Behind your eyes

Nos encontramos no bar, por acaso. Ou melhor, não por acaso, pois não acredito em acasos. Melhor dizendo: nos encontramos sem ter programado nada. Sentamos na mesma mesa, bebemos da mesma cerveja e claro, começamos a conversar. “Seus olhos brilham quando você fala dele” foi o que ela me disse. Eu fiquei sem graça. Ela não foi a primeira pessoa que me disse algo assim. Logo eu? Tá tão na cara? Eu não consigo nem ao menos disfarçar? “Eu quero gostar de alguém dessa maneira também”, ela completou.

Dois dias depois ela vem falar comigo: “Tô amando. Precisava te contar. Sabe seus olhos brilhando? Os meus estão iguais agora”. Mesmo de longe, eu pude ver os olhos dela brilhando. E fiquei feliz! Uma vontade imensa de sair por aí mostrando o brilho dos meus para que o brilho dos outros também possa acender. É bobo, eu sei, mas e daí?! Eu ando meio boba ultimamente mesmo…

Aliás, agora somos duas bobas. E nem nos importamos… Na real, acho que até gostamos. SENTIR é mais importante do que qualquer especulação, divulgação ou preocupação, diz aí!

Behind your eyes

Ir e vir

Eu tava sem fumar há exatos 19 dias. Fazia um bom tempo que não encontrava a Lilis também. Ela é, pra mim, tipo aquela garota que pro Renato Russo ensinou quase tudo que ele sabia. Nos conhecemos ainda pivetes, no tempo da escola, ela alguns anos mais velha do que eu. Ela veio aqui em casa conhecer as minhas ratas antes de irmos pra o bar e encontrarmos o Gus. Conheci o Gus por causa dela, eles faziam faculdade de geografia juntos. Foi com ele que assisti ao show do vocalista do Bright Eyes no StudioSP.

A Lilis riu da minha make up de verão: sombra rosa, lápis laranja rente aos cílios inferiores e pó bronzeador nas bochechas.

Começamos só com cerveja, e com a chegada de outras duas amigas, a Dani e a Tetê, partimos pra vódega e pra tequila.

Minha chinchila, a Lovefoxxx, tinha morrido pela manhã. Um dos pássaros do pai da Dani também tinha morrido há pouco tempo. Ficamos pensando em como é péssimo se desfazer do corpo de um animal. “Quando tem pêlo, é pior ainda”, segundo ela.

Sei que no final da noite eu tava com a frase “I’m a free bitch” escrita no peito. É, primeira noite bêbada de 2012…

Nessa noite, enquanto eu e a Lilis dividíamos a mesma cama, ficamos conversando sobre as garotas que fazem a nossa vida girar – pro bem e pro mal. E dormimos assim, com o pensamento longe, uma saudade e uma vontade sem tamanho.

Ir e vir

Nem um dia

Mais dias vagando, vagabundeando por aí ao estilo Kerouac. Uma garoa fina e chata caía pelas redondezas da Paulista na quarta-feira. Nada que impedisse algumas cervejas e doses de seleta no bar da 9. Onde tudo isso foi acabar? Na Augusta, claro. Quando estávamos indo em direção àquela rua da perdição, conheci a Cris. Bêbada, MUITO bêbada. Mas linda, simpática e… lésbica.

 Ela acabou indo para Augusta também. Sinuca, cerveja, 4i20, anão. Lá pelas 3 da manhã fomos para casa dela. Ela divide um apartamento com alguns amigos, exatamente ao lado do bar da9. Aprimeira coisa que reparei ali? Os DVDs. Meninos Não Choram, Na Natureza Selvagem, Volver, Clube da Luta, Encontros e Desencontros, E Sua Mãe Também, Amores Brutos… Só filmaço. E eu só querendo assistir algum deles. Mais nada.

Sonhei com coisas com as quais não deveria ter sonhado. Levantei e fui trabalhar. Passadinha na faculdade, MASP, Habib’s e quando eu penso que vou voltar para minha casa… Acabo sendo conduzida para casa de uma amiga na Pamplona.

“Ela fica perguntando de você, ela nunca perguntou sobre as outras meninas que a gente apresentou para ela”. Umas sardinhas lindas. Amo sardas. Mas… nem 18 anos ela tem ainda. Fiquei na minha. Todo mundo esperando que eu tomasse uma posição. Aquela situação meio incômoda, sabe? A ação teve que partir dela. Aí não tive como dizer não, né?!

Dormimos no sofá, entre beijos, amassos e edredons. Mais nada. Espera ela fazer 18.

Nem um dia

B-day

21. O que me veio à cabeça foi aquele filme do Iñarritu: 21 gramas. Mas não é sobre o suposto peso da alma que eu quero falar. São os meus 21 anos mesmo. Maioridade total agora. Maior abandonada, só pra lembrar o Cazuza. E já que falamos dele, tem toda aquela questão do tempo não parar. Um pensamento sempre levando ao outro, já percebeu? Mais ou menos como os aforismos de Nietzsche: “minha ambição é dizer, em dez frases, o que todos os outros dizem num livro… o que todos os outros não dizem num livro”. O que também leva ao Kerouac quando diz que um dia ele vai achar as palavras certas e elas serão simples.

Mas voltando ao tempo… Li há alguns dias atrás, um dia antes do meu aniversário, mais precisamente, um texto intitulado “Sobre a economia do tempo”, que o Sêneca escreveu para um amigo dele chamado Lucílio. No texto, Sêneca diz para o amigo apoderar-se novamente de si mesmo, que muitas partes de nós são arrancadas e outras escorrem pelos dedos, mas que a maior perda de todas é causada pela negligência. Nas palavras dele: “a maior parte da vida se passa agindo mal, uma grande parte sem fazer nada, toda a vida se passa fazendo outra coisa que não o que seria necessário fazer”. Praticamente um tapa na cara ou um soco no estômago. E é tão mais forte ouvir isso quando é o seu aniversário! Algo assim: porra, tô com 21 anos, e aí? “Tudo o que está no passado, a morte já o possui”, Sêneca continua na carta. É aquele despertar, saca? Pô, tá aproveitando a vida ou tá de bobeira deixando tudo passar? “Portanto, meu caro Lucílio, faze tal como escreves: abarca todas as horas”. Ele poderia muito bem ter escrito Grazie no lugar de Lucílio. Se encaixaria perfeitamente bem. A vida na nossa cara e a gente escondido dentro de várias carcaças. Não dá pra ser assim, né?

Não vai ser assim, definitivamente, se depender de mim. E depende. Sem mea culpa. Sem porra nenhuma de desculpa. Nietzsche mais uma vez: “jamais dei um passo em público que não comprometesse”, então, se eu fiz, tô fazendo ou vou fazer, eu assumo, eu arrisco, eu me banco. Enfim, 21 anos. Deixar de ir pro bar sempre esteve fora de cogitação. Ainda mais por que um amigo veio de Assis pra também comemorar o aniversário dele por aqui. Detalhe: chegamos todos no bar e cadê ele? Foi chegar umas duas horas depois. Mas isso não fez com que as coisas ficassem menos divertidas. Quem acabou dando uma passada por lá foi o Yhuri. Falem o que for dele, eu tenho o cara no meu coração. Me enalteceu. Uma presença também linda foi a da Mari. Ela chegou me chamando de Grazie, me dando os parabéns e… eu nem sabia ao certo quem ela era. Leonina como sou, nem gostei dela ter chegado dessa maneira, não é mesmo?! Fofíssima, fofíssima, fofíssima. Eu sei que de repente estávamos nós duas na Augusta dentro de uma casa de sadomassoquismo. E acho que tinha um carro também. Na verdade, tenho quase certeza. Só não sei de quem era. E nem quem entrou nele além de mim e da Mari.

Antes da Augusta, uma dose de tequila pros aniversariantes – e pra Dani também – e um digno parabéns. Aliás, um traveco veio nos desejar feliz aniversário, derrubou uma das nossas doses e ficamos discutindo pra colocarem outra. Não colocaram. Sinceramente? Não lembro muito ao certo o que aconteceu depois disso. Acho que foi quando entramos no carro e paramos na Augusta. Enfim… Sei que encontramos o Pietro, a Sofia e alguns amigos dela no meio do caminho. Augusteamos mais um pouco – não me pergunte, mais uma vez, o que fizemos porque eu não lembro ao certo – e fomos até a Consolação pegar um ônibus pra irmos até a minha casa. Quem foi comigo? Pietro, Tetê, Sofia e dois amigos dela que eu não conhecia (ainda): Bruno e Mayara. Também tinha um terceiro que até hoje eu não faço idéia de quem era.

[não, não vai mais continuar]

B-day

Played-out

Depois de 6 meses sem beber, como em um programa de desintoxicação, um amigo voltou ao álcool nosso de cada dia. Por escolha própria, claro. Para comemorar esse dia tão esperado, fomos todos ao bar prestigiar a volta dele à bebedeira.

Foi no nosso bar de estimação, claro. Fazia tempo que não juntava tanta gente ao mesmo tempo naquele lugar. Velhos e novos rostos. O gosto por cerveja continua igual. Mas as pessoas? Quanta diferença! Lembro das primeiras vezes que me sentei por ali e hoje vejo como meu olhar mudou e continua mudando sobre todo o contexto que envolve aquele bar, aquelas pessoas. Movimento constante, saca?

Não fica necessariamente melhor ou pior, mas diferente. Depois de conhecer certo caminho, não dá mais para ficar simplesmente na cerveja ou na vódega. Ir pegar um, voltar, passar no banheiro. Aliás, aquele banheiro tem milhares de histórias para contar. Mais ainda do que os da Augusta. Pelo menos no meu caso, claro. Se ele falasse, eu tava ferrada. Enfim, idas e vindas.

Como lá não vende cigarros, fui até o bar que tem ao lado, onde um dos caras que trabalham lá já é brother. Ele me entrega o Lucky Strike vermelho antes mesmo de eu pedir. Após comprar os cigarettes, me deparo com uma cachorra e uma criança. Tem como não parar para pelo menos observar uma cena dessas? Parei, conversei, fiz carinho, peguei a criança no colo, conheci a mãe dela… E fiquei um tempão lá.

Quando voltei, algumas pessoas haviam ido, outras ficado, outras chegado. “Por que você demorou tanto? Podia ter avisado que ia demorar”. Desculpa, mas eu ainda não adquiri o dom de saber o que vai acontecer no meio do caminho. E pensando bem, eu nem gostaria de saber. Já pensou que chato saber tudo o que vai acontecer na sua vida? So boring. A questão é, como cantariam Caetano e Chico, “você tem que saber que eu quero correr mundo”. Ou seja, eu vou, vou indo, “caminhando, cantando e seguindo a canção”, porra. E isso não quer dizer que eu gosto menos ou mais de você. Não é porque eu tô indo embora que eu não te amo. Mas eu tenho uma necessidade de ir, entende?

Saímos dali e fomos para algum outro lugar que eu não faço noção de onde era. Só sei que era um bar e que tinha cerveja e jukebox e sinuca. Ou seja, estávamosem casa. Maisuma vez, comecei aquelas típicas conversas de boteco com algumas pessoas que estavam ali e que eu não fazia noção de quem eram. Cássia Eller, Cazuza, Legião Urbana e afins.

Lá pelas 3 e pouco da manhã, eu já tinha cansado daquele lugar. Saí e fui dormir na casa de um amigo que mora ali perto. Entre as divagações bêbadas que compartilhamos, uma das mais insistentes foi: POR QUE DIABOS EU CANSO PRATICAMENTE DE TUDO, MAS NÃO CONSIGO CANSAR DAQUILO QUE EU MAIS QUERO CANSAR?

PS.: Não esqueci da nossa conversa que ainda não aconteceu, Adri!

Played-out

girls still just wanna have fun

Tinha combinado de encontrar com ela no bar. Nenhuma novidade até então. Encontrei o Yhuri no meio do caminho e ele foi comigo até o bar. Ele é um dos únicos caras que conheço que não bebem tanto. E adora monopolizar a conversa. Não guardo pudores com ele. Sabemos do histórico sexual, amoroso, intelectual e social um do outro. Falem o que for, mas ele é divertido para cacete.

Bebemos, mandamos e falamos, falamos, falamos. Até que ele sugere irmos jogar sinuca na Augusta. E lá fomos nós. Ah, sim, era uma segunda-feira fria e com uma cara chuvosa. Eu tinha caído de skate e estava com uma tala no braço. Só para deixar bem claro: eu mal sei andar de skate, ok? Anyway, fui lá jogar com a mão fudidona mesmo. Se nem com a mão boa eu sou boa na sinuca, imagina com a mão enfaixada? Um desastre, meus caros. E o Yhuri me incentivando. “Acredita, Grazie”, ele dizia. Eu ria.

 O Yhuri é cafajeste confesso. Os olhares, as palavras, as insinuações, nada daquilo me convence. Até porque, a gente sabe brincar, né? Apostei com ele que ganho pelo menos um jogo de bilhar contra ele no meu aniversário,em casa. Combinamosqueo vencedor vai escolher o seu prêmio na hora. Ou seja: se eu não quiser me foder, tenho que treinar para caralho.

Mas a questão não era o Yhuri. Eu estava com ela. Dead Fish, Velhas Virgens, Dance of Days, Billie Holiday, AC/DC, anarquismo, hardcore, punk, feminismo, política, futebol. Algumas pessoas falam sobre tudo isso e não sinto nada ao ouvir elas falarem. Com ela, pude ver o brilho nos olhos e a verdade nas palavras. “Eles ainda acreditam” me veio à cabeça.

Eu sei que de repente estávamos de volta ao bar da 9 e ela me beijou no banheiro. “Só não estrague tudo” foi o que eu pensei.

girls still just wanna have fun

Potencialidades

Estava no bar com dois amigos. Na mesa ao lado, uma mulher tira da bolsa um livro da Virginia Woolf. Não, não resisti. Fui lá e começamos a conversar. Ela já tinha seus 40 e poucos anos, estava ali bebendo cerveja com a filha e os amigos da filha, que estava completando 23 anos. Disse pra ela que achei aquilo lindo, ela bebendo num bar qualquer junto com a filha, de como eu não queria perder essa chama que estava viva nela quando eu ficasse mais velha. Puxamos o assunto pros anos 60, Che Guevara, feminismo e então a filha dela virou pra mim, me levou mais pra perto das pessoas da mesa e soltou:

 – Temos aqui entre nós uma revolucionária!

 Sim, todos pararam, olharam, bateram palmas. Pode parecer babaca. Mas gostei tanto! Tanto, tanto, tanto. Não é extraordinário quando as pessoas reconhecem o potencial revolucionário que existe em você? Mas aí vai de você transformar todo esse potencial em atitude, viu? Eu tento. Tô tentando.

Potencialidades