desculpe o auê

coveiros gemem tristes ais e realejos ancestrais juram que eu não devia mais querer você. os sinos e os clarins rachados, zombando tão desafinados querem, eu sei, mas é pecado eu te perder”

mais uma vez nos encontramos aqui, assim, desse jeito sem jeito. nessa angústia sem chão, sem eira, beira, cais. parece até que a gente deu nó, diriam alguns. e pra desatar, como é que faz? um tempo sem graça, carrancudo, sofrido, raivoso que nos enlaça pelo pescoço. um tempo em que nos desmanchamos em mágoas, faltas, desentendimentos. onde faltam sorrisos, abraços, beijos, compreensão, lado a lado. momentos incompletos, de inquietudes. o silêncio gritando, a cabeça rodando, o coração cambaleando, ferido. sobre estar só, eu sei. mas não é assim que eu quero estar. então aguardo aqui, ao seu tempo, a descoberta da porta de saída desse desconforto sem fim. tentando não ser invasiva e efasiva, tentando não colocar palavras que valham menos que silêncio, tentando manter a sanidade, tentando não chorar, tentando colocar um sorriso no rosto, tentando keep calm, tentando não fazer drama. it’s not easy, but i’m trying hard. no mais, espero que você esteja melhor. e que me veja além de uma atitude escrota que se repete. eu não sou fácil, eu sei. falhas que se repetem são sempre as piores, exatamente por se repetirem. o que tenho a dizer é que não é por não-amor, por não consideração, por não importância. é por mal plenejamento mesmo e por falar que vou fazer algo quando não sei ao certo se vou conseguir fazer, por motivo de querer agradar a quem amo. lembra aquele papo sobre a melhor qualidade e o pior defeito? então. deixo aqui as palavras que acho que valem mais do que o silêncio, assim, em um único parágrafo, que é pra não dividir entre partes aquilo que sinto. no aqui e agora, elas valem mais do que qualquer atitude, já que esse nó coloca uma certa ponte incerta entre nós. desculpe o auê, eu não queria magoar você. te amo e não é pouco, só pra te lembrar.

desculpe o auê

se não for devagar, que ao menos seja eterno assim

pin

2013 foi:

 

– loira novamente, undercut, long bob.

 

– curso rosa luxemburgo, cultura brasileira na cásper, pré-projeto de tcc sobre a cultura do estupro, palestras sobre nietzsche, livros da simone de beauvoir, virginia wolf, jane austen e clarice lispector, movimento negro, frente feminista casperiana, eu falando sobre mulher negra, feminismo e mídia na semana de jornalismo da cásper.

 

– viajar para um congresso de educação na costa do sauípe, sair da editora segmento por ter faltado para ir às manifestações, entrar na acontece comunicação & notícias, sair, entrar na beleza na web, onde estou agora, escrevendo sobre, dãr, ~beleza~.

 

– 1 ano de namoro, descobertas e vivências ao lado dela, praia com ela, últimos dias do ano juntas, são vicente, paranapiacaba, uma filha que fugiu, uma gata que ~adotamos~ por uma noite num quarto de hotel, orgasmos incríveis, conversas incríveis, momentos incríveis, algumas brigas e chiliques.

 

– manifestações, amigxs presxs, correr/enfrentar a PM, gás lacrimogêneo e spray de pimenta, além de bala de borracha e gás de efeito moral.

 

– otto na virada cultural, no sesc pompeia, no parque villa-lobos, na casa tpm e no anhangabaú, ao lado dela.

 

– caê cantando leãozinho & tulipa ruiz e baby cantando a menina dança, no ibirapuera, ao lado dela.

 

– criolo, embaixo de chuva, no vale do anhangabaú, ao lado dela.

 

– andar a cavalo, ir com os nenis pela primeira vez à praia (bertioga), nenis morando comigo novamente, hospital, perder minha tia pro câncer em pouquíssimo tempo, entender mais sobre câncer no pâncreas. chorar, chorar, chorar. ter mamis ao meu lado.

 

– umbanda.

 

– pessoas novas e pessoas antigas: todas me mostrando que tenho ao meu lado companheirxs de vida incríveis.

 

– meu aniversário no terraço do leo, o aniversário dela no bar da 9, o show da lana que perdemos, o jogo do game of thrones que ainda não jogamos, as pessoas da vida dela que entraram na minha e as pessoas da minha vida que entraram na dela.

 

claro que 2013 foi ainda muito mais. mas a ~listinha~ já tá ok.

 

e que venha 2014 com muito muito muito mais. pode vir quente que eu tô fervendo.

se não for devagar, que ao menos seja eterno assim

blue days

sempre que os dias são ruins, que bate o desespero, que eu penso nas dívidas e nas angústias, na família cobrando uma postura de filha-perfeita e tendo uma postura de não-aceitação, nos juros, em fazer tudo sozinha, nos cabelos brancos que ainda nem estão aqui, na comida dos meus bichos que tenho que comprar, no passeio matinal com os cachorros versus mais meia horinha na minha cama, no meu siso crescendo há anos, no TCC e na faculdade, no dinheiro que eu não tenho, nas unhas descascando, na política desabando, nos prazos estourando, nas mentiras que estão contando, nas pessoas me cobrando, eu tento lembrar que ela ainda tá aqui. e aí nada parece tão ruim assim.

blue days

sobre coisas bonitas

304 dias. a cada dia chegamos mais longe. a cada dia adentramos ainda mais o universo particular de cada uma. a cada dia me conheço mais. a cada dia você me surpreende – e me ensina, me encanta, me fascina, me faz ter cada vez mais certeza – e olha que eu supunha não poder uma certeza já grande assim continuar crescendo – de que é com você que eu quero dividir tudo o que eu sou. dia a dia, lado a lado, sabe?

nesses 10 meses descobrimos vários ângulos e facetas uma da outra. encontramos alguns aspectos que nos machucaram e que fizeram algumas nuvens surgirem, mas conseguimos nos manter de pé – escolhemos nos manter de pé. porque, afinal, é também sobre isso que se trata: querer estar. e não me vejo querendo estar em nenhum outro lugar que não seja ao seu lado – por mais que muitas vezes, algumas atitudes possam não demonstrar. tô aprendendo; estamos aprendendo.

quando olho pra você, quando olho pra gente, vejo essa coisa gigante. enxergo essa imensidão de coisas boas e prazerosas, algo grandioso mesmo, saca? fora do comum. maior do que qualquer outra coisa. maior do que eu mesma. de um tamanho que eu não imaginava que fosse capaz de existir – ou melhor, apenas imaginava e fantasiava, e hoje eu sei, eu sinto, que é real, que sim, é capaz de existir algo desse tamanho todo. é tão lindo e grande e misterioso que dá até medo – um medo bom, que fique claro.

eu penso em você e um monte de coisa bonita me vem à mente. por isso é extremamente frustrante e difícil e complicado os dias em que as tais nuvenzinhas estão sobre nós. porque as coisas bonitas não são bonitas sem você. são sem graça, sem vida, sem brilho. em compensação, quando você está, são as mais bonitas entre as mais bonitas.

entre doses de vódega, maços de cigarro, intermináveis conversas, confidências, saliva, suor, sexo, sorrisos, besteiras, risadas, lágrimas, olhares, toques… eu encontrei o maior amor que eu já senti. eu encontrei a pessoa que me proporciona a melhor experiência da minha vida. que me faz feliz e me transborda. é você, sempre foi você. love of my life – por mais clichê que essa frase possa parecer. it’s you.

entre uma coisa e outra, você me mostrou um lugar diferente e lindo, que eu não consigo – e não quero – tirar da cabeça. parabéns pra gente, meu amor. repito a frase que já usei em outras cartas: se a gente vai juntinho, vai bem. te amo infinitamente.

always yours,

g.

sobre coisas bonitas

23

“Eu me lembro que um dia acordei de manhã e havia uma sensação de possibilidade. Sabe esse sentimento? E eu me lembro de ter pensado: Este é o início da felicidade. É aqui que ela começa. E, é claro, haverá muito mais. Nunca me ocorreu que não era o começo. Era a felicidade. Era o momento. Aquele exato momento.” – Virginia Woolf

sun

hoje de manhã o sol veio sussurar em minha pele. ele me pegou. logo cedinho, ali estava eu, entorpecida pelo sol. o caminho não parecia nem um pouco sombrio. havia uns cantos escuros no trajeto, mas não eram nem um pouco assustadores. não tinha nada de muito diferente nessa rotina de acordar cedo e pegar esse caminho, exceto essa sensação de possibilidade. sim, o sussuro do sol foi isso: possibilidade. de repente, here comes the sun. as coisas tornam-se mais vívidas. quase um filme do Almodóvar. não sei, só sei que foi assim: coloriu. até as formiguinhas sorriram pra mim nesse momento, sabe? não foi nada e ao mesmo tempo foi grandioso. aquelas pequenas epifanias que às vezes acontecem na vida da gente. um “eu faço parte dessa porra de universo, caralho!”. “o sol tá aqui pra me aquecer, o vento tá cantando em meus ouvidos, as folhas tão balançando nas árvores, o cachorro tá latindo lá na esquina – e eu me sinto conectada com toda essa porra, caralho!”. por alguns instantes, tudo parecia fazer sentido. a little bit insane, i know. mas ela estava ali: possibilidade. ela tá aqui, de pernas arreganhadas.

não sei, mas talvez tenha algo a ver com o dia de ontem: meu aniversário. ano novo astrológico, como dizem. será? sendo ou não sendo, o fato é que sim, sinto como se eu acabasse de começar um novo calendário. novinho em folha, cheio dessas possibilidades que o sol me sussurou. o mundo oscilava e estremecia e eu fazia parte disso. não havia ninguém além de mim e do universo inteiro. é tão estranho o poder do sentir em certos momentos. eu sentia! como se eu tivesse trazido à superfície algo que, ao se manifestar, fosse intangível mas ao mesmo tempo possível. um sentimento extremamente excitante. toda uma febre de viver que no fundo, é a própria simplicidade da vida. assim eu me aproximava da vida, o sol cada vez mais forte, os sussurros cada vez mais altos, algo extraordinário prestes a acontecer. a própria vida, cada um de seus momentos, aquele e este instante, agora, sob o sol. eis aí a verdade: há vida e beleza por toda parte (até mesmo no pior lugar do mundo a vida e a beleza ainda estão lá).

de repente o sol me trouxe a certeza de que tudo daria certo. aquela experiência solitária de comunhão que as pessoas enfrentam sozinhas, assim meio do nada. eu tinha a impressão de estar por toda a parte, não apenas aqui ou ali, mas por toda parte. a vida fluindo: absorvente, misteriosa, com uma abundância infinita. o que afinal, agora, significava isso pra mim, essa coisa chamada de vida? o que era essa excitação que tomava, tomou, toma conta de mim?

fazer dar certo.

ps.: e hoje faz 8 meses que eu namoro a mulher da minha vida ♥

23

mirrors

de repente, me vi olhando para ela e desejando-a por uma vida inteira – por infinitas vidas, se isso for possível. porque pela primeira vez na vida eu olho para olhos que me dizem sem dizer, que me respondem tudo aquilo que nenhum outro conseguiu responder. e é quando eu percebo que nós fomos feitas para ser. para ser isso que a gente é juntas. desde sempre. desde que trocamos o primeiro olhar, a primeira palavra, o primeiro beijo. a gente só não tinha dado conta disso ainda. e mesmo se tivéssemos nos dado conta. não estávamos preparadas. não estávamos preparadas uma para a outra. hoje estamos. e se tem algo pelo o qual eu tenha a agradecer a Krishna, Jesus, Oxalá, Buda, etc, etc, etc é por ter te encontrado. ter te encontrado no meio de tanta gente que não me diz nada. ter te encontrado nesse deserto de almas e corpos vazios.

há 7 meses, essa proximidade de inquietações, angústias, sonhos e ideias me faz enxergar muito mais além. me faz querer viver o aqui e o agora. aproveitar cada fucking moment ao lado dela. porque são esses momentos que me fazem sorrir todo dia antes de dormir. e sem esses momentos nada disso faria todo esse sentido, sabe?

 

 

mirrors