Eat, pray and love again

E lá vamos nós a mais doses de Eat, Pray, Love…

O Felipe, falando para a Liz:

– Só os jovens e idiotas são confiantes em relação a sexo e namoro. Você acha que algum de nós sabe o que está fazendo? Acha que existe alguma forma de os seres humanos se amarem sem complicação? O amor é sempre complicado. Mas, mesmo assim, os seres humanos precisam tentar se amar, querida. A gente precisa ter o coração partido algumas vezes. Isso é um bom sinal, ter o coração partido. Quer dizer que a gente tentou alguma coisa.

Aí a Liz responde:

– Meu coração se partiu com tanta força da última vez – falei – que ainda está doendo. Não é uma loucura? Ainda estar com o coração partido quase dois anos depois do fim de uma história de amor?

Então o Felipe solta essa:

– Querida, sou do sul do Brasil. Sou capaz de ficar com o coração partido durante dez anos por causa de uma mulher que nem cheguei a beijar.

Não me apaixonei pelo Felipe assim que ele surgiu no livro. Mas sabia que eu ia acabar gostando dele…

***

Será o Ketut ainda está vivo? Eu realmente gostaria de ter um xamã balinês divertido como ele. Seja tendo 85 ou 112 anos, ele mantém o corpo forte meditando e puxando a energia saudável do universo para o seu próprio centro. Ele diz que o corpo humano é feito dos cinco elementos da crianção: água (apa), fogo (tejo), vento (bayu), céu (akasa) e terra (pritiwi) e que tudo o que você precisa fazer é se concentrar nessa realidade durante a meditação para receber energia de todas essas fontes. Então, “o microcosmo vira o macrocosmo. você, microcosmo, vai virar o mesmo que universo, macrocosmo”, nas palavras dele.

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Ketut ensina para Liz a Meditação dos Quatro Irmãos. Os balineses acreditam que cada um de nós, quando nasce, vem acompanhado de quatro irmãos invisíveis que nos protegem durante a vida inteira. Os irmãos encarnam as quatro virtudes de que uma pessoa necessita para ter segurança e felicidade na vida: inteligência, amizade, força e poesia. Os irmãos podem ser chamados em qualquer situação crítica para resgatar e ajudar. Quando você morre, seus quatro irmãos espirituais recolhem sua alma e levam você para o céu. Ele ensinou para ela os nomes dos irmãos invisíveis dela – só não sei se cada um tem quatro irmãos com nomes próprios ou esses nomes são para os quatro irmãos de todo mundo – Ango Patih, Maragio Patih, Banus Patih e Banus Patih Ragio – e disse a ela para decorar esses nomes e a pedir a ajuda deles ao longo da vida. Preciso descobrir se esses nomes são para todos ou não.

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Uma frase linda da guri da Liz é que a felicidade é consequência de um esforço pessoal, não mera questão de sorte.

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Ah, essa parte, se me permite, quero citá-la por inteiro… Porque acho que é realmente apenas aceitando tudo o que fizemos, que podemos ficar em paz. Sem dramas. Aceitar e se perdoar. Por que não reconhecer cada sentimento, aceitá-lo, perdoá-lo e então, finalmente, poder seguir em frente?

No meu nono dia de silêncio, fui meditar certa tarde na praia na hora em que o sol estava se pondo e só tornei a me levantar depois da meia-noite. Lembro-me de pensar: “É isso aí, Liz.” Disse à minha mente: “Esta é a sua oportunidade. Mostre-me tudo que a está deixando triste. Mostre-me tudinho. Não esqueça nada.” Um por um, os pensamentos e recordações de tristeza ergueram a mão e se levantaram, identificando-se. Eu olhava para cada pensamento, para cada unidade de tristeza, reconhecia sua existência e sentia (sem tentar me proteger daquilo) sua terrível dor. Então dizia àquela tristeza: “Tudo bem, eu te amo. Eu te aceito. Agora entre no meu coração. Acabou.” Eu realmente sentia a tristeza (como se ela fosse uma coisa viva) entrar no meu coração (como se este fosse um aposento de verdade). Então dizia: “Quem é o próximo?”, e o pedacinho seguinte de dor surgia. Eu o reconhecia, vivenciava-o, abençoava-o e convidava-o a entrar também no meu coração. Fiz isso com cada pensamento triste que já havia tido – recorrendo a anos de memória – até não sobrar mais nada.Então eu disse à minha mente: “Agora mostre sua raiva para mim.‖ Um por um, todos os incidentes de raiva da minha vida foram surgindo e se apresentando. Todas as injustiças, todas as traições, todas as perdas, todas as zangas. Eu olhava para todas elas, uma por uma, e reconhecia sua existência. Sentia cada pedacinho de dor de forma completa, como se estivesse acontecendo pela primeira vez, e então dizia: “Agora entre no meu coração. Lá você vai poder descansar. Agora está tudo bem. Acabou. Eu te amo.” Isso durou horas, e eu oscilava entre dois poderosos pólos de sentimentos contrários — durante um instante de tremenda intensidade, vivenciava a raiva e, em seguida, era acometida por uma calma total, à medida que a raiva entrava no meu coração como se passasse por uma porta, deitava-se, enroscava-se junto a suas irmãs e desistia de lutar.Então veio a parte mais difícil. “Mostre para mim a sua vergonha”, pedi à minha mente. Meu Deus, que horrores eu vi então. Um desfile lamentável de todas as minhas falhas, minhas mentiras, meu egoísmo, meu ciúme, minha arrogância. Mas não desviei os olhos de nada disso. “Mostre para mim o seu pior”, falei. Quando tentei convidar essas unidades de vergonha para entrar no meu coração, todas elas hesitaram diante da porta, dizendo: “Não, você não quer que eu entre aí… então não sabe o que eu fiz?”, e eu dizia: “Eu quero você, sim. Até você. Quero mesmo. Até você é bem-vinda aqui. Está tudo bem. Você está perdoada. Você faz parte de mim. Pode descansar agora. Acabou.”Quando tudo isso terminou, eu estava vazia. Nada mais lutava em minha mente. Olhei para dentro do meu coração, para minha própria bondade, e vi sua capacidade. Vi que meu coração não estava cheio nem até a metade, nem mesmo depois de ter acolhido e cuidado de todas aquelas espinhosas calamidades de tristeza, raiva e vergonha; meu coração poderia facilmente ter acolhido e perdoado ainda mais. Seu amor era infinito.Percebi então como Deus ama todos nós e recebe todos nós, e que não existe no universo nem céu nem inferno, a não ser, talvez, em nossas mentes aterrorizadas. Porque se um único ser humano que fosse, ferido e limitado, podia vivenciar apenas um episódio assim de perdão e aceitação absolutos de seu próprio ser, então imaginem — apenas imaginem! — o que Deus, em Sua eterna compaixão, é capaz de perdoar e aceitar.

Eu imagino! Eu imagino! Eu imagino!

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Eat, pray and love again

Peaces of Liz – and me

A prudência espiritual me irrita e fico entediada e exaurida com o debate empírico. Não quero mais ouvir isso. Estou pouco me lixando para provas, demonstrações e seguranças. Tudo o que quero é Deus. Quero Deus dentro de mim. Quero Deus brincando na minha corrente sanguínea da mesma forma que a luz se diverte sobre a água.

***

 Uma interação entre a graça divina e o esforço pessoal direcionado.

***

 NÃO VOU MAIS ABRIGAR PENSAMENTOS QUE NÃO FOREM SAUDÁVEIS.

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INSTRUÇÕES PARA A LIBERDADE

1. As metáforas da vida são as instruções de Deus.

2. Você acaba de subir até o topo do telhado. Não há nada entre você e o Infinito. Agora,

liberte-se.

3. O dia está terminando. E hora de alguma coisa que foi bonita se transformar em outra coisa que também seja bonita. Agora, liberte-se.

4. O seu desejo de resolução foi uma prece. O fato de você estar aqui é a resposta de Deus. Liberte-se e veja as estrelas surgirem — do lado de fora e do lado de dentro.

5. Com todo seu coração, peça a graça e liberte-se.

6. Com todo seu coração, perdoe-o, PERDOE A SI MESMA e liberte-o.

7. Permita que sua intenção seja a liberdade do sofrimento inútil. Então, liberte-se.

8. Veja o calor do dia se transformar em noite fresca. Liberte-se.

9. Quando o carma de um relacionamento termina, resta apenas o amor. E seguro. Liberte-se.

10. Quando o passado finalmente tiver saído de você, liberte-se. Depois desça e comece o resto da sua vida. Com grande alegria.

A Liz recebeu esse bilhete do Richard e me encaminhou.

***

Querido Deus, por favor, me mostre tudo que preciso entender sobre o perdão e a entrega.

***

Eu sei que eu falo para caralho. A Liz também:

“Essa tem sido a história da minha vida. É assim que eu sou. Mas tenho pensado ultimamente que talvez isso seja um defeito espiritual. O silêncio e a solidão são práticas espirituais universalmente reconhecidas e existem bons motivos para isso. Aprender a disciplinar sua fala é uma forma de evitar que suas energias se esvaiam de você pelo buraco da sua boca, exaurindo você e enchendo o mundo de palavras, palavras, palavras, em vez de serenidade, paz e contentamento. . Resolvi isso. Não vou mais correr de um lado para o outro, não vou mais fofocar nem fazer piadas. Não vou mais virar o centro das atenções nem dominar as conversas. Não vou mais fazer aquele sapateado verbal em troca de migalhas de afirmação. Chegou a hora de mudar”.

***

“Deus vive dentro de você, como você”. Se existe uma única verdade nesse yoga, essa frase a resume. Deus vive dentro de você com você mesmo, exatamente da maneira que você é. Para conhecer Deus, você só precisa renunciar a uma coisa: à noção de que você é algo distinto de Deus. “Sempre fui tão fascinada por essas almas etéreas, delicadas. Sempre quis ser a moça silenciosa. Provavelmente, justamente porque não sou e, se Deus quisesse que eu fosse uma moça tímida, Ele teria me criado assim, mas não criou. Talvez, então, seja útil aceitar como fui criada e assumir plenamente a mim mesma desse jeito. Isso não significa que eu não possa ser devota. Não significa que não possa melhorar a mim mesma como ser humano, aprimorando minhas virtudes e trabalhando diariamente para minimizar meus vícios. Por exemplo, nunca serei uma pessoa calada, mas isso não significa que eu não possa dar uma boa olhada nos meus hábitos de fala e alterar alguns aspectos, melhorando-os – trabalhar dentro da minha personalidade. Sim, eu gosto de falar, mas talvez não precise falar sobre mim mesma de forma tão constante…”.

***

Por que contorcer-se em uma caixinha bem pequenininha de identidade, quando você pode, em vez disso, vivenciar a sua infinitude?! “Por que passei toda a minha vida correndo atrás da felicidade, quando o contentamento estava aqui o tempo todo?”, como perguntaria a Liz.

Peaces of Liz – and me

Soulmate

Porra, Liz, porra! – para quem não leu o livro, Sacolão é o apelido “carinhoso” que o Richard dá para a Liz.

– Escute aqui, Sacolão — diz Richard. — Algum dia você vai olhar para trás, para este momento da sua vida, e pensar que época deliciosa de luto ele foi. Vai ver que estava lamentando a sua perda, e que o seu coração estava despedaçado, mas que a sua vida
estava mudando, e que você estava no melhor lugar possível do mundo para fazer isso: em um lindo lugar de adoração, cercada de graça. Aproveite esse tempo, aproveite cada minuto. Deixe as coisas se resolverem aqui na Índia.

– Mas eu amava ele de verdade.- Grande coisa. Você se apaixonou por uma pessoa, e daí? Não entende o que aconteceu? Esse cara tocou um lugar do seu coração mais profundo do que você pensava que era capaz de alcançar. Em outras palavras, você foi fisgada, menina. Mas esse amor que você sentiu foi só o começo. Isso é só o amor mortal, limitado, café com leite. Espere para ver como você é capaz de amar mais profundamente do que isso. Nossa, Sacolão… você tem a capacidade de um dia amar o mundo inteiro. É o seu destino. Não ria.

– Não estou rindo. – Na verdade, eu estava chorando. – E, por favor, não vá você rir de
mim agora, mas acho que o motivo pelo qual é tão difícil para mim esquecer esse cara é que eu realmente achava que o David fosse a minha alma gêmea.

– Provavelmente era. O problema é que você não entende o que essa expressão significa. As pessoas acham que a alma gêmea é o encaixe perfeito, e é isso que todo mundo quer. Mas a verdadeira alma gêmea é um espelho, a pessoa que mostra tudo que está prendendo você, a pessoa que chama a sua atenção para você mesmo para que você possa mudar a sua vida. Uma verdadeira alma gêmea é provavelmente a pessoa mais importante que você vai conhecer, porque elas derrubam as suas paredes e te acordam com um tapa. Mas viver com uma alma gêmea para sempre? Não. Dói demais. As almas gêmeas só entram na sua vida para revelar a você uma outra camada de você mesmo, e depois vão embora. Acabou, Sacolão. A missão do David era acordar você, tirar você daquele casamento do qual você precisava sair, destroçar um pouquinho o seu ego, mostrar para você os seus obstáculos e vícios, despedaçar o seu coração para uma nova luz poder entrar, deixar você tão desesperada e fora de controle que você fosse obrigada a transformar a sua vida, e depois apresentar você à sua mestra espiritual e sair fora. Essa era a função dele, e ele foi ótimo, mas agora acabou. O problema é que você não consegue aceitar isso, que esse relacionamento tinha um prazo de validade bem curto. Você parece um cachorro cheirando lixo, baby… fica lambendo uma lata vazia, tentando tirar mais comida lá de dentro. E, se você não tomar cuidado, essa lata vai ficar presa no seu focinho para sempre e tornar sua vida infeliz. Então largue isso.

– Mas eu amo ele.

– Então ame ele.

– Mas eu sinto saudade dele.

– Então sinta saudade. Mande um pouco de amor e de luz sempre que pensar nele, depois esqueça. Você só está com medo de largar os últimos pedacinhos do David porque aí vai estar sozinha de verdade, e Liz Gilbert morre de medo do que vai acontecer se ficar realmente sozinha. Mas o que você precisa entender é o seguinte, Sacolão. Se você liberar todo esse espaço na sua mente que está usando agora na sua obsessão por esse cara, vai descobrir um vazio ali, um espaço aberto… uma entrada. E adivinhe o que o universo vai fazer com essa entrada? Ele vai entrar… Deus vai entrar… e vai encher você com mais amor do que você jamais sonhou. Então pare de usar o David para fechar essa porta. Esqueça isso.

– Mas eu queria que eu e o David…

Ele me interrompe.

– Está vendo, é esse o seu problema. Você quer coisas demais, baby. Parece uma galinha tentando quebrar o próprio ossinho da sorte.

Essa frase me arranca a primeira risada do dia.

Aí depois disso ele começa a falar o quanto ela é controladora, o quanto ela quer controlar tudo – e praticamente ela sempre conseguiu controlar, só que com David foi diferente…

– Deixe eu te dizer uma coisa, Sacolão… você precisa parar com essa mania de querer controlar tudo.

Ao ouvir isso, minha raiva me consome como um fogo. Mania de querer controlar tudo? EU? Penso até em dar um tapa em Richard por causa desse insulto. E então, bem lá do fundo da intensidade da minha indignação ofendida, vem a verdade. A verdade imediata,
evidente, risível. Ele tem toda razão. O fogo sai de mim tão depressa quanto entrou.

– Você tem toda razão — digo.

– Eu sei que tenho razão, baby. Escute, você é uma mulher poderosa e está acostumada a conseguir o que quer da vida, e não conseguiu o que queria da vida nos seus últimos relacionamentos, e isso te deixou toda travada. Dessa vez, a vida não fez o que você queria. E nada deixa uma controladora mais puta da vida do que a vida não fazer o que ela quer.

– Por favor, não me chame de controladora.

– Mas você é controladora, Sacolão. Fale a verdade. Ninguém nunca disse isso para você
antes?

Então tomo coragem e digo:

– Tudo bem, acho que provavelmente você tem razão. Talvez eu tenha mesmo mania de querer controlar tudo. Só acho estranho você ter reparado. Porque eu não acho que isso seja óbvio para quem vê de fora. Quero dizer… Aposto que a maioria das pessoas não
consegue ver esse meu problema na primeira vez em que olha para mim.

Richard do Texas ri tanto que quase deixa cair o palito da boca.

– Não consegue ver? Benzinho… O Ray Charles conseguiria ver a sua mania de querer controlar tudo!

-Tudo bem, acho que para mim chega deste papo, obrigada.

– Você precisa aprender a se soltar, Sacolão. Senão vai ficar doente. Nunca mais vai conseguir ter uma boa noite de sono. Vai passar a vida inteira rolando de um lado para o outro, se culpando por ter sido tamanho fiasco na vida. Qual é o meu problema? Como é possível eu estragar todos os meus relacionamentos? Por que eu sou um fracasso tão total? Deixe eu adivinhar… foi provavelmente isso que você passou horas acordada fazendo ontem à noite, de novo.

-Tá bom, Richard, chega – digo. – Não quero mais você escararunchando a minha mente.

– Então feche a porta – diz meu grande iogue do Texas.

PORRA, LIZ, PORRA!

Soulmate

Liz

Já disse que estou lendo Comer, Rezar, Amar. O que eu não disse é que eu tinha certo preconceito em relação a esse livro por achá-lo um mero best-seller dedicado a mulherzinhas. Porra, como eu estava enganada. A cada página eu me apaixono e me identifico mais com a Liz. Ela escreve, tem um lances meio bicho-grilo, gosta de viajar, é pós-feminista, odeia o Bush, é ligada em astrologia e política, pratica ioga…

Agradeço pelo livro ter chegado em minhas mãos agora. Se eu tivesse lido antes, não me conectaria tanto com a narrativa. Liz, você chegou no momento certo. Não que eu vá usar o livro como uma bula de remédio e seguir ao pé da letra tudo aquilo. Do tipo, resolver aprender italiano em Roma e depois viajar para Índia e para Indonésia. Claro que isso seria incrível. Conhecer os melhores restaurantes da Itália, visitar um ashram na Índia e ter um Guru na Indonésia. Mas calma lá: eu faço faculdade e não tenho essa grana toda para bancar essas viagens.

Nem por isso vou ficar indiferente. Aliás, seria IMPOSSÍVEL ficar indiferente a esse livro. Porém, ao invés de utilizá-lo como uma bula de remédio, posso utilizá-lo como uma espécie de guia. Um guia para o autoconhecimento. Porque se tem algo no que esse livro tem realmente me ajudado é a olhar para mim e perguntar: o que eu quero? Quem eu sou? O que eu posso fazer para atingir o que eu quero? O que posso fazer para descobrir quem eu sou?

Em sua viagem pela Itália, Liz se depara com a sua depressão a lhe fazer perguntas: “Pergunta se eu acho que tenho algum motivo para estar feliz. Pergunta por que estou sozinha esta noite, outra vez. Pergunta (embora já tenhamos passado por esse mesmo interrogatório vezes sem conta) por que não consigo manter um relacionamento, por que estraguei tudo com todos os homens com quem já estive. Pergunta onde acho que vou estar quando ficar velha, se continuar vivendo assim”. Ela ainda não tem respostas para essas perguntas – não ainda no capítulo em que eu parei. Nem eu. Também não tenho essas respostas. Mas estamos buscando obtê-las, não é mesmo, Liz?

Ela continua: “Quando se está perdido nessa selva, algumas vezes é preciso algum tempo para você se dar conta de que está perdido. Durante muito tempo, você pode se convencer de que só se afastou alguns metros do caminho, de que a qualquer momento irá conseguir voltar para a trilha marcada. Então a noite cai, e torna a cair, e você continua sem a menor ideia de onde está, e é hora de reconhecer que se afastou tanto do caminho que sequer sabe mais em que direção o sol nasce. O que estava na raiz de todo aquele desespero? Seria psicológico? (Culpa de mamãe e papai?) Seria apenas temporário, um “período difícil” da minha vida? Seria genético? Seria cultural? Seria astrológico? Seria artístico? (As pessoas criativas não sofrem sempre de depressão por serem ultra-sensíveis e especiais?) Seria evolucionário? (Será que carrego comigo o pânico residual que vem de milênios de tentativas da minha espécie de sobreviver em um mundo brutal?) Seria cármico? (Será que esses espasmos de tristeza são apenas as conseqüências de um mau comportamento em vidas passadas, os últimos obstáculos antes da libertação? Seria hormonal? Nutricional? Filosófico? Sazonal? Ambiental? Será que eu estava experimentando uma ânsia universal por Deus? Será que estava com um desequilíbrio químico? Ou será que eu simplesmente precisava transar?) Que quantidade incrível de fatores constitui um único ser humano! Em quantas camadas nós funcionamos, e que quantidade de influências recebemos de nossas mentes, corpos, histórias, famílias, cidades, almas e almoços! Passei a ter a sensação de que minha depressão se devia provavelmente a uma combinação instável de todos esses fatores, e provavelmente também incluía algumas coisas que eu não saberia nem identificar nem explicar. Então, passei a lutar em todas as frentes”.

Após ler esse trecho, eu só podia dizer UOU. Não é exatamente assim que me sinto? Não são exatamente essas as perguntas que me faço? A diferença é: ainda não passei a lutar em todas as frentes. AINDA. Sim, estou disposta a lutar em todas as frentes. Planejando mudanças, traçando novos rumos, prevendo novos caminhos. Estamos nessa juntas, Liz. A única diferença é que você visitou três países para se encontrar. Eu vou me procurar aqui mesmo.

A primeira coisa que Liz escreveu no diário dela quando estava na Itália, foi que estava fraca e com muito medo. Que a Depressão e a Solidão apareceram e que ela estava com muito medo de elas nunca mais irem embora. Na época, ela tinha acabado de deixar de tomar remédios para controlar o humor. “Estou com pânico de nunca mais conseguir dar um jeito na minha vida”, foram as palavras que ela usou. De repente, como resposta, de algum lugar de dentro dela, surgiu uma presença familiar, que a ofereceu todas as certezas que ela sempre quis que outra pessoa lhe desse quando ela estava com problemas. Ela escreveu, então, para ela mesma, no papel: “Estou aqui. Eu amo você. Não me importo se você tiver de passar a noite inteira acordada chorando, eu fico com você. Se você precisar dos remédios de novo, não tem problema, tome – eu vou amar você do mesmo jeito, se fizer isso. Se você não precisar dos remédios, vou amar você do mesmo jeito. Não há nada que você possa fazer para perder o meu amor. Vou proteger você até você morrer, e depois da sua morte vou continuar protegendo você. Sou mais forte do que a Depressão e mais corajosa do que a Solidão, e nada nunca vai me desanimar”.

Fechei o livro, apertei-o contra o peito e chorei. Chorei pensando naquelas palavras. Chorei pensando em tudo que vivi até aqui. E no final, pouco antes de adormecer, sorri. Sorri porque aquelas palavras também eram minhas.

Dormi abraçada com o livro. Nunca tinha dormido assim nem com Caio F, Nietzsche, Kerouac, Bukowski, Henry Miller, Jack London, Tolstói, Thoureau, Sartre, Dostoievski, John Fante ou qualquer outro autor que considero do caralho. Mas dormi assim com a Liz. Algo que eu não esperava, mas que está sendo incrível nessa minha jornada…

Liz

Love, pray, eat

A verdadeira sabedoria fornece a única resposta possível para determinado instante e, naquela noite, voltar para a cama era a única resposta possível. Volte para a cama, disse aquela voz interior onisciente, porque você não precisa saber a resposta final neste instante, às três horas da manhã de uma quinta-feira de novembro. Volte para a cama, porque eu amo você. Volte para a cama, porque a única coisa que você precisa fazer por enquanto é descansar um pouco e cuidar bem de si mesma até saber a resposta…

Love, pray, eat

Amar, rezar, comer

“Se você tem a coragem de deixar para trás tudo que lhe é familiar e confortável (pode ser qualquer coisa, desde a sua casa aos seus antigos ressentimentos) e embarcar numa jornada em busca da verdade (para dentro ou para fora), e se você tem mesmo a vontade de considerar tudo que acontece nessa jornada como uma pista, e se você aceitar cada um que encontre no caminho como professor, e se estiver preparada, acima de tudo, para encarar (e perdoar) algumas realidades bem difíceis sobre você mesma… então a verdade não lhe será negada.” – Elizabeth Gilbert

Embarcando nessa jornada. Comer, rezar, amar. Não necessariamente nessa ordem…

Amar, rezar, comer