O machismo nosso de cada dia

A violência contra a mulher afeta 35% das mulheres no mundo, segundo relatório da Organização Mundial de Saúde

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Em pleno século 21, a maioria das mulheres ainda sente medo ao caminhar sozinha pelas ruas. Esse temor é apenas um dos reflexos da sociedade patriarcal e machista em que vivemos até hoje. Muitos passos foram dados, direitos conquistados no mercado de trabalho e na política, mas a violência contra a mulher continua presente na vida de milhares de brasileiras.

A diretora-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Margaret Chan, classificou a violência contra mulher como um problema de saúde global no mesmo patamar de uma epidemia. Um relatório divulgado pela entidade em junho, diz que a violência física e sexual atinge 35% das mulheres no mundo e é cometida, em sua grande maioria, pelos seus parceiros íntimos. Isso significa que uma em cada três mulheres sofreu algum tipo de abuso. O documento diz ainda que 45% das mulheres africanas e 36% das mulheres que vivem em regiões das Américas e do leste do Mediterrâneo já sofreram violência sexual.

Os números no Brasil também são alarmantes: segundo a Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), estima-se que a cada 12 segundos uma mulher é abusada sexualmente no país. O Dossiê Mulher 2013, feito pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), traz informações relativas à violência contra a mulher no Estado do Rio de Janeiro, e aborda os principais crimes que milhares de mulheres sofrem cotidianamente, como a lesão corporal dolosa, a ameaça, o atentado violento ao pudor, o estupro, o homicídio doloso e a violência doméstica.

Segundo a pesquisa, 58.051 mulheres foram vítimas de agressão. Entre elas, 4.993 foram abusadas sexualmente. Em comparação com 2011, o número representa um aumento de 23,8%. De acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em cinco anos, os registros de estupro aumentaram 168%.

 O perigo mora ao lado

O que torna a violência ainda mais estarrecedora é que na maioria das vezes, ela é praticada por pessoas próximas: cerca de 51,2% das vítimas conhecem seu agressor. São homens que estão ali, vivendo próximos das mulheres que violentam e que muitas vezes não são punidos pelo medo que a vítima tem de denunciar alguém que mora ao seu lado – ou na sua própria casa.

No caso de M.M., a agressão aconteceu onde ela menos esperava: seu companheiro, militante de esquerda, certa noite, começou a forçar a barra: “Foram quase 7 meses para eu conseguir assumir para mim mesma que sofri violência sexual. Eu não queria acreditar que logo ele tivesse feito isso comigo. Acabei ainda sendo culpabilizada por boa parte do grupo de esquerda do qual fazíamos parte. Muitos deles não acreditam até hoje no abuso. Um estupro não é só violência física – o seu psicológico fica acabado também”, relata a jovem de 25 anos.

Essa é apenas uma das demonstrações de como o comportamento machista está tão enraizado em nossa sociedade, que quando um homem se apropria do corpo de uma mulher para impor suas vontades, é a mulher que acaba sendo culpada por supostamente “despertar no homem esse desejo”.

513 anos se passaram desde que os primeiros colonizadores chegaram aqui, e a ideia de que as índias estavam sexualmente disponíveis pra eles devido à exposição do seu corpo, continua sendo reproduzida hoje em dia quando um homem se acha no direito que abusar de uma mulher por que ela está com a roupa muito curta ou bebeu demais em uma festa.

Ou ainda, como no caso citado, o homem tem a ideia da mulher como sendo sua posse – e que por isso, pode abusar da maneira que bem entender. Afinal, ela não tem voz. E ele é o provedor. Qualquer semelhança com Casa Grande e Senzala, do escritor Gilberto Freyre, não é mera coincidência. Conquistamos um Iphone, mas ainda não temos a liberdade de escolher se estamos ou não sexualmente disponíveis pra alguém.

 Combatendo o inimigo

O “Mulher, viver sem violência” é  um programa coordenado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR) que propõe iniciativas que visam à melhora ao atendimento às mulheres vítimas de violência. Neste ano R$137,8 milhões estão sendo investidos para que o programa comece a funcionar logo, entre os custos, R$25 milhões serão destinados para a ampliação da Central de Atendimento à Mulher, R$ 13,1 milhões para a humanização da atenção da saúde pública e R$ 6,9 milhões para humanização da perícia para aperfeiçoamento da coleta de provas de crimes sexuais.

O governo federal objetiva melhorar as coletas de provas de crimes sexuais que quais serão feitas no momento em que a vítima busca contraceptivos de emergência. Na chamada “cadeia de custódia”, vestígios de sêmens e outras provas do agressor serão coletados. Após, seguirão para os IMLs, a fim de compor o conjunto de provas periciais que servirão de base para processos judiciais de responsabilização de agressores, estupradores e assassinos.

Renato Meirelles, diretor do Instituto Data Popular, um dos realizadores da pesquisa “Percepção da sociedade sobre a violência e assassinatos de mulheres”, traz mais dados: mais da metade das pessoas abordadas conhece uma mulher que já foi agredida pelo parceiro. Ele ressalta que os serviços de apoio à mulher devem ser mais difundidos. “Com exceção da Delegacia da Mulher, conhecida por quase todos, mas presente em poucos municípios, os serviços para as vítimas de violência ainda são pouco divulgados”.

Para Wânia Pasinato, socióloga pós-doutorada do Núcleo de Estudos de Gênero PAGU, da Unicamp, e pesquisadora sênior do Núcleo de Estudos da Violência da USP, os canais para as denúncias são importantes mas não são a solução: “A rede de atendimento à mulher em situação de violência é muito tímida frente ao que a Lei propõe e requer, desde a integração dos serviços até uma atenção mais integral às mulheres, em que a criminalização da violência seja uma das respostas, mas não a única”.

Ela acredita que combater esse tipo de violência é um processo cultural e por isso, mais demorado. “É difícil imaginar que em cinco ou seis anos o machismo acabaria. Políticas públicas que desconstruam esse processo, através da educação e conscientização, são fundamentais”, completa.

Milhares de mulheres em todo o mundo tiveram ou terão seus corpos submetidos à dominação da violência, seja ela sexual ou não. Contrapor-se ao silencio pode ser o primeiro passo para o entendimento crítico da violência, tanto por parte de suas vítimas como pela sociedade. Desnaturalizar um fenômeno social e cultural, que começou há 513 anos atrás, é preciso para que toda mulher possa caminhar pelas ruas, usar a roupa que bem entender e confiar em seu parceiro sem medo de ser violentada.

O machismo nosso de cada dia

No title

Primeiro quero deixar esse texto do sempre bom Sakamoto. E complementar: ninguém tá aqui pra servir ninguém, seja homem ou mulher.

Depois quero falar do caso da Julia Gabriele, a criança de 11 anos que sofreu um cyberbullying perverso. Na verdade não quero falar muito não. Esse texto já fala por mim.

E tem também a reintegração de posse na zona leste de SP que teve início hoje pela manhã (com muita truculência, gás lacrimogêneo, spray de pimenta e bomba de efeito moral, como sempre) e que foi suspensa agora a tarde. E o mais impressionante: HADDAD mandou suspender a operação! SIM, a prefeitura fez algo digno! Haddad ganhou minha admiração. Sério. Não que eu morra de amores por ele, mas essa atitude demonstra um caráter fudido e mostra como DÁ SIM PRA FAZER DIFERENTE. Se liga na proposta dele.

Outra coisa: é uma sensação de impotência total quando uma amiga próxima sofre um abuso e ainda não se sente a vontade para falar sobre isso. Porque você fica preocupada com ela, mas não quer ser incisiva a ponto de cutucar ainda mais a ferida. Aí tudo o que você tem a fazer é esperar até ela se sentir bem para vomitar tudo o que aconteceu – e continuar apoiando, deixando claro que você está ao lado dela.

 

 

No title

O fim da Aldeia Maracanã: não é assim que se faz uma Copa do Mundo

indioHoje acordei com uma notícia péssima. A de que a polícia invadiu a Aldeia Maracanã para retirar os índios e manifestantes que protestavam contra a desocupação do espaço. Hoje, a Aldeia Maracanã viu seu fim pelas mãos truculentas da polícia e do Estado. É esse o país do futuro. É esse o país que abrigará a Copa do Mundo. Parabéns, Brasil.

“Cada vez que se comete um ato de violência que coloca em risco a integridade de um grupo social indígena, se esfacela sua cultura, seu modo de vida, suas possibilidades de expressão. É uma porta que se fecha para o conhecimento da humanidade, como dizia Levi-Strauss. É essa a Copa do Mundo que o governo quer fazer? É esse espetáculo da violência, a lição civilizatória que o Rio de Janeiro tem para mostrar ao mundo? A política-espetáculo tem um efeito simbólico: mostrar que o avanço do projeto de cidade, rumo aos megaeventos esportivos, far-se-á a qualquer custo” – Fernanda Sánchez, professora da UFF e pesquisadora sobre os megaeventos e as cidades. Leia o texto completo aqui.

O fim da Aldeia Maracanã: não é assim que se faz uma Copa do Mundo

PCC

GALERA, EIS A INFORMAÇÃO QUE ME CHEGA. NÃO TEM COMO DAR 100% DE CERTEZA QUE É REAL, MAS TÔ REPASSANDO.

Para quem é de São Paulo, hoje o PCC está informando que todos devem ficar em suas casas, o toque de recolher será por toda cidade, como (ou pior) que em 2006. Minhas fontes são pessoas que realmente sabem o que anda acontecendo e acreditem em mim, não vale a pena arriscar, não? Hoje, à partir das 20h00, estejam em suas casas, tranquilos e trancados. Só não se esqueçam, moradores de bairros centrais e de zonas habitadas pela classe média e alta, que isso é decorrente dos MASSACRES que a Polícia Militar de SP vem causando em várias favelas e em bairros de classe baixa, por toda grande cidade. Quero só ver se agora esse grande problema causará impacto em outras fatias da sociedade que está acompanhando a mídia mainstream e que tem seus olhos fechados para a impunidade da Polícia Militar. De novo, não vale arriscar. Fiquem em casa e seguros (diferentes das centenas de pessoas que são assassinadas pela PM na periferia, ainda que em suas casas).

PCC

Adolf Hitler continua sorrindo no inferno

“São Paulo, dia 1º de outubro de 1992, 8h da manhã. Aqui estou, mais um dia, sob o olhar sanguinário do vigia”.

Durante quase toda a existência, o presídio conviveu com a superlotação e a violência. A célebre frase de Luiz Camargo Wolfmann, diretor da casa entre 1980 e 1986, dita em 1983, se concretizou: “No dia em que houver uma rebelião vai ser uma coisa tão terrível que entrará para a história do mundo”.

Superlotação, falta de assistência jurídica e médica, presos com penas já cumpridas, deficientes mentais, presos de alta e baixa periculosidade misturados, falta de funcionários, violência, motins, homicídios, corrupção, abuso sexual, tráfico de drogas, corrupção… O Carandiru era a verdadeira imagem do que um presídio NÃO deveria ser. Era nítido que se tratava apenas de uma questão de tempo para um assassinato em massa acontecer…

Uma briga entre presos desencadeou uma rebelião no pavilhão 9… “Era a brecha que o sistema queria”: para conter a revolta, a Tropa de Choque, comandada pelo coronel Ubiratã Guimarães, invadiu o prédio. Em cerca de 30 minutos, o chão do lugar se revestiu de sangue. Detentos foram metralhados pelos policiais – mesmo depois de se entregarem -, outros tiveram órgãos arrancados por cães. Um dos sobreviventes relatou: “eles não deram chance, abriam as portas e apertavam o gatilho”.

111 detentos mortos. Um episódio sinistro que marcou para sempre a história do sistema carcerário do Brasil. 20 anos depois do massacre, ninguém foi punido. Só o coronel Ubiratã Guimarães, foi julgado pelo caso – e absolvido por ter agido, ao ver da Justiça (Justiça????) no “estrito cumprimento do dever”. Para constar: Guimarães foi assassinado em seu apartamento, em 2006. Apenas semana passada a Justiça (!!!) resolveu agir: foi marcado para 28 de janeiro de 2013 o julgamento de 28 dos 100 policiais acusados por homicídios e lesões corporais. Mas… a Justiça (é rir para não chorar) não autorizou as exames de balística nas armas utilizadas pelos PMs, pois segundo o juiz José Augusto Nardy Marzagão, não haveria evolução nas investigações de uma perícia que está “fadada ao insucesso” e passados 20 anos, não teria como examinar com precisão os projéteis que estariam oxidados. Assim, os exames que poderiam identificar os autores dos disparos que mataram os 111 presos não serão feitos.

Em 2001, o presídio foi implodido. Eu estava na casa da minha avó. Lembro das pessoas dizendo ver fantasmas/monstros e afins na fumaça que a explosão causou. Lembro de ter visto uma tentativa de apagar da memória um dos episódios mais sangrentos do país. Hoje, no lugar do antigo Carandiru, existe o Parque da Juventude. Onde havia uma prisão, hoje há uma biblioteca onde não existem livros relatando o horror vivido ali por milhares de detentos. As vozes dos que sofreram foram abafadas, porém não caladas. Que o sofrimento não seja esquecido e que os culpados sejam, enfim, punidos. A memória deve ser mantida para que algo parecido não se repita – se bem que é só olhar para atual condição carcerária do país e para o crescente número de pessoas mortas pela polícia que vemos que não estamos tão distantes assim do 2 de outubro de 1992… Em 20 anos, nada mudou em matéria de direitos humanos.

Adolf Hitler continua sorrindo no inferno

Siriando-se

Mais de 17 mil mortos desde o início dos protestos na Síria, há 18 meses. Dia após dia, homens e mulheres de todas as idades saíram às ruas para protestar contra o governo opressivo do ditador Assad. Era um massacre diário. Vários vídeos relatam o caos vivido por eles. Há menos de um mês, eles decidiram que não iriam mais ser vítimas desse massacre: partiram para a luta armada. O jogo virou: segundo observadores, os rebeldes controlam 60% do território. Vários membros do governo assassino já desertaram.

Um deles me chamou a atenção em sua declaração ao sair da Síria: Riyad Farid Hijab, primeiro-ministro que fugiu ontem. “Hoje, anuncio minha deserção do regime terrorista e assassino, e anuncio que me somo às fileiras da liberdade e da dignidade da revolução” foi a frase que ele usou.

Se minha indignação foi enorme, imagino como não se sentiu o pessoal lá na Síria. O desgraçado serviu o regime de Assad, que chamou de terrorista e assassino, a vida inteira e agora que Assad está a um fio de cair, vem dizer que se soma “às fileiras da liberdade e dignidade da revolução”? Vai se fuder, cara. Hipocrisia é pouco.

Quando começou sua vida polícia, Hijab era sunita, mas como se integrou em um regime alauita, foi para o lado dos alauitas. Agora que a coisa tá feia para o Assad, vem querer pagar de bem feitor dos rebeldes. Ou seja, tudo para tentar se manter no poder. Quero ver se a população Síria vai cair nessa. 18 meses de conflito, mais de 17 mil mortos e uma revolução armada para depois cair novamente nas mãos de vermes escrotos? Não, Síria, por favor, não.

Álvaro de Cózar, enviado do jornal “El País” a Aleppo, perguntou em uma reportagem, “o que leva um jovem universitário a gastar US$ 1 mil em um fuzil Kalashnikov e ir para a guerra?”. A resposta veio do filósofo iraniano Ramin Jahanbegloo: “durante meio século, todo o mundo acusou os cidadãos árabes, turcos e iranianos de não mostrar suficiente interesse em conquistar as liberdades democráticas nem lutar verdadeiramente para livrar-se de seus governantes autoritários. Nos últimos tempos, no entanto, milhões de egípcios, tunisianos, iranianos, iemenitas, sírios e bareinitas demonstraram que essa acusação não era certa, ao levar a cabo mobilizações cada vez mais amplas contra os tiranos”.

Uma frase de um estudante universitário de 23 anos, Ahmed, reflete bem a situação: “No começo acreditávamos em protestos pacíficos, mas a resposta do regime foi tão brutal que eu e a maioria dos meus colegas aderimos ao ELS (Exército Livre da Síria)”.

Alguma dúvida de que se eu estivesse lá eu pegaria em armas também? Aliás, no próximo dia 13 fico sabendo se consegui vaga no Curso de Jornalismo em Situações de Conflito Armado e Outras Violências. Não acharia nem um pouco ruim ser correspondente de algum jornal e cobrir situações assim. Não porque eu goste de violência. Mas porque situações como essas devem ser mostradas. Não dá para se calar diante de atrocidades. Meu papel como jornalista não seria apenas o de relatar o que está acontecendo, mas o de fazer parte dessa realidade para poder transformá-la (só que nesse caso minhas armas seriam as palavras).

Siriando-se

Páginas de sangue

No domingo, saiu na Ilustríssima, da Folha de S. Paulo, uma matéria intitulada  Os livros pensam a violência: “Homicídios crescem, a polícia faz ações destrambelhadas, PMs são mortos. Os números assustam e o governo admite uma ‘escalada na violência’. Em salas de aula e em pesquisas de campo, o tema fervilha. Livros, teses, mapas, estatísticas tentam decifrar o fenômeno e propor políticas para atacá-lo”.

Gabriel de Santis Feltran é um sociólogo que entrevistou lideranças e moradores de três bairros de Sapopemba. Ele escreve sobre a experiência em “Fronteiras de Tensão – Política e Violência nas Periferias de São Paulo”, considerada pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), a melhor tese de doutorado de 2009.

No livro, ele comenta que nessa área, últimos anos, a representatividade dos movimentos sociais diminuiu, o trabalho assalariado formal ficou escasso, o acesso às políticas sociais e ao crédito cresceu, com isso o crime avançou e passou a disputar a atração dos mais jovens. Ele fala sobre a relação entre traficantes e trabalhadores. “Os traficantes e ladrões pouco a pouco assumem o papel da força armada que regula as regras de convivência e faz a justiça no varejo, pelo debate constante de qualquer atitude considerada inadequada, ilegítima ou imoral”, comenta.

Feltran critica a “criminalização da pobreza”: a periferia é vista como lugar de bandido, como algo que não pode integrar e sim algo que se deve controlar e excluir. Outro sociólogo, Claudio Beato, constata que “o Brasil é, hoje, um dos países mais violentos do mundo, e sabemos pouco das razões dessa supremacia”. Homens, negros, moradores de periferias urbanas são as principais vítimas de homicídios no país.

“Todos os esforços de nosso sistema de Justiça e de organizações às voltas com segurança pública parecem proteger justamente aqueles que estão menos expostos à violência. A concentração de equipamentos de proteção social, bem como de recursos de segurança pública, se dá de forma desigual”, emenda Beato.

Michel Misse, 61, sociólogo da UFRJ, fala sobre os homicídios: “O aparelho policial não está no ar, está dentro da sociedade. Por exemplo, o modo pelo qual matamos ladrões. Não matamos assassinos, matamos ladrões! E jamais legalmente, aprovando a pena de morte. Matamos criminosamente, fazemos justiça com as próprias mãos. Um cara que em qualquer país do mundo pegaria cinco, oito anos de cadeia, aqui ele é morto sistematicamente desde meados dos anos 1950. Isso é um fenômeno estritamente brasileiro. Começou na época dos esquadrões da morte, depois se espalhou. Começou no Rio, em pleno governo JK, em plena bossa nova, num período desenvolvimentista”. Misse comenta isso e muito mais em “As Ciências Sociais e os Pioneiros nos Estudos sobre Crime, Violência e Direitos Humanos no Brasil”, livro com entrevistas de 14 intelectuais da área.

Paulo Sérgio Pinheiro integrante da Comissão da Verdade comenta que no Brasil, a democracia não acabou com a tortura. “A culpa de a tortura continuar não é da polícia. É culpa dos governos e dos políticos, que não querem fazer o jogo da verdade em relação ao problema da democracia e dos direitos humanos. O Brasil tem essa esquizofrenia de ser o país que mais mata suspeitos pelas polícias do Rio e de São Paulo. Os números do Rio e de São Paulo não se equiparam aos de nenhuma democracia do mundo”.

A matéria não ignora o caótico sistema carcerário do nosso país. O encarceramento é uma bomba retardada. 230 mil presos são provisórios, sem condenação. 20% dos encarcerados ou já cumpriram pena, ou nunca deveriam ter estado presos, ou deveriam ter recebido progressão da pena. Não há ressocialização nas prisões. Tem desde o sujeito que roubou leite para o filho até o matador, convivendo lado a lado. A prisão está produzindo delinquentes.

David Fonseca, da UFMG, fala mais sobre o tema em “Ambivalência, Contradição e Volatividade no Sistema Penal”. Ele diz que não há reintegração nem reabilitação, a prisão é como um gerenciador de “lixo”, de algo que não “serve” para a sociedade e deve ser mantido afastado.

“A prisão, em vez de ser o último recurso, funciona como um mecanismo de exclusão e controle, no qual os infratores são segregados e têm seus direitos completamente desconsiderados se eles oferecem um risco para a sociedade”, diz Fonseca.

Todos os autores concordam em um ponto: a questão da segurança não é pensada politicamente no Brasil, mas de um modo muito repressivo, muito primitivo, no sentido de que se quer uma vingança.

Outro ponto a ser visto, é que não basta combater apenas a pobreza. Políticas públicas voltadas para a educação e a cultura são indispensáveis para reverter esse quadro problemático.

PS.: Meu aniversário tá chegando e aceito de presente esses livros que citei no texto!

Páginas de sangue