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Primeiro quero deixar esse texto do sempre bom Sakamoto. E complementar: ninguém tá aqui pra servir ninguém, seja homem ou mulher.

Depois quero falar do caso da Julia Gabriele, a criança de 11 anos que sofreu um cyberbullying perverso. Na verdade não quero falar muito não. Esse texto já fala por mim.

E tem também a reintegração de posse na zona leste de SP que teve início hoje pela manhã (com muita truculência, gás lacrimogêneo, spray de pimenta e bomba de efeito moral, como sempre) e que foi suspensa agora a tarde. E o mais impressionante: HADDAD mandou suspender a operação! SIM, a prefeitura fez algo digno! Haddad ganhou minha admiração. Sério. Não que eu morra de amores por ele, mas essa atitude demonstra um caráter fudido e mostra como DÁ SIM PRA FAZER DIFERENTE. Se liga na proposta dele.

Outra coisa: é uma sensação de impotência total quando uma amiga próxima sofre um abuso e ainda não se sente a vontade para falar sobre isso. Porque você fica preocupada com ela, mas não quer ser incisiva a ponto de cutucar ainda mais a ferida. Aí tudo o que você tem a fazer é esperar até ela se sentir bem para vomitar tudo o que aconteceu – e continuar apoiando, deixando claro que você está ao lado dela.

 

 

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O fim da Aldeia Maracanã: não é assim que se faz uma Copa do Mundo

indioHoje acordei com uma notícia péssima. A de que a polícia invadiu a Aldeia Maracanã para retirar os índios e manifestantes que protestavam contra a desocupação do espaço. Hoje, a Aldeia Maracanã viu seu fim pelas mãos truculentas da polícia e do Estado. É esse o país do futuro. É esse o país que abrigará a Copa do Mundo. Parabéns, Brasil.

“Cada vez que se comete um ato de violência que coloca em risco a integridade de um grupo social indígena, se esfacela sua cultura, seu modo de vida, suas possibilidades de expressão. É uma porta que se fecha para o conhecimento da humanidade, como dizia Levi-Strauss. É essa a Copa do Mundo que o governo quer fazer? É esse espetáculo da violência, a lição civilizatória que o Rio de Janeiro tem para mostrar ao mundo? A política-espetáculo tem um efeito simbólico: mostrar que o avanço do projeto de cidade, rumo aos megaeventos esportivos, far-se-á a qualquer custo” – Fernanda Sánchez, professora da UFF e pesquisadora sobre os megaeventos e as cidades. Leia o texto completo aqui.

O fim da Aldeia Maracanã: não é assim que se faz uma Copa do Mundo

Páginas de sangue

No domingo, saiu na Ilustríssima, da Folha de S. Paulo, uma matéria intitulada  Os livros pensam a violência: “Homicídios crescem, a polícia faz ações destrambelhadas, PMs são mortos. Os números assustam e o governo admite uma ‘escalada na violência’. Em salas de aula e em pesquisas de campo, o tema fervilha. Livros, teses, mapas, estatísticas tentam decifrar o fenômeno e propor políticas para atacá-lo”.

Gabriel de Santis Feltran é um sociólogo que entrevistou lideranças e moradores de três bairros de Sapopemba. Ele escreve sobre a experiência em “Fronteiras de Tensão – Política e Violência nas Periferias de São Paulo”, considerada pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), a melhor tese de doutorado de 2009.

No livro, ele comenta que nessa área, últimos anos, a representatividade dos movimentos sociais diminuiu, o trabalho assalariado formal ficou escasso, o acesso às políticas sociais e ao crédito cresceu, com isso o crime avançou e passou a disputar a atração dos mais jovens. Ele fala sobre a relação entre traficantes e trabalhadores. “Os traficantes e ladrões pouco a pouco assumem o papel da força armada que regula as regras de convivência e faz a justiça no varejo, pelo debate constante de qualquer atitude considerada inadequada, ilegítima ou imoral”, comenta.

Feltran critica a “criminalização da pobreza”: a periferia é vista como lugar de bandido, como algo que não pode integrar e sim algo que se deve controlar e excluir. Outro sociólogo, Claudio Beato, constata que “o Brasil é, hoje, um dos países mais violentos do mundo, e sabemos pouco das razões dessa supremacia”. Homens, negros, moradores de periferias urbanas são as principais vítimas de homicídios no país.

“Todos os esforços de nosso sistema de Justiça e de organizações às voltas com segurança pública parecem proteger justamente aqueles que estão menos expostos à violência. A concentração de equipamentos de proteção social, bem como de recursos de segurança pública, se dá de forma desigual”, emenda Beato.

Michel Misse, 61, sociólogo da UFRJ, fala sobre os homicídios: “O aparelho policial não está no ar, está dentro da sociedade. Por exemplo, o modo pelo qual matamos ladrões. Não matamos assassinos, matamos ladrões! E jamais legalmente, aprovando a pena de morte. Matamos criminosamente, fazemos justiça com as próprias mãos. Um cara que em qualquer país do mundo pegaria cinco, oito anos de cadeia, aqui ele é morto sistematicamente desde meados dos anos 1950. Isso é um fenômeno estritamente brasileiro. Começou na época dos esquadrões da morte, depois se espalhou. Começou no Rio, em pleno governo JK, em plena bossa nova, num período desenvolvimentista”. Misse comenta isso e muito mais em “As Ciências Sociais e os Pioneiros nos Estudos sobre Crime, Violência e Direitos Humanos no Brasil”, livro com entrevistas de 14 intelectuais da área.

Paulo Sérgio Pinheiro integrante da Comissão da Verdade comenta que no Brasil, a democracia não acabou com a tortura. “A culpa de a tortura continuar não é da polícia. É culpa dos governos e dos políticos, que não querem fazer o jogo da verdade em relação ao problema da democracia e dos direitos humanos. O Brasil tem essa esquizofrenia de ser o país que mais mata suspeitos pelas polícias do Rio e de São Paulo. Os números do Rio e de São Paulo não se equiparam aos de nenhuma democracia do mundo”.

A matéria não ignora o caótico sistema carcerário do nosso país. O encarceramento é uma bomba retardada. 230 mil presos são provisórios, sem condenação. 20% dos encarcerados ou já cumpriram pena, ou nunca deveriam ter estado presos, ou deveriam ter recebido progressão da pena. Não há ressocialização nas prisões. Tem desde o sujeito que roubou leite para o filho até o matador, convivendo lado a lado. A prisão está produzindo delinquentes.

David Fonseca, da UFMG, fala mais sobre o tema em “Ambivalência, Contradição e Volatividade no Sistema Penal”. Ele diz que não há reintegração nem reabilitação, a prisão é como um gerenciador de “lixo”, de algo que não “serve” para a sociedade e deve ser mantido afastado.

“A prisão, em vez de ser o último recurso, funciona como um mecanismo de exclusão e controle, no qual os infratores são segregados e têm seus direitos completamente desconsiderados se eles oferecem um risco para a sociedade”, diz Fonseca.

Todos os autores concordam em um ponto: a questão da segurança não é pensada politicamente no Brasil, mas de um modo muito repressivo, muito primitivo, no sentido de que se quer uma vingança.

Outro ponto a ser visto, é que não basta combater apenas a pobreza. Políticas públicas voltadas para a educação e a cultura são indispensáveis para reverter esse quadro problemático.

PS.: Meu aniversário tá chegando e aceito de presente esses livros que citei no texto!

Páginas de sangue

P(fuck)M(police)

o Ministério Público Federal pretende entrar com o pedido de afastamento do comando da PM de São Paulo amanhã, quinta-feira, 26/07, em audiência pública. eles admitem que a situação está fora do controle.

a capitão Tânia Pinc, diz que o principal desafio é conseguir convencer o policial, na hora de estresse, a seguir as regras. como se só os policiais passassem por stress! é a mesma coisa que um médico não seguir os procedimentos corretos de uma cirurgia porque ela era complicada demais e ele se estressou. ou um piloto de avião ir por outro trajeto que não o sugerido porque se estressou.  seu trabalho te coloca em situações de stress e você não consegue lidar com elas de maneira coerente? ESSE TRABALHO NÃO É PRA VOCÊ, PORRA.

sabe o caso do empresário e publicitário assassinado pela PM no último dia 18? o Alckmin exigiu apuração rigorosa, disse que fará de tudo para acelerar a concessão de indenização pelo Estado à família, que a tolerância seria zero e que todos os envolvidos nesse caso foram presos logo após a ação violenta. ele se pronunciou em nome do Estado lamentando a morte.  pergunta: se fosse a morte de um jovem na periferia, Alckmin faria o mesmo? a mídia daria tanta importância assim? resposta: é óbvio que não, diversos jovens são assassinados pela PM nas periferias e não há divulgação dessas mortes. lembrando que, em junho, após a série de ataques às bases da PM e a policiais, Alckmin chegou a defender ações repressivas dizendo que a política não ia retroceder um milímetro e que quem a enfrentasse levaria a pior. em São Paulo, de janeiro a maio, 1 em cada 5 homicídios teve participação da PM; é como se houvesse pena de morte no Estado e a responsável por sua execução fosse não a Justiça, mas a Polícia Militar.

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USP e cracolândia: violência policial para todos

Muitos aplaudiram, no início de novembro de 2011, a ação da PM no campus da USP, quando 400 policiais da Tropa de Choque fizeram a desocupação da reitoria. usando cerca de 50 viaturas e dois helicópteros e prendendo 70 estudantes. Mas aposto que ao verem o vídeo do estudante Nicolas Menezes, estudante de Ciências da Natureza, sendo agredido pelo sargento André Ferreira, pensaram um pouquinho mais sobre o que realmente devem aplaudir. Na gravação, o PM pergunta a Nicolas se o mesmo é estudante da USP. É perfeitamente claro como Ferreira só aborda Nicolas devido à sua cor e ao seu cabelo com dreads. Ele agride Nicolas e chega até mesmo a apontar seu revólver. Depois, o sargento retira sua identificação do uniforme, para que os alunos não consigam identificá-lo. No final, André Ferreira e outro policial – o qual eu não achei o nome em lugar algum – que estava com ele, foram afastados das ruas. E pelo jeito, não vai acontecer nada com eles. Ou seja, cometeu agressão? Sai das ruas por uns meses e pronto. Depois você volta e pode agredir de novo. O pior de tudo é ver o sargento afirmando que não agiu de forma errada ou violenta, que estava apenas cumprindo a sua função. Nem consciência da própria violência o cara tem. Isso também nos deixa outra questão: se os policias agem dessa maneira, mesmo sabendo que estão sendo filmados, imagina o que não acontece dentro das favelas, longe do olhar da mídia e da população?

Podemos usar como exemplo a operação que está sendo realizada na cracolândia. As ações, que visam acabar com a venda e o consumo de crack na região, estão se mostrando nada eficazes e tremendamente truculentas. Fotos de policiais usando balas de borracha e bombas de efeito moral para dispersar usuários estamparam os noticiários. Vários usuários estão fazendo denúncias contra as torturas e agressões que veem sofrendo. Há relatos de atropelamentos por viaturas e de usuários que pedem, mas não conseguem internação. Hoje, saiu uma reportagem sobre uma garota de 17 anos que foi atingida, propositalmente, por uma bala de borracha na boca.  Ou seja, as ações só estão trazendo mais dor e sofrimento para essas pessoas que estão doentes e precisam de apoio, não de mais violência. Cada vez mais, o ódio contra tudo e contra todos cresce dentro dos usuários, que além de enfrentar o vício, têm de enfrentar ações hipócritas, que, dizem o governo, é “para o seu próprio bem”.

Não é novidade que a polícia brasileira é uma das que mais matam no mundo inteiro. Existe um relatório na ONU sobre o assunto. Há pesquisas que dizem que uma pessoa é morta a cada 5 horas pela policia. Poucos casos ganham repercurssão. Por que será, não é mesmo? Que governo vai querer mostrar aos seus cidadãos que a polícia, ao invés de proteger, está, cada vez mais, agredindo e amedrontando?

Deixo aqui, como reflexão, um texto excelente do Sakamoto, intitulado “PM na USP, Cracolândia e as saudades da ditadura”, acho que o título já diz tudo. Boa leitura.

USP e cracolândia: violência policial para todos