Apanhador de Sonhos

Eu tinha esquecido o quanto é bom dormir abraçada com outra pessoa, ouvindo a respiração dela e sentindo as batidas do coração.

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Dormi.

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Sonhei que eu tinha uma ratinha chamada Agnes. Ela era preta & branca.

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Minha irmã sonhou que a minha vó ficou triste por mim quando soube que meus ratos morreram. E disse que eu realmente preciso de outros ratos. Ou seja, ela apoia que eu tenha a Agnes.

              ***

Sonhei que eu ia visitar o Humberto em Mogi-Guaçu. Andávamos de skate e de bike. Fazíamos stêncil. Pixávamos os muros. Ajudávamos animais de rua. Tirávamos fotografias de grandes e pequenos momentos e acontecimentos. Conversávamos sobre Proudhon, Bakunin e Malatesta. Discutíamos sobre veganismo e vegetarianismo. Ouvíamos Misfits, Suicidal Tendencies e Beastie Boys. Fumávamos maconha. Bebíamos cerveja, vódega e tequila. Fugíamos da polícia. Líamos Nietzsche, Kerouac, Fante e Bukowski. E de repente eu não queria mais nada além de ficar ali com ele fazendo todas essas coisas. Eu me vi apaixonada por tudo aquilo. Eu estava… apaixonada por ele.

             ***

Depois da ayuhasca meus sonhos ficaram mais nítidos. Abri tantas portas…

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Sonho sempre com ela.

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Mas é preciso sentir-se parte de algo – e alguns de nós, muitos de nós, não conseguem sentir-se parte de coisa nenhuma…

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Apanhador de Sonhos

Nem um dia

Mais dias vagando, vagabundeando por aí ao estilo Kerouac. Uma garoa fina e chata caía pelas redondezas da Paulista na quarta-feira. Nada que impedisse algumas cervejas e doses de seleta no bar da 9. Onde tudo isso foi acabar? Na Augusta, claro. Quando estávamos indo em direção àquela rua da perdição, conheci a Cris. Bêbada, MUITO bêbada. Mas linda, simpática e… lésbica.

 Ela acabou indo para Augusta também. Sinuca, cerveja, 4i20, anão. Lá pelas 3 da manhã fomos para casa dela. Ela divide um apartamento com alguns amigos, exatamente ao lado do bar da9. Aprimeira coisa que reparei ali? Os DVDs. Meninos Não Choram, Na Natureza Selvagem, Volver, Clube da Luta, Encontros e Desencontros, E Sua Mãe Também, Amores Brutos… Só filmaço. E eu só querendo assistir algum deles. Mais nada.

Sonhei com coisas com as quais não deveria ter sonhado. Levantei e fui trabalhar. Passadinha na faculdade, MASP, Habib’s e quando eu penso que vou voltar para minha casa… Acabo sendo conduzida para casa de uma amiga na Pamplona.

“Ela fica perguntando de você, ela nunca perguntou sobre as outras meninas que a gente apresentou para ela”. Umas sardinhas lindas. Amo sardas. Mas… nem 18 anos ela tem ainda. Fiquei na minha. Todo mundo esperando que eu tomasse uma posição. Aquela situação meio incômoda, sabe? A ação teve que partir dela. Aí não tive como dizer não, né?!

Dormimos no sofá, entre beijos, amassos e edredons. Mais nada. Espera ela fazer 18.

Nem um dia

CSS

Começou na sexta e só terminou na segunda-feira. As primeiras doses de vódega, depois Augusta, e mais uma vez aqueles brancos em meio a flashbacks do que foi a noite. Manhã, minha casa, Ela, ônibus, Paulista, troca de livros no vão livre do MASP, encontro com uma amiga e a mãe dela, vódega outra vez, Bar do Alves, maracatu, cervejas, futebol, reencontro com algumas pessoas. Augusta novamente, anão, sinuca, mais vódega e cerveja, UFC, 13 de maio, casa da Sophie.

Pessoas conhecidas e desconhecidas, uma cachorra delícia, redes, camas, sofás, Lady Gaga, GTA, Simone de Beauvoir, bons drink… Sabe The L Word? Me senti no The Real REAL L Word. Enfim…

A primeira vez que conheci a Sophie não fui nem um pouco com a cara dela. É engraçado ver como as coisas mudaram hoje. Ela pode ter todo aquele jeitão meio grosso, descarado, marrenta… Mas tem um coração gigante e consegue ser uma das pessoas mais cute que já passaram pela minha vida. Tem explicação aquela nossa crise de choro quando o dia começava a nascer? Todas as palavras que vomitamos uma para outra e que sabíamos que elas nem necessárias eram porque olhávamos uma para outra e compreendíamos? Ocupa um lugar especial aqui dentro agora.

Muita coisa acontecendo em um pequeno intervalo de tempo, sabe? Diante disso tudo, eu continuo pensando em como as pessoas conseguem insistir em ser de mentira, em como conseguem fingir tanto. Aí surge a culpa também. Minha, que fique bem claro, porque surge neguinho que não chegou no começo da missa e quer vir dar lição de moral para o padre. Anyway, como disse a Sophie, estamos nessa sozinhas e sentimos muito mais do que deveríamos sentir, porque no final é sempre a gente que se fode. E olha que nem é literalmente.  

Era quase meio-dia quando fui embora e aquela “náusea existencialista” ainda tomava conta de mim. Na verdade, acho que ela nunca saiu de mim, mas fica mais forte ou mais fraca dependendo do momento. Como diria o Renato Russo, “sei que às vezes uso palavras repetidas”, mas cansa tanto que não tem como não dizer EU CANSEI.

CSS

Pra sempre Alice

Entramos no carro dele, uma daquelas Hilux gigantes. Ele dirigindo, ela ao seu lado no banco da frente. Eu e Otávio no banco de trás com o vidro aberto fumando mais um cigarro. A história é aquela: eu e Otávio na Augusta enchendo a cara quando conhecemos esses dois.

No carro, sabe-se-lá-como começamos a conversar sobre Nietzsche. Mentira sei sim. Acabo de lembrar. Minha memória funciona assim vezenquando (sim, eu quis escrever tudo junto, e aí?): vou lembrando conforme vou escrevendo. Ele disse que era filósofo. Quando perguntei qual filósofo ele admirava mais, a resposta foi certeira: Nietzsche. Me contive pra não soltar um gritinho histérico. Eterno retorno, amor fati, super-homem… Aquele papo intelectual bêbado, sabe?

Saímos da Augusta, fomos a um pub, continuamos enchendo a cara e ouvimos The Strokes, Jet, The Clash, David Bowie, The Cure, enquanto Nietzsche, Schopenhauer, Sartre, Descartes, Platão continuava no repertório. Óbvio que no meio da conversa eu começa a cantar ou a conversar com uma das bartenders tatuadas, mas eu conseguia manter o foco ali. E claro que depois da noite inteira mandando e enchendo a cara, eu não parava de falar.

Em uma mudança de perspectiva, comecei a conversar com a garota me veio com a gente. Garota não, mulher mesmo. Fez curso de piloto – começou a usar uma linguagem técnica que eu não fazia ideia do que ela falava – , quatro filhos, moça do interior que veio para São Paulo… No começo, nada muito inspirador. O lance de verdade começou quando a gente chegou à casa do cara da Hilux.

De cara, avistei “Crepúsculo dos Ídolos” na mesa. Ele ligou o notebook e escolheu um som. Sentamos no sofá. Ele trazia as bebidas, mudava de música e preparava algumas enquanto eu e ela não parávamos de falar. A vidaem São Paulo, as crianças, a morte aos 27, os homens, as mulheres e todo o caralho a quatro.

Já deitados no quarto, cada um em um canto da cama, aquilo se tornou um divã. Traumas de infância, saudade daquilo que não vivemos, uma falta que nunca é preenchida, a necessidade de urgência. Contei minha infância, ela contou a dela. Então chegamos naquele estágio em que sabíamos que estávamos ali mais uma vez, com desconhecidos, na casa de um cara x, enchendo a cara, se drogando e…  E.

Paramos nessa vogal. Não foi a primeira vez nem a última que isso aconteceu/acontecerá. Mas sabíamos que jamais nos contentaríamos e ir para casa, fazer janta e dormir, ter uma vidinha considerada normal. “Porque a gente tem aquele ‘quê’ a mais dos artistas”, foi o que ela disse. Nietzsche sempre soube disso. Sabe aquele meu gritinho histérico já comentado por aqui? Mais uma vez me segurei para não soltá-lo.

“Tudo o que eu vivi me tornou quem eu sou hoje e não eu não mudaria nenhuma experiência”, ela continuava dizendo. Eu concordava e continuava o raciocínio. Sobre as vezes que nos fudemos, sobre o voltar para casa depois de uma noite como aquela. A sensação de que mais uma vez você não encontrou aquilo. E você continuar não sabendo que porra é esse aquilo. Então falamos o quanto transmitíamos isso para a arte, ela por trabalhar com decoração, eu por escrever e como a música unia tudo isso e íamos, íamos, íamos.

Já era quase uma hora da tarde. Havíamos passado a manhã inteira ali. Ele dormindo e a gente sem calar a boca por um só instante. Eis então, do alto e auge da minha loucura, viajo ao mundo de Matrix. Explico toda a cena entre Morpheus e Neo para ela, com as diferenças entre a pílula azul e a vermelha. No final, pergunto qual ela escolheria. Sem hesitar, ela escolhe a azul. Respiro fundo. Explico novamente. Ela continua com a azul.

Depois de toda aquela conversa, alma de artista, desgosto, não voltar atrás, de se tornar o que realmente somos, depois de tudo aquilo, ela vai e escolhe a azul?! “Ah, acordar sem pensar em toda essa merda, sem sentir essa falta, seria a melhor coisa do mundo, eu finalmente poderia dizer que sou feliz, a existência seria tão mais fácil”, foram as palavras dela.

Sabe uma facada no coração? Então. E eu nem a conhecia. De alguma forma, aquilo causou em mim um desconforto enorme. Só eu não trocaria todo esse desconforto por uma venda nos olhos que tornasse o mundo cor-de-rosa? Só eu não vejo graça naquilo que vem fácil?

É curioso como uma coisa tão pequena aos olhos dos outros significou tanto para mim. Pelo jeito a toca do coelho continua sendo só minha. E fim.

Pra sempre Alice

Potencialidades

Estava no bar com dois amigos. Na mesa ao lado, uma mulher tira da bolsa um livro da Virginia Woolf. Não, não resisti. Fui lá e começamos a conversar. Ela já tinha seus 40 e poucos anos, estava ali bebendo cerveja com a filha e os amigos da filha, que estava completando 23 anos. Disse pra ela que achei aquilo lindo, ela bebendo num bar qualquer junto com a filha, de como eu não queria perder essa chama que estava viva nela quando eu ficasse mais velha. Puxamos o assunto pros anos 60, Che Guevara, feminismo e então a filha dela virou pra mim, me levou mais pra perto das pessoas da mesa e soltou:

 – Temos aqui entre nós uma revolucionária!

 Sim, todos pararam, olharam, bateram palmas. Pode parecer babaca. Mas gostei tanto! Tanto, tanto, tanto. Não é extraordinário quando as pessoas reconhecem o potencial revolucionário que existe em você? Mas aí vai de você transformar todo esse potencial em atitude, viu? Eu tento. Tô tentando.

Potencialidades

try just a little bit harder

Como haviam se conhecido mesmo? Ah, sim, no vão livre do MASP devido há alguns amigosem comum. Masisso não vinha ao caso agora. Lembrava que não se deram bem no começo. Por orgulho, por conta de outras pessoas envolvidas na história. Mas de repente, como um vento gelado nos dias quentes e parados, totalmente inesperado, as duas estavam ali, sentadas no bar, confidenciando sentimentos, atitudes e coisinhas secretas.

 Como era de se esperar, June lembrou de Caio Fernando Abreu:

 “Lá está ela, mais uma vez. Não sei, não vou saber, não dá pra entender como ela não se cansa disso. Sabe que tudo acontece como um jogo, se é de azar ou de sorte, não dá pra prever. Ou melhor, até se pode prever, mas ela dispensa.
Acredito que essa moça, no fundo gosta dessas coisas. De se apaixonar, de se jogar num rio onde ela não sabe se consegue nadar. Ela não desiste e leva bóias. E se ela se afogar, se recupera.
Estranho e que ela já apanhou demais da vida. Essa moça tem relacionamentos estranhos, acho que ela está condicionada a ser uma pessoa substituta. E quem não é?
A gente sempre acha que é especial na vida de alguém, mas o que te garante que você não está somente servindo pra tapar buracos, servindo de curativo pras feridas antigas?
A moça…ela muito amou, ama, amará, e muito se machuca também. Porque amar também é isso, não? Dar o seu melhor pra curar outra pessoa de todos os golpes, até que ela fique bem e te deixe pra trás, fraco e sangrando. Daí você espera por alguém que venha te curar.
Às vezes esse alguém aparece, outras vezes, não. E pra ela? Por quem ela espera?
E assim, aos poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará. 
A moça – que não era Capitu, mas também têm olhos de ressaca – levanta e segue em frente. 
Não por ser forte, e sim pelo contrário… Por saber que é fraca o bastante para não conseguir ter ódio no seu coração, na sua alma, na sua essência. E ama, sabendo que vai chorar muitas vezes ainda. Afinal, foi chorando que ela, você e todos os outros, vieram ao mundo.”

 Porque depois de ter recebido muitas facadas, socos e pontapés, ainda conseguia olhar nos olhos da Amy e enxergar verdade. E era uma verdade tão bonita. Estava feliz por confiar em alguém novamente. Mas ainda sentia – e pensou que sempre sentiria e talvez sempre sinta mesmo – aquele medo de se decepcionar. Afinal, ela estava sempre sendo decepcionada ou decepcionando. De qualquer maneira, não podia desperdiçar a verdade que via. Se sentia estupidamente feliz.

 Entre cerveja, vodca, cigarros, astrologia, cocaína, blues, hardcore, feminismo, economia, jornalismo, veterinária e literatura, surgia algo novo. E grande. Era tão bom para June voltar a olhar nos olhos de alguém e sentir novidade, verdade, confiança.

 Era apenas um ser humano, tentando, tentando, tentando mais uma vez. Soube, ali, que SEMPRE continuaria tentando. Mas só quando valesse a pena. E aquilo valia tanto para June!

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