Eu sabia que você e a Tetê não tinham mais nada, mas vocês continuavam saindo juntas, bebendo juntas, se falando todo dia, se abraçando carinhosamente. Ou seja, eu praticamente não tinha a sua atenção.

 No último sábado, falei com a Tetê por telefone e ela me chamou pra ir pro bar perto da Praça do Alves. Você estava lá. Pode me chamar de patética, mas não digeri bem o fato de você estar lá junto com ela. Cheguei com o Reny, a Mazi e o Dennis, mas claramente, não me senti bem. Então a Camila chegou, porque foi me entregar umas blusas da Carol que ela tinha pegado emprestado. Sentei com ela do outro lado da rua pra contar o que estava acontecendo, como eu estava me sentindo vendo você, a Tetê e todos se divertindo. Lembro claramente quando você atravessou a rua e passou por nós, dizendo que só foi dar um “oi”. Logo em seguida, você e a Tetê começaram a subir a rua, de mãos dadas. Se eu já não estava bem com toda a situação, pirei quando vi aquela cena. E pedi pra Camila me beijar e fingir que estávamos namorando de verdade. Foi bem patético: pedia pra ela reparar se você  estava olhando pra gente e nos beijávamos nesse momento. Sim, eu queria que você me visse beijando ela. Sim, eu queria provocar ciúmes em você.

 Acabamos, todas nós, indo pra aquela casa na Cardeal. Todos acreditaram que eu e a Camila estávamos namorando mesmo. Quando você e a Tetê sentaram lado a lado, passei a voltar a me sentir mal e mais uma vez, quis fingir pra você que eu estava bem, beijando a Camila e ficando de mãos dadas com ela. Você continuava conversando e rindo com as meninas. Eu olhava pra você o tempo inteiro, apesar de ter a Camila ao meu lado. Então percebi, e me corrija se eu estiver errada, que você começou a ficar séria. Eu via você daquela maneira e tudo o que eu queria era ir lá, te abraçar e dizer que era você quem eu queria. Que tudo aquilo entre eu e a Camila não passava de uma cena, uma mentira. Mas não fiz isso. Quando fui me despedir e te dei apenas um beijo no rosto, sem sequer dizer uma palavra, queria mesmo é tirar você dali e te levar comigo.

 

No caminho do ponto de ônibus com a Camila, articulamos um plano: passaríamos a fingir pra todos que estávamos mesmo namorando, apenas pra que você pudesse me enxergar e a Carol pudesse enxergá-la. Era esse o plano. Durante a noite, mal conseguia dormir. A sua imagem, séria, apática, não saia da minha mente enquanto eu me perguntava que tipo de pessoa eu era pra fazer isso com alguém. O domingo não foi diferente. Quer saber a real (e você não faz ideia de como é difícil admitir isso pra você)? Chorei praticamente o dia inteiro. Toda essa situação vinha à minha mente e eu me entregava às lágrimas. Queria te ligar, te escrever, mas mais uma vez, não fiz nada disso.

 Passei a segunda-feira esperando por um e-mail seu. Durante a tarde, você me mandou um. Perguntou se eu tinha falado pra Tetê sobre a gente. E começamos a trocar e-mails meio malucos e surtados. Eu estava completamente na sua, mas não sabia lidar com o fato da situação entre você e a Tetê.

 Eis que na quarta-feira, no dia do jogo do Santos, encontrei a Camila. E não me pergunte como ou por que, o que era de mentira, passou a ser da verdade. Ela me disse as coisas mais lindas que já ouvi na vida e me pediu em namoro de verdade. Ainda não estou pronta pra escrever sobre essa cena. Só sei que me encontrei nos braços dela. Serei bem realista: pensei em você naquele momento. Mas pela primeira vez na vida, escolhi depositar em outra pessoa tudo o que eu sou. Aceitei, disse coisas lindas pra ela também. Depositei todo o meu ser na Camila. Pode parecer ridículo, e talvez até seja, fazer tudo isso e continuar pensando em você.

 Ela me liga todo dia, escreve coisas lindas no meu Facebook, me manda mensagens o tempo inteiro e pela primeira vez na vida eu não estou fugindo disso. Em qualquer outra circunstância, eu já estaria me sentindo sufocada, querendo correr pra bem longe. A Luanna me perguntou se o Psycho ou a Woltz voltassem eu iria deixar a Camila. Respondi convictamente que não, tanto racionalmente quando sentimentalmente falando. Mas ao pensar em você, cheguei a titubear. Pensando sentimentalmente? Sim, eu não hesitaria em trocar tudo e todos por você. Mas racionalmente falando? Não.

 Me pergunto se é certo ou errado te contar tudo isso, ainda mais porque enquanto escrevo, a Camila já me mandou umas dez mensagens, inclusive, chegou uma nesse exato instante. A família dela já sabe do nosso namoro. Todos os meus amigos já sabem também. É bom saber que tem alguém pensando em você o tempo inteiro, sabe? Cansei de ser uma vadiazinha. Cansei de sair transando com semi-desconhecidos. Cansei de estar sempre procurando, procurando e nunca encontrando. Encontrei a Camila e por ela estou fazendo tudo isso. E estou feliz por conseguir fazer isso por alguém. Talvez você não entenda, e realmente não é entendível, mas pra quem sempre se deixou levar como eu, esse que pode parecer um passo pra trás, na verdade, é um pra frente. Estou me controlando como nunca me controlei antes, desejando o tempo inteiro sentir por ela o mesmo que ela sente por mim. Não quero fugir dessa vez.

 Mas diante disso tudo, existe você. E eu te quero, mas não quero, nem posso te querer. Primeiro, porque eu não sei até que ponto estou disposta a me arriscar a perder a amizade da Tetê, por algo que pode não durar. Segundo, porque eu já fui longe demais com a Camila pra poder voltar. Ou seja, dessa vez, não vou me jogar do abismo. Vou ficar aqui, apenas sentindo a vertigem. Não é nem uma questão de medo. Mas hoje estou em um nível em que não quero o que é superficial. Quero aprender a amar a Camila do jeito que ela merece ser amada. Estou disposta a fazer de tudo pra que isso aconteça. Quero finalmente dar certo com alguém. Aprender a amar alguém. A nossa relação está ótima, mas não posso deixar de me sentir estranha por ainda pensar em você e por falar pra ela que a quero por toda a vida sem ter certeza disso. Eu quero aprender a querer ela por toda a minha vida.

Em todos os meus relacionamentos, as coisas sempre começaram intensas demais e com o tempo foram esfriando. Espero que dessa vez com a Camila seja diferente. Desejo do fundo do meu coração que o que eu sinto por ela esquente. Estou apostando todas as minhas fichas. Quero realmente me apaixonar por ela. Poder dizer aquelas coisas lindas que eu disse sem aquele peso na consciência de estar dizendo algo que na verdade não é tão real quanto ela pensa ser. Você pode pensar que estou enganando a ela e a mim. Não questionarei isso. Mas saiba que todos os dias antes de dormir, peço que eu consiga dar a ela tudo o que ela espera de mim. Só me sinto perdida em relação a você. Não sei o que é isso que sinto, mas queria você o tempo inteiro por perto e quando estamos frente a frente, eu não consigo te encarar. Pelo simples fato de não querer te querer. De não querer sentir o que eu sinto por você. Me sinto estranha quando estou com você. Mas me sinto pior ainda se não falo com você, se não te vejo. Pensando novamente… talvez possa ser medo mesmo. Medo de não conseguir ir em frente com a Camila.

Não sei. Ah, só pra descontrair: com vocês eu estou sentindo e encontrando coisas que não senti nem encontrei em nenhum homem. Interessante, no mínimo. Você acabou de me ligar. Vou te encontrar daqui há alguns minutos e minhas mãos já começam a ficar frias. Não faço ideia de como vai ser te encontrar, te encarar. Depois que você ler isso, então, precisarei usar um capuz no rosto quando passar por você. Não saber o que você vai pensar após ler isso é uma ideia aterrorizante e mais aterrorizante ainda é escrever pra você ler que eu acho isso aterrorizante. Não sei se as palavras que usei estão boas o bastante. Mas foram as que eu encontrei pra conseguir expressar pra você o que se passa na minha cabeça confusa, bipolar, patética, exagerada, infantil e todos os adjetivos parecidos. É isso. Vou sair pra te encontrar e entregar essa carta e o livro da Carol Teixeira.

 “Ser-se livre não é fazermos aquilo que queremos, mas querer-se aquilo que se pode”. Uma frase do seu querido Sartre. Acho que é bem isso.

Sobre vertigens, abismos e liberdade