réquiem para um rapaz triste

era como se nada mais importasse. estávamos ali naquele quarto de hotel bebendo vodca e fumando um cigarro atrás do outro enquanto as horas iam passando e nós nos aproximando. há algumas horas atrás tínhamos assistimos a uma peça baseada em contos do caio f. aquilo havia nos arrebatado. um arrebatamento diante da verdade que o texto nos transmitiu. da identificação à primeira frase. a peça nos trazia à tona no peito aquela angústia inevitável que é viver em um mundo ao qual você não se ajusta. ali estávamos nós, xs desajustadxs. bebíamos nossa vodca e fumávamos nossos cigarros sentadxs no chão do quarto onde a peça era encenada quando tive que pedir um lenço de papel para a mulher que estava sentada ao meu lado. sim, as lágrimas vieram, inevitavelmente. no final você ainda brincou comigo perguntando se eu estava rindo ou chorando. foi um pouco dos dois, eu acho.

horas depois ainda bebíamos vodca e fumávamos cigarros. mas já não precisávamos habitar um mundo sujo injusto feio traiçoeiro caótico falso. porque naquele quarto criávamos a nossa própria realidade. longe de qualquer coisa que não nos traduzisse, que não nos refletisse, que não fizesse sentido. porque aquilo ali fazia sentido. eu, você, a vodca, o cigarro, as divagações, a música, a cama, nossos corpos. nós fazíamos sentidos. então eu não precisava de mais nada. porque eu sabia que mais tarde aquela angústia – aquela náusea, como você diria – voltaria. mas não ali. não naquele momento em que eu dividia tudo o que sou com você. naquele momento em que conseguíamos ver a alma umx dx outrx. aquele momento em que você se reconhece nx outrx, sabe? e que você sabe. você simplesmente sabe.

eu sei. e isso é tão bom.

Anúncios
réquiem para um rapaz triste

Ir e vir

Eu tava sem fumar há exatos 19 dias. Fazia um bom tempo que não encontrava a Lilis também. Ela é, pra mim, tipo aquela garota que pro Renato Russo ensinou quase tudo que ele sabia. Nos conhecemos ainda pivetes, no tempo da escola, ela alguns anos mais velha do que eu. Ela veio aqui em casa conhecer as minhas ratas antes de irmos pra o bar e encontrarmos o Gus. Conheci o Gus por causa dela, eles faziam faculdade de geografia juntos. Foi com ele que assisti ao show do vocalista do Bright Eyes no StudioSP.

A Lilis riu da minha make up de verão: sombra rosa, lápis laranja rente aos cílios inferiores e pó bronzeador nas bochechas.

Começamos só com cerveja, e com a chegada de outras duas amigas, a Dani e a Tetê, partimos pra vódega e pra tequila.

Minha chinchila, a Lovefoxxx, tinha morrido pela manhã. Um dos pássaros do pai da Dani também tinha morrido há pouco tempo. Ficamos pensando em como é péssimo se desfazer do corpo de um animal. “Quando tem pêlo, é pior ainda”, segundo ela.

Sei que no final da noite eu tava com a frase “I’m a free bitch” escrita no peito. É, primeira noite bêbada de 2012…

Nessa noite, enquanto eu e a Lilis dividíamos a mesma cama, ficamos conversando sobre as garotas que fazem a nossa vida girar – pro bem e pro mal. E dormimos assim, com o pensamento longe, uma saudade e uma vontade sem tamanho.

Ir e vir

Apanhador de Sonhos

Eu tinha esquecido o quanto é bom dormir abraçada com outra pessoa, ouvindo a respiração dela e sentindo as batidas do coração.

               ***

Dormi.

              ***

Sonhei que eu tinha uma ratinha chamada Agnes. Ela era preta & branca.

              ***

Minha irmã sonhou que a minha vó ficou triste por mim quando soube que meus ratos morreram. E disse que eu realmente preciso de outros ratos. Ou seja, ela apoia que eu tenha a Agnes.

              ***

Sonhei que eu ia visitar o Humberto em Mogi-Guaçu. Andávamos de skate e de bike. Fazíamos stêncil. Pixávamos os muros. Ajudávamos animais de rua. Tirávamos fotografias de grandes e pequenos momentos e acontecimentos. Conversávamos sobre Proudhon, Bakunin e Malatesta. Discutíamos sobre veganismo e vegetarianismo. Ouvíamos Misfits, Suicidal Tendencies e Beastie Boys. Fumávamos maconha. Bebíamos cerveja, vódega e tequila. Fugíamos da polícia. Líamos Nietzsche, Kerouac, Fante e Bukowski. E de repente eu não queria mais nada além de ficar ali com ele fazendo todas essas coisas. Eu me vi apaixonada por tudo aquilo. Eu estava… apaixonada por ele.

             ***

Depois da ayuhasca meus sonhos ficaram mais nítidos. Abri tantas portas…

            ***

Sonho sempre com ela.

            ***

Mas é preciso sentir-se parte de algo – e alguns de nós, muitos de nós, não conseguem sentir-se parte de coisa nenhuma…

Apanhador de Sonhos

Arriba

Arriba Cásper. Nossa tequilada de todo ano. Dessa vez, show dos Raimundos. E de um tal de MC Sapão, do qual eu nunca tinha ouvido falar. Ao entrar no espaço Seringueira, ali na Francisco Matarazzo, lembrei o por quê eu odeio baladas. Pelo menos as baladas, digamos, “tradicionais”, e principalmente, as da Cásper. A fila imensa da chapelaria foi só o começo. Também tinha aquele empurra-empurra escroto para conseguir pegar algo no bar. Malditas festas open-bar! Mas todo o aperto e espera valeu a pena: uma linda de dread azul e piercing na bochecha e no lábio foi quem me deu as bebidas.  

Aí também tinha as meninas frescurentas que tanto me dão nos nervos. Porra, era uma tequilada com show dos Raimundos, por que diabos ir de vestidos (que a qualquer movimento não calculado mostravam absolutamente tudo) com cara de casamento e salto agulha? Sim, eu sou totalmente a favor da pessoa se vestir do jeito que quiser. Mas não suporto piriguetes, gente. Não me desce. Não dá. Ainda por cima, repito, em uma tequilada com show dos Raimundos!

Para a minha sorte, começamos direto com o show. Duas vódegas na mão e simbora para pista. Fucking dyke, eu pensei. Quase que instantaneamente ao meu comentário de que merecíamos uma boa roda, uma roda se abre. Ficar se fora não estava dentro das minhas cogitações. Então lá estava eu, única mulher participando da roda no show dos Raimundos. Sí, fiquei dolorida e tenho alguns roxos espalhados pelo corpo. Mas os garotos da Cásper me mostraram que não são totalmente cuzões: sabem fazer uma roda! Naqueles instantes lindos e doloridos, me redimi com a Cásper Líbero e seus alunos toscos. Nada que se compare com as rodas nos shows do Dead Fish, é claro…

Aí o show acabou e as coisas já não eram tão mais lindas. A atitude hardcore tinha ido embora e a chatice, ignorância, machismo e “bebedisse” dos garotos havia começado. Nem sei ao certo o número de garotos que eu quis socar. Porra, não chega pegando na minha cintura, muito menos puxando meu braço e jamais tentando me beijar a força. Depois leva um chute naquele lugar e não sabe o por quê. E ainda sai me chamando de louca-bêbada-desvairada. Ah, vá, né? Para não dizer que não falei das flores, um dos carinhas chegou perguntando meu nome e dizendo que gostou das minhas tattoos. Um ponto para ele. Conversamos sobre jornalismo e fui pegar mais bebida. Um jeito fino e clássico de escapar de alguém que foi simpático com você.

Após mais vódegas & tequilas, algumas coisas voltaram a ficar lindas de novo. Conheci um gay de Porto Alegre. Quando eu fico bêbada, começo a falar com um sotaque gaúcho, graças à família da minha mãe, que é metade de lá e metade do Paraná. Ele me apresentou para uma amiga dele e aí não preciso falar mais nada, né? Comecei a socializar com todo mundo e fui fazendo amigos pelo meio do caminho, o que acabou fazendo com que em determinado momento, eu nem soubesse mais onde estavam o meu amigo gay e a amiga dele que “às vezes” beija meninas.

A cena mais engraçada da noite veio depois. Eu estava descendo do fumódromo para ir pegar bebida com a linda de dread azul e piercing na bochecha e no lábio, quando, sabe-se lá Deus como, chega uma guria:

– Você é lésbica, né?

– O quê?

– Eu também sou, vem cá.

Eu fui, né?! Só sei ela era linda – um coração lindo nas costas, tipo o da Leandra Leal, olhos cor de mel, cabelo curto. Só sei também que juramos não esquecer o nome uma da outra e nos adicionarmos no Facebook. Meia-hora depois eu só tinha uma tênue lembrança do nome dela ser Mariana e não fazia a mínima ideia do sobrenome.

Um pouco antes da festa acabar, vieram me falar que uma amiga minha queria me ver. Que ela estava trabalhando no bar. Contei sobre os causos da noite, mostrei orgulhosamente meus roxos e exibi uma voz que já começava a ficar rouca. Então me dei conta que a linda de dread azul e piercing na bochecha e no lábio ainda estava ali. “Cara, tô pagando pau para essa mina desde que eu chegay aqui”, foi o que eu disse. “Minha amiga, Grazi, achou você bonita, queria seu telefone”, foi o que disseram para ela.

Ela veio me cumprimentar e tal. Deu uma piscadinha dizendo “eu vou”. Não aconteceu porra nenhuma, mas, descobri, no outro dia, que ela tem namorada. E que a namorada dela também estava trabalhando lá no bar e ficou me olhando feio. Fato um: meu gaydar não mente. Fato dois: como diz uma amiga minha, não tenho culpa se ela está com uma sapatona galinha…

Conclusão: continuo odiando baladas desse tipo, mas sempre há um jeito de torná-las bem mais atrativas, divertidas, gostosas…

Arriba

CSS

Começou na sexta e só terminou na segunda-feira. As primeiras doses de vódega, depois Augusta, e mais uma vez aqueles brancos em meio a flashbacks do que foi a noite. Manhã, minha casa, Ela, ônibus, Paulista, troca de livros no vão livre do MASP, encontro com uma amiga e a mãe dela, vódega outra vez, Bar do Alves, maracatu, cervejas, futebol, reencontro com algumas pessoas. Augusta novamente, anão, sinuca, mais vódega e cerveja, UFC, 13 de maio, casa da Sophie.

Pessoas conhecidas e desconhecidas, uma cachorra delícia, redes, camas, sofás, Lady Gaga, GTA, Simone de Beauvoir, bons drink… Sabe The L Word? Me senti no The Real REAL L Word. Enfim…

A primeira vez que conheci a Sophie não fui nem um pouco com a cara dela. É engraçado ver como as coisas mudaram hoje. Ela pode ter todo aquele jeitão meio grosso, descarado, marrenta… Mas tem um coração gigante e consegue ser uma das pessoas mais cute que já passaram pela minha vida. Tem explicação aquela nossa crise de choro quando o dia começava a nascer? Todas as palavras que vomitamos uma para outra e que sabíamos que elas nem necessárias eram porque olhávamos uma para outra e compreendíamos? Ocupa um lugar especial aqui dentro agora.

Muita coisa acontecendo em um pequeno intervalo de tempo, sabe? Diante disso tudo, eu continuo pensando em como as pessoas conseguem insistir em ser de mentira, em como conseguem fingir tanto. Aí surge a culpa também. Minha, que fique bem claro, porque surge neguinho que não chegou no começo da missa e quer vir dar lição de moral para o padre. Anyway, como disse a Sophie, estamos nessa sozinhas e sentimos muito mais do que deveríamos sentir, porque no final é sempre a gente que se fode. E olha que nem é literalmente.  

Era quase meio-dia quando fui embora e aquela “náusea existencialista” ainda tomava conta de mim. Na verdade, acho que ela nunca saiu de mim, mas fica mais forte ou mais fraca dependendo do momento. Como diria o Renato Russo, “sei que às vezes uso palavras repetidas”, mas cansa tanto que não tem como não dizer EU CANSEI.

CSS

Played-out

Depois de 6 meses sem beber, como em um programa de desintoxicação, um amigo voltou ao álcool nosso de cada dia. Por escolha própria, claro. Para comemorar esse dia tão esperado, fomos todos ao bar prestigiar a volta dele à bebedeira.

Foi no nosso bar de estimação, claro. Fazia tempo que não juntava tanta gente ao mesmo tempo naquele lugar. Velhos e novos rostos. O gosto por cerveja continua igual. Mas as pessoas? Quanta diferença! Lembro das primeiras vezes que me sentei por ali e hoje vejo como meu olhar mudou e continua mudando sobre todo o contexto que envolve aquele bar, aquelas pessoas. Movimento constante, saca?

Não fica necessariamente melhor ou pior, mas diferente. Depois de conhecer certo caminho, não dá mais para ficar simplesmente na cerveja ou na vódega. Ir pegar um, voltar, passar no banheiro. Aliás, aquele banheiro tem milhares de histórias para contar. Mais ainda do que os da Augusta. Pelo menos no meu caso, claro. Se ele falasse, eu tava ferrada. Enfim, idas e vindas.

Como lá não vende cigarros, fui até o bar que tem ao lado, onde um dos caras que trabalham lá já é brother. Ele me entrega o Lucky Strike vermelho antes mesmo de eu pedir. Após comprar os cigarettes, me deparo com uma cachorra e uma criança. Tem como não parar para pelo menos observar uma cena dessas? Parei, conversei, fiz carinho, peguei a criança no colo, conheci a mãe dela… E fiquei um tempão lá.

Quando voltei, algumas pessoas haviam ido, outras ficado, outras chegado. “Por que você demorou tanto? Podia ter avisado que ia demorar”. Desculpa, mas eu ainda não adquiri o dom de saber o que vai acontecer no meio do caminho. E pensando bem, eu nem gostaria de saber. Já pensou que chato saber tudo o que vai acontecer na sua vida? So boring. A questão é, como cantariam Caetano e Chico, “você tem que saber que eu quero correr mundo”. Ou seja, eu vou, vou indo, “caminhando, cantando e seguindo a canção”, porra. E isso não quer dizer que eu gosto menos ou mais de você. Não é porque eu tô indo embora que eu não te amo. Mas eu tenho uma necessidade de ir, entende?

Saímos dali e fomos para algum outro lugar que eu não faço noção de onde era. Só sei que era um bar e que tinha cerveja e jukebox e sinuca. Ou seja, estávamosem casa. Maisuma vez, comecei aquelas típicas conversas de boteco com algumas pessoas que estavam ali e que eu não fazia noção de quem eram. Cássia Eller, Cazuza, Legião Urbana e afins.

Lá pelas 3 e pouco da manhã, eu já tinha cansado daquele lugar. Saí e fui dormir na casa de um amigo que mora ali perto. Entre as divagações bêbadas que compartilhamos, uma das mais insistentes foi: POR QUE DIABOS EU CANSO PRATICAMENTE DE TUDO, MAS NÃO CONSIGO CANSAR DAQUILO QUE EU MAIS QUERO CANSAR?

PS.: Não esqueci da nossa conversa que ainda não aconteceu, Adri!

Played-out

Weakness

Entre um e outro gole de vodka, com o pensamento longe e o coração na mão, olhou dentro dos olhos daquela garota que estava em sua frente e, podendo enxergar a sua alma, soube que mesmo que trouxesse dentro de si toda a força do mundo,  aquela garota continuaria sendo o ponto fraco dela.  Lembrou do Cazuza. “Benzinho, eu ando pirado, rodando de bar em bar, jogando conversa fora, só pra te ver passando, gingando, me encarando, me enchendo de esperança, me maltratando a visão, girando de mesa em mesa, sorrindo pra qualquer um, fazendo cara de fácil, é, jogando duro com o coração, gracinha, todo mundo tem um ponto fraco, você é o meu, por que não?”.

Weakness