Bus(lightyear)

Sento no banco do ônibus e começo a ler Eat, Pray, Love. Começo a ouvir uma música baixa que vai aumento aos poucos. E fico surpresa quando descubro que não é alguém ouvindo funk pelo celular. É alguém ouvindo Suddenly I see – não lembrava de quem era a música, apesar de saber cantá-la e de amar a letra. “She got the power to be, the power to give, the power to see”, tem como não gostar?!

Começo a cantar baixinho e a sorrir por for a e por dentro. Depois veio “Ainda bem”, da Marisa Monte. Teve “Patience” do Guns, “Deixa a menina sambar” do Chico e a última que ouço antes de descer do ônibus foi, pasmem, DEBUSSY! Sim, DEBUSSY, com “Clair de Lune”. Fiquei pasma, claro, e encantada, óbvio.

Acabo não vendo o ser iluminado que colocou essas músicas para tocar. Mas fui sorrindo a viagem inteira. E ok, tudo bem que algumas pessoas podem se incomodar com alguém escutando música alta – e realmente elas têm todo o direito de se incomodar – mas, porra, não é todo dia que você pode se dar ao luxo de ouvir um playlist assim enquanto está dentro do ônibus indo para casa!

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Sonho de uma noite de verão

Eu sabia que era um sonho porque não lembrava ao certo como havia chegado ali. As cores eram vivas e quentes, parecendo um cenário de algum filme do Almodóvar. Era uma casa simples, daquelas de madeira, sem revestimento. Flores e quadros faziam parte da decoração. Da janela avistávamos o céu: laranja, azul, rosa… Uma mistura deliciosa de se observar.

Estávamos nos preparando para sair. “Que para nós dois, sair de casa já é se aventurar”, como na música dos Los Hermanos. Você sorria com os olhos e aquilo me deixava imensamente feliz. Aliás, aquele lugar inteiro inspirava felicidade. Depois procura uma música do Marcelo Jeneci, chamada “Felicidade”, gosto bastante dela.

Ao sairmos, o vento soprava uma melodia parecida com Debussy, e apesar de frio, era confortante. Havia árvores e montanhas. Algo meio bucólico, selvagem, livre. Respirávamos liberdade. A vida era o agora, não o antes ou o depois.

Não lembro ao certo sobre o que conversamos, mas era como se não precisássemos de palavras para nos comunicar. Realmente elas não eram necessárias. Olhares, sorrisos, gestos e toques falavam por nós. Lembro de borboletas e libélulas pelo ar.

Trazendo para o tempo real, o sonho teria poucos minutos, mas enquanto eu sonhava, ele parecia durar horas e mais horas. Horas de aconchego, aventura, sintonia… Horas suas e minhas. Horas que eram nossas.

Então o despertador tocou. Acordei sentindo a sua presença. Mandei uma mensagem de bom dia para você. Você respondeu e disse que estava exatamente pensando em mim naquele momento. Toda aquela sintonia vivida no sonho, afinal, foi experimentada nesse mundo que chamamos de real. No caminho para a faculdade, avistei uma borboleta enquanto ouvia “Felicidade”. Um sorriso permaneceu estampado no meu rosto durante o dia inteiro.

 

Sonho de uma noite de verão

To Debussy

em meio a tanta confusão

insônia e corações partidos

uma nota soa em meus ouvidos

e parece resgatar o já tão perdido equilíbrio

o tic-tac do relógio dá espaço

para dedos que passeiam solenemente pelo piano

ora sereno, ora intenso

parece compreender minha inquietude

minha instabilidade

como uma fuga em meio ao caos

uma maneira de tornar a minha caótica mente

um lugar decente

talvez apenas um pouco menos decadente

em noites intermináveis

ou mesmo em trágicos dias abomináveis

uma a uma

em escala maior e escala menor

penetram distintamente pelos orifícios mais difíceis

um orgasmo musical dissolve-se em meus ouvidos

To Debussy