Não mais que de repente

large (1)A vida acaba. Em qualquer lugar. Em qualquer esquina. A todo momento uma vida se acaba. Dentro de um carro, atravessando a rua na Francisco Morato, dentro de um vôo para o Japão ou em uma banheira onde a água se mistura ao sangue dos pulsos cortados. Ela acaba. Um segundo e pronto, tudo se foi, se esvaiu, acabou. Resta o corpo, pesado, sem pulso, sem viço, sem vida. No more breath. Assim, do nada. Não mais que de repente. Não mais que de repente a gente morre. Não mais que de repente as pessoas morrem. Não mais que de repente as pessoas que amamos morrem. Um sopro e acaba – para nunca mais voltar, para nunca mais olhar de novo nos seus olhos, para nunca mais abraçar, para nunca mais beijar, para nunca mais nada – quer dizer, para sempre a saudade, para sempre a lembrança. Mas a pessoa? A pessoa em si não. Nunca. Quão estranho é a morte? Quão estranho é morrer? A vida tá aqui pulsando e de repente vai para nunca mais voltar. Para onde ela vai? O que ela é? Eu não sei, eu não sei. Eu só sei que dói, lateja o peito, arregaça o estômago, parte o coração (de quem continua com a vida dentro de si). Depois o que resta para quem fica é essa dor confusa – que vai e volta de tempos em tempos, mas nunca passa. Ameniza, cicatriza, mas continua dolorida. Cazuza disse que morrer não dói. Não deve doer mesmo. A dor é de quem fica. E a cada nova vida que se vai, a dor (de quem fica) vai invadindo mais músculos, mais veias, mais artérias e articulações. O que resta é continuar (con)vivendo com as dores. Cada um com as suas. É impossível definir a dor dx outrx. Só quem tá todx doloridx é que sabe a dor que sente. Cada dor é diferente. Não gosto de usar as palavras maior ou menor para definir as dores. São dores e ponto: doem. Às vezes muito, às vezes um pouco menos. Mas doem, doem, doem. E continuarão doendo. Até o final… das nossas próprias vidas.

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Não mais que de repente

hasta siempre

ontem mesmo falei sobre a morte do Chávez, ainda sem saber que ele havia morrido. hoje vejo no jornal que ele havia partido. mas era uma morte “esperada” sabe? então logo em seguida fico sabendo da morte do Chorão… podem falar o que for, “podem me tirar tudo que eu tenho, mas não podem retirar as coisas boas que eu já fiz pra quem eu amo”. e como eu amava esse cara em determinada época da minha vida! e como ele me fez bem! o primeiro show que eu fui na vida, foi o do Charlie Brown. com a Lilica, que faria aniversário daqui há 6 dias. éramos apaixonadas pelo Chorão. sabíamos todas as músicas, ficávamos cantando pelos corredores do colégio. ele pode “ter se vendido” como dirão alguns, mas nada apaga o que ele um dia representou pra mim. CBJr foi trilha sonora de uma época em que eu estava me descobrindo. nessa época, o Chorão era um exemplo pra mim. tipo um amor platônico, sabe? a gente cresce, mas as lembranças permanecem. descobri ele é uma das minhas melhores lembranças. é, tô com um aperto no peito (preocupada com a Venezuela também).

hasta siempre

Boy interrupted

era um domingo a noite. daqueles em que você ainda tá sentindo a ressaca de sexta e de sábado, tudo junto e misturado. sentada no sofá, pego o controle e fico zanzando pelo menu da TV a cabo. me deparo com o título boy interrupted*. não penso duas vezes. aperto o enter. começo a conhecer a história de Evan Perry. adolescente americano que nasceu no mesmo ano que eu, 1990. o documentário é composto de vários vídeos caseiros, relatando desde quando Evan saiu da barriga da mãe, até sua adolescência.

mostra uma criança totalmente afetuosa, carinhosa, amável… mas depressiva. inteligentíssimo, aprendeu a ler com 4 anos, passou a tocar violão e a compor músicas… que falavam sobre morte. começaram a se preocupar. como uma criança, tão nova, pode ter essa obsessão pela morte?

entre idas e vindas, ameaças de se jogar do telhado, mudanças de escola… diagnosticam Evan como bipolar. ele passa a tomar lítio e as coisas parecem melhorar. só parecem. é relativamente fácil fingir que tudo está bem. “eu finjo tão bem, que estou além do fingimento”, ouço pelo fone de ouvido. ninguém percebeu que não estava tudo bem. Evan não quis mostrar que não estava tudo bem. os anos anteriores foram uma espécie de aprendizado: se eu levantar algum alarme, vão me internar, vão me dar medicamentos mais fortes. se eu fingir que eu estou bem, ninguém vai fazer nada… e vou poder me matar tranquilamente.

olha, eu me acabei de chorar. de alguma maneira, me identifiquei com aquela criança, com aquele adolescente, que pôs fim a sua própria vida. não se trata de como ele fez isso. é evidente como desde muito cedo, a depressão e a morte já estavam presentes em sua vida. o que me toca, o que é pesado, o que me faz querer gritar, é algo que o meio irmão mais velho de Evan fala após ler seu bilhete de suicídio. “Evan colocou no papel os sentimentos que vários adolescentes de sua idade têm. a diferença é que Evan sente isso 20 mil vezes mais intensamente”. é isso…

I can’t stop thinking about you, Evan. I  can’t stop FEELING what you felt. I never even knew you, I never even got a chance to meet you, but I love you, Evan. I love you.

 

*pra quem não sabe, girl interrupted é um dos meus filmes favoritos, e que inclusive dá nome ao meu tumblr. também trata sobre transtorno bipolar e afins. quando vi na tela boy interrupted, não hesitei em querer saber sobre o que se tratava.

Boy interrupted