sobre café e sussurros

enquanto encho a xícara de café o mundo continua sussurrando lá fora. enquanto bebo meu café, o mundo passa a sussurrar e a girar aqui dentro. tanta vida, tantas possibilidades. aquele sentimento inquietante dentro do peito. estar aqui ou ali não importa, o processo é muito mais interno que externo. então continuo bebendo meu café, na frente da tela do computador enquanto digito e ouço Louis Armstrong com sua voz rouca me dizendo que they can’t take that away from me. you’re right, Louis, you’re right.

ah, não me importo com as sombras atrás de mim. só é possível observar sombras onde há luz. e se há luz, bom, se há luz, a gente sabe que há algum escape. então me refugio no café, na literatura e no jazz. porque quando se está com febre, sentindo uma moleza absurda e não se consegue dormir, você não pode fazer nada além de se jogar de cabeça em alguma coisa. e eu me joguei naquilo que eu tinha em mãos: the great Gatsby.

querido Fitzgerald, o seu “estar” mas não “pertencer” a um lugar, acaba comigo. confesso: sempre fui relutante pra ler the great Gatsby. não, nada contra você, Fitzgerald. muito pelo contrário, sempre fui sua admiradora – desde aquela aula de literatura no colegial quando a professora Izabel nos apresentou, com tales of the jazz age, que foi quando conheci a Zelda também. eu não estava preparada, sabe? eu só queria saber dos malditos, não da sua geração perdida – mal sabendo o quanto vocês eram próximos! me jogava em kerouac e te deixava pra escanteio. “argh, não quero saber desse mundo de riquinhos esnobes! quero a podridão daqueles que cheiram benzina e escrevem sem parar, perambulam pelo mundo como vagabundos esquecidos pelo Estado”. mas claro, o mundo dá voltas. e cá estou eu, imersa nesse mundo de riquinhos esnobes. do alto dos meus 16 anos eu não imaginava que eles teriam tanto a me dizer. mas dizem. e como dizem! retratam a mesma podridão, mas de um lado diferente. retratam as facetas obscuras do ser humano. e afinal, não era isso que eu sempre busquei nos autores? esse retrato angustiante da humanidade? yeah, you fucking got me, Fitzgerald.

as aparências mantidas apenas por convenção. os personagens praticamente já não sabem – se é que um dia souberam – quem são, de tanto usar máscaras para agradar, para ser visto, fingindo ser aquilo que não se é eles acabam realmente se tornando aquilo que não são. e então o vazio toma conta de tudo e é preenchido por mais falsidades, festas incríveis, drinks, roupas caras, viagens… toda a atmosfera mítica em torno do Gatsby deslumbra a todos – inclusive a mim. porque Gatsby é um personagem que eu nunca vou conhecer. sempre vai restar essa bruma ao redor dele, um personagem impenetrável até mesmo para o narrador da história, Nick. repito: you fucking got me, Fitzgerald.

quem nunca se sentiu como o Nick? estando ali, mas “observando de fora”, não com olhares de julgamento, apenas com aquele olhar estrangeiro de não pertencimento. então me coloco ali, frequentando as festas na mansão de Gatsby, dançando, bebendo e ouvindo jazz até às 4 da manhã, quando a lua ainda ilumina os grandes jardins da casa em West Egg.

obrigada, Baz Luhrmann, por levar o livro às telonas (falta muito para 7 de junho?) e me dar esse impulso que faltava para eu finalmente me render ao Gatsby. vou continuar aqui bebendo meu café, ouvindo jazz e, cadê meu colar de pérolas mesmo?

sobre café e sussurros

Apanhador de Sonhos

Eu tinha esquecido o quanto é bom dormir abraçada com outra pessoa, ouvindo a respiração dela e sentindo as batidas do coração.

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Dormi.

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Sonhei que eu tinha uma ratinha chamada Agnes. Ela era preta & branca.

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Minha irmã sonhou que a minha vó ficou triste por mim quando soube que meus ratos morreram. E disse que eu realmente preciso de outros ratos. Ou seja, ela apoia que eu tenha a Agnes.

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Sonhei que eu ia visitar o Humberto em Mogi-Guaçu. Andávamos de skate e de bike. Fazíamos stêncil. Pixávamos os muros. Ajudávamos animais de rua. Tirávamos fotografias de grandes e pequenos momentos e acontecimentos. Conversávamos sobre Proudhon, Bakunin e Malatesta. Discutíamos sobre veganismo e vegetarianismo. Ouvíamos Misfits, Suicidal Tendencies e Beastie Boys. Fumávamos maconha. Bebíamos cerveja, vódega e tequila. Fugíamos da polícia. Líamos Nietzsche, Kerouac, Fante e Bukowski. E de repente eu não queria mais nada além de ficar ali com ele fazendo todas essas coisas. Eu me vi apaixonada por tudo aquilo. Eu estava… apaixonada por ele.

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Depois da ayuhasca meus sonhos ficaram mais nítidos. Abri tantas portas…

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Sonho sempre com ela.

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Mas é preciso sentir-se parte de algo – e alguns de nós, muitos de nós, não conseguem sentir-se parte de coisa nenhuma…

Apanhador de Sonhos

Necessidade

“Eu queria infundir o mundo da escrita com a urgência e o ataque frontal do rock n’ roll”. Não, quem não considera escrever um necessidade, assim como respirar, não compreende essa frase da Patti Smith. Não estou tentando comparar o que eu escrevo com o que ela escreve. O que temos em comum é essa urgência pelas palavras. Coisa que o Caio, a Clarice, o Kerouac, o Buk, o Fante e uma porrada de escritores que eu amo, tinham. Mais uma vez: não estou querendo comparar o que eu escrevo com o que eles escreveram. Estou falando da necessidade de escrever. De depositar todo o caos existente dentro de si nas palavras. Mas… não adianta tentar explicar. Só quem também sente pode entender. Ah, se todos vocês soubessem! Se todos vocês sentissem! Se todos vocês vissem o dono da Tabacaria acenando, ouvissem os solos de guitarra e comessem chocolates! Será que ainda se importariam tanto assim? Não, nem em mim. Nem em mim, meus caros. Muito menos em mim.

Olhando para o meu antebraço, concluo que let it be é a melhor coisa que todo e qualquer ser humano e não humano pode fazer. Ninguém é obrigado a ler o que eu ou qualquer outra pessoa no mundo escreve. Meu espaço, minhas divagações, minhas palavras. Não gosta? Tem um “x” ali em cima, é só clicar nele. Acha que é de verdade, acha que é de mentira? It isn’t my problem, darling. Continuo e continuarei a escrever. Inventando realidades, realizando faz-de-contas. É doce.

A vida é bela, não esquece, tá?

Necessidade