desculpe o auê

coveiros gemem tristes ais e realejos ancestrais juram que eu não devia mais querer você. os sinos e os clarins rachados, zombando tão desafinados querem, eu sei, mas é pecado eu te perder”

mais uma vez nos encontramos aqui, assim, desse jeito sem jeito. nessa angústia sem chão, sem eira, beira, cais. parece até que a gente deu nó, diriam alguns. e pra desatar, como é que faz? um tempo sem graça, carrancudo, sofrido, raivoso que nos enlaça pelo pescoço. um tempo em que nos desmanchamos em mágoas, faltas, desentendimentos. onde faltam sorrisos, abraços, beijos, compreensão, lado a lado. momentos incompletos, de inquietudes. o silêncio gritando, a cabeça rodando, o coração cambaleando, ferido. sobre estar só, eu sei. mas não é assim que eu quero estar. então aguardo aqui, ao seu tempo, a descoberta da porta de saída desse desconforto sem fim. tentando não ser invasiva e efasiva, tentando não colocar palavras que valham menos que silêncio, tentando manter a sanidade, tentando não chorar, tentando colocar um sorriso no rosto, tentando keep calm, tentando não fazer drama. it’s not easy, but i’m trying hard. no mais, espero que você esteja melhor. e que me veja além de uma atitude escrota que se repete. eu não sou fácil, eu sei. falhas que se repetem são sempre as piores, exatamente por se repetirem. o que tenho a dizer é que não é por não-amor, por não consideração, por não importância. é por mal plenejamento mesmo e por falar que vou fazer algo quando não sei ao certo se vou conseguir fazer, por motivo de querer agradar a quem amo. lembra aquele papo sobre a melhor qualidade e o pior defeito? então. deixo aqui as palavras que acho que valem mais do que o silêncio, assim, em um único parágrafo, que é pra não dividir entre partes aquilo que sinto. no aqui e agora, elas valem mais do que qualquer atitude, já que esse nó coloca uma certa ponte incerta entre nós. desculpe o auê, eu não queria magoar você. te amo e não é pouco, só pra te lembrar.

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desculpe o auê

sobre paixão e amor por camelo

(porque não dá pra falar do camelo sem antes falar de LH)

los hermanos não entrou no meu coração depois que ouvi anna júlia. eu tinha 9 anos. o legal era cantar com os amigos e só. los hermanos, oi? foi só mais tarde que os barbudos realmente me pegaram. descobri o primeiro álbum inteiro com uns 13 anos. cantava “quem sabe?” aos berros após uma decepção adolescente. mas a primavera me trazia a esperança. los hermanos nesse época foi uma paixãozinha de adolescente. mas então, anos depois descobri o segundo álbum, lançado em 2011. eputaquepariu. me apaixonei de novo, mas era uma paixão mais madura. porque ninguém era mais sentimental que eu, e eu queria pintar o meu nariz e brincar de ser feliz, e se eu pecava era na vontade de ter um amor de verdade… aí veio o ventura, de 2003. eputaquepariu de novo. ah, eu não queria mais ser uma vencedora, todo mundo que me via lendo jornal na fila do pão sabia que eu tinha te encontrado, não me acanhava em ver vaidade em mim, perguntava quem se atrevia a dizer do que é feito o samba… dessa vez, a paixão se tornou amor. e pra consolidar esse amor, numa espécie de casamento, foi lançado o 4. eu queria ver o horizonte distante, pedir pra nós todo o amor do mundo e ouvia o vento passar e assistia à onda bater.

após o casamento, a banda acabou. mas o amor permaneceu, é claro. rodrigo formou o little joy, banda bacana. e marcelo seguiu carreira solo. então vamos falar do marcelo. camelo, prxs íntimxs. já disse que meu tesão é intelectual, né? então sempre senti um puta apreço pelo cara. e confesso que não gostei quando ele convidou a mallu pra compor com ele e eles começaram a namorar. apesar de gostar da mallu desde aquela época, achava ela muito menininha pra ele (é, eu dou opinião sobre relacionamentos de pessoas que eu nem conheço. quer dizer, conheço sim, mas não conheço). mas o tempo foi passando e tcharãm, malluzinha cresceu, hoje é um mulherão e também me causa um apreço imenso (a-m-o as músicas do último cd dela).

mas voltando ao camelo.

saí da festa de casamento (da minha prima) e fui direto pro show. é, vestido de festa, make up, penteado… o salto eu tirei. ou eu ficava descalça ou eu não conseguia ficar mais de pé. optei pela primeira opção. chegay suada – e já descabelada –, de tão rápido que andei, com medo de não chegar a tempo.

o teatro vila mariana não é tão grande nem tão pequeno e tem uma acústica incrível. sentei de frente pro palco (é um teatro, tem cadeiras e tal, então infelizmente a gente tem que sentar). palco lindo, simples, com umas samambaias pra dar o ar tropical, que me lembrou o clipe “sambinha bom”, da mallu.

camelo entra no palco com pouco mais de 10 minutos de atraso. lindo, lindo, lindo. junto a banda hurtmold e ao trio dos metais: bubu, tiquinho e jaziel. lindos, lindos, lindos. me arrepiei.

em 2008, camelo lançou seu primeiro álbum solo sou – ou, como a arte poema de rodrigo linares nos possibilita ler, nós – e, mais recentemente, em 2011, lançou toque dela. o que presenciamos foi uma mistura de los hermanos e de sua carreira solo.

inevitável não chorar com pois é e acostumar, não se emocionar com janta e cantar morena aos berros. pular com copacabana e menina bordada. o cara sentado ao meu lado, me acompanhava na cantoria (assim como a maioria das pessoas ali naquele teatro). mas chegou um momento em que não dava mais pra ficar sentada, sabe? algo maior que eu. aquela atmosfera que se forma em um ambiente com muita gente curtindo a mesma energia. levantamos. quase todos. ficamos em frente ao palco, pulando, cantando, gritando além do que se vê.

o sentimento era de festa, de comemoração. eu, atônita, em êxtase, sentindo todo o amor do mundo ali. então camelo se despediu. e continuamos ainda um tempo por ali. gosto de quero mais, muito mais. ah, ele distribuiu as samambaias entre o público. acabei ficando sem samambaia. mas trouxe comigo todo o sentimento. todo sentimento me carrega. ficou faltando último romance. será que demora muito tempo pro camelo subir novamente aos palcos?

sobre paixão e amor por camelo

Poema sujo

Não imaginaria o Ferreira Gullar escrevendo esses versos:

e os carinhos mais doces mais sacanas
mais sentidos
para explodir como uma galáxia
de leite
no centro de tuas coxas no fundo
de tua noite ávida
cheiros de umbigo e de vagina
graves cheiros indecifráveis
como símbolos
do corpo
do teu corpo do meu corpo

Mas sim, eles escreveu, no exílio. Fazem parte da sua publicação mais ousada, intitulada “Poema Sujo”. Um daqueles livros que você fica se perguntando: como eu não conhecia isso antes? Aqui você encontra o próprio Gullar recitando os versos, em um vídeo do Instituto Moreira Salles.

***

Lindo acordar com a mensagem dele dizendo que ontem teve show do Los Hermanos.

***

Tanta coisa bonita pra gente viver e aprender… Fico pasma com todas as coisas que ainda não sei. Quero ler mais livros, escutar mais músicas, assistir mais filmes, sentar mais no chão, correr mais pela areia, nadar mais no mar, tomar mais banhos de cachoeira, subir em mais árvores, pisar mais na grama, sentir mais cheiro de terra, olhar mais pra o céu, seguir mais meu coração. Pode soar bobo, mas pra mim é importante. Ter mais você ao meu lado.

***

Saudade da minha sis. Boa viagem e merda no vestibular, amorinha! Falando nela, há um tempo atrás, ela me mandou uns fragmentos de um texto que gostei bastante, mas não sabia de quem era. Hoje descobri que é do Arnaldo Jabor.

Existe gente que precisa da ausência para querer a presença. O ser humano não é absoluto. Ele titubeia, tem dúvidas e medos, mas se a pessoa REALMENTE gostar, ela volta. Nada de drama. Que graça tem alguém do seu lado sob pressão?

O legal é alguém que está com você, só por você. E vice-versa. Não fique com alguém por pena. Ou por medo da solidão. Nascemos sós. Morremos sós. Nosso pensamento é nosso, não é compartilhado. E quando você acorda, a primeira impressão é sempre sua, seu olhar, seu pensamento.Tem gente que pula de um romance para o outro. Que medo é este de se ver só, na sua própria companhia?

Gostar dói. Muitas vezes você vai sentir raiva, ciúmes, ódio, frustração… Faz parte. Você convive com outro ser, um outro mundo, um outro universo. E nem sempre as coisas são como você gostaria que fosse… A pior coisa é gente que tem medo de se envolver. Se alguém vier com este papo, corra, afinal você não é terapeuta. Se não quer se envolver, namore uma planta. É mais previsível.
Na vida e no amor, não temos garantias. Nem toda pessoa que te convida para sair é para casar. Nem todo beijo é para romancear.
E nem todo sexo bom é para descartar… ou se apaixonar… ou se culpar…

Enfim…quem disse que ser adulto é fácil????

Poema sujo

Sonho de uma noite de verão

Eu sabia que era um sonho porque não lembrava ao certo como havia chegado ali. As cores eram vivas e quentes, parecendo um cenário de algum filme do Almodóvar. Era uma casa simples, daquelas de madeira, sem revestimento. Flores e quadros faziam parte da decoração. Da janela avistávamos o céu: laranja, azul, rosa… Uma mistura deliciosa de se observar.

Estávamos nos preparando para sair. “Que para nós dois, sair de casa já é se aventurar”, como na música dos Los Hermanos. Você sorria com os olhos e aquilo me deixava imensamente feliz. Aliás, aquele lugar inteiro inspirava felicidade. Depois procura uma música do Marcelo Jeneci, chamada “Felicidade”, gosto bastante dela.

Ao sairmos, o vento soprava uma melodia parecida com Debussy, e apesar de frio, era confortante. Havia árvores e montanhas. Algo meio bucólico, selvagem, livre. Respirávamos liberdade. A vida era o agora, não o antes ou o depois.

Não lembro ao certo sobre o que conversamos, mas era como se não precisássemos de palavras para nos comunicar. Realmente elas não eram necessárias. Olhares, sorrisos, gestos e toques falavam por nós. Lembro de borboletas e libélulas pelo ar.

Trazendo para o tempo real, o sonho teria poucos minutos, mas enquanto eu sonhava, ele parecia durar horas e mais horas. Horas de aconchego, aventura, sintonia… Horas suas e minhas. Horas que eram nossas.

Então o despertador tocou. Acordei sentindo a sua presença. Mandei uma mensagem de bom dia para você. Você respondeu e disse que estava exatamente pensando em mim naquele momento. Toda aquela sintonia vivida no sonho, afinal, foi experimentada nesse mundo que chamamos de real. No caminho para a faculdade, avistei uma borboleta enquanto ouvia “Felicidade”. Um sorriso permaneceu estampado no meu rosto durante o dia inteiro.

 

Sonho de uma noite de verão