marcy, presente!

IMG-20140402-WA0003foi há uma semana, no ato do Cordão da Mentira, 64+50: QUANDO VAI ACABAR A DITADURA CIVIL-MILITAR?. procurei pelas palavras certas para contar sobre esse encontro. não sei se as encontrei, mas vou tentar. eu levantei o cartaz com a foto da Heleny e uma senhorinha veio em minha direção. “você é parente da Heleny?”. respondi que não, mas que entre as fotos dxs desaparecidxs durante a ditadura, escolhi a dela. “a senhora conheceu a heleny?”. “nós trabalhamos juntas’, respondeu a senhora, baixinho, como se ninguém pudesse ouvir o que acabara de me dizer, como se fosse um segredo muito bem guardado. naquele momento pensei que o “trabalhar” fosse ter trabalhado em uma escola, em uma fábrica, ou afins. continuei conversando com aquela senhora de fala mansa e sotaque carregado. Marcy é cubana, está no Brasil há 3 meses, tentando conseguir os documentos para que sua filha e seus netos tenham, assim como ela, a cidadania brasileira. “elxs querem vir para cá conhecer a história do país em que eu passei minha juventude. eu conto sobre o que vivi aqui e elxs ficam na vontade de vir para o Brasil”. quando perguntei se poderia tirar uma foto com ela, a resposta veio timidamente com um “pode”. ela me abraçou. um abraço de saudade da heleny e de outrxs companheirxs de luta. um abraço de dor e conforto ao mesmo tempo. dor por tudo o que ela e xs companheirxs viveram sob a ditadura. conforto por ter ali, alguém que após os 50 anos do golpe (re)lembra a história que ela viveu quando jovem. ela me agradeceu – “é lindo ver vocês, jovens, nas ruas, como nós também estivemos – , mas quem deveria agradecer sou eu. obrigada, Marcy, por ter ido às ruas, por ter dito não à ditadura militar, por ter lutado pela liberdade. descobri que o “trabalhar” era o trabalho clandestino. Marcy foi companheira de luta de Heleny. nos olhos de Marcy eu vi toda a coragem, toda a força, toda a luta de quem não se calou, de quem não abaixou a cabeça. e assim, um encontro inesperado se tornou um encontro do qual eu nunca vou esquecer. Marcy, por você, pela Heleny e por todxs que foram – e ainda são – torturadxs e mortxs, eu resisto. obrigada, Marcy. pela liberdade, sempre.

marcy, presente!

cordão da mentira: quando vai acabar a ditadura?

10002979_10151968253826695_2139353160_nontem mais de mil pessoas saíram as ruas de São Paulo para repudiar o golpe de 1964 e as atuais práticas da justiça, dos militares e dos governistas. ocupamos o centro da cidade. com música e indignação. com teatro e indignação. com arte e indignação. a marcha dos fascistas reuniu menos de 100 pessoas e foi destaque em diversos jornais e sites. não vi, até agora, uma só matéria nesses veículos falando do nosso ato. mas não tem nada não, afinal, essa mídia que se manteve em silêncio mesmo com a grandiosidade do nosso protesto, sempre esteve ao lado dos militares. o que tenho a relatar é que foi lindo, lindo, lindo. encontrar pessoas mais velhas, que viveram aquele tempo e ouvir delxs o quanto é emocionante pra elxs verem que nós estamos nas ruas relembrando a luta delxs foi de uma intensidade absurda. duas gerações ali, juntas, caminhando, se entendendo, se ouvindo – e ainda lutando. faltam palavras para descrever o que senti ali. houve inclusive, um encontro do qual nunca esquecerei. mas isso é assunto para outro post. esse aqui é apenas pra dizer CHUPA, REAÇADA!

cordão da mentira: quando vai acabar a ditadura?

#50anosdogolpe

CAM00441lembro como se fosse ontem a primeira vez que entendi o que foi a ditadura. lembro de como eu ficava vidrada nas aulas de história sobre esse período. esse livro aqui foi o primeiro livro que li sobre a ditadura brasileira. foi presente do meu pai, que no auge de sua juventude vestia camisetas do che guevara. ao ler pela primeira vez as atrocidades que foram cometidas, eu fiz um pacto comigo mesma de que nunca esqueceria do que aconteceu e de que lutaria até o fim para nunca mais acontecesse. eu tinha uns 14 anos. hoje, aos 23, reli algumas partes e não contive o choro. aliás, meus olhos se enchem de lágrimas toda vez que leio, escuto ou vejo algo relacionado à ditadura. mas não é um choro de tristeza. é um choro de luta. é um grito de luta. por todxs aquelxs que lutaram e perderam suas vidas, por todxs aquelxs que lutaram e continuaram vivxs. você arriscaria a sua vida? elxs arriscaram. eu arrisco pelos vlados, pelos amarildos, pelas teresas, pelas claudias. porque a ditadura oficial acabou, mas a ditadura velada está mais viva do que nunca. é por isso que eu luto. é por isso que eu não aceito. é por isso que eu não esqueço. porque a liberdade é um direito. porque elxs não se calaram e eu também não vou me calar. como diz uma música do dead fish, “e se um dia tivéssemos que resistir, e se tudo que fizéssemos fosse em vão? e se não fossemos tão jovens ainda estaríamos aqui? e se não pudéssemos mais cantar, nem reclamar, nem protestar? fingiríamos esquecer nosso ideal ou lutaríamos agora pra valer?”. elxs resistiram, elxs lutaram. por elxs e por todxs que ainda estão aqui: ‪#‎64nuncamais‬

(re)lembrar para resistir.

a luta continua, SIEMPRE.

TODXS PRESENTES!

ps.: obrigada, Rodrigo Paula Mendes!

#50anosdogolpe

#50anosdogolpe

amanhã tem Cordão da Mentira.

porque enquanto os arquivos da ditadura não forem abertos, enquanto a anistia servir para torturadores e assassinos, enquanto manifestações políticas forem reprimidas com bombas e balas de borracha, enquanto o estado não responder pelas Claudias e Amarildos assassinados todos os dias nas periferias, enquanto nossas mães ainda procurarem por filhxs desaparecidxs, entenderemos que a ditadura não terminou por completo.

Evento: https://www.facebook.com/events/620287641397396/

#50anosdogolpe

Antes que comece a mais estúpida de todas as guerras ocidentais da história do mundo

recomendo a leitura desse artigo a todxs que querem pensar um pouco mais sobre a questão do uso de armas químicas na Síria.

(mas antes, algumas considerações: o cara que escreveu esse artigo (Robert Fisk) cobriu a guerra civil do Líbano, iniciada em 1975; a invasão soviética do Afeganistão, em 1979; a guerra Irã-Iraque (1980-1988); a invasão israelense do Líbano, (1982), a guerra civil na Argélia, as guerras dos Balcãs e a Primeira (1990-1991) e a Segunda Guerra do Golfo Pérsico, iniciada em 2003. ele também cobre o conflito Israel-Palestina, sendo defensor da causa palestina.

o cara é considerado um dos maiores especialistas nos conflitos do Oriente Médio. contribuiu para divulgar internacionalmente os massacres na guerra civil argelina e nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano; os assassinatos promovidos por Saddam Hussein, as represálias israelenses durante a Intifada palestina e as atividades ilegais do governo dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque.

isto posto, acredito que o cara não falaria merda no The Independent.

e mais: não, ele não tá defendendo o governo Sírio no texto).

REPITO: recomendo a leitura desse artigo a todxs que querem pensar um pouco mais sobre a questão do uso de armas químicas na Síria.

Agora vamos às considerações, “antes que comece a mais estúpida de todas as guerras ocidentais da história do mundo”: faz todo o sentido do mundo os EUA querer essa guerra para, mais do que atingir a Síria, atingir o Irã (inimigo de Israel).

Reproduzo aqui um dos trechos fundamentais para entender o texto e não achar que o Fisk defende o governo da Síria: “não se trata de defender o regime sírio. Nem me interessa absolvê-lo antecipadamente na questão das bombas de gás. Mas tenho idade suficiente para lembrar que, quando o Iraque – aliado dos EUA – usou gás contra os curdos de Hallabjah em 1988, nós não atacamos Bagdá. O ataque teria de esperar até 2003, quando Saddam já não tinha gás algum nem qualquer dessas armas que habitam nossos pesadelos. Também lembro muito bem que a CIA inventou, em 1988, que o Irã seria responsável pelos ataques químicos em Hallabjah, mentira completa, focada no inimigo dos EUA contra o qual, então, Saddam lutava em nosso nome. E milhares – não centenas – morreram em Hallabjah”. Não tenho o conhecimento necessário para comentar de maneira profunda sobre esses acontecimentos citados, por isso mesmo reproduzi o parágrafo.

Mais um: “Depois que milhares incontáveis morreram na horrenda tragédia síria, de repente – de fato, depois de meses, de anos de prevaricação –, começamos a nos perturbar por causa de umas poucas centenas de mortos. Terrível. Inconcebível. Indecente. Sim, é verdade. Mas já deveríamos estar traumatizados, horrorizados e em ação contra essa guerra desde 2011. E durante 2012. Por que agora?”. Why???

Segundo o jornalista, porque os “rebeldes” que os EUA armaram estão sendo derrotados pelo exército do Assad. “O Irã está cada vez mais profundamente envolvido na proteção ao governo sírio. Assim, vitória de Assad é vitória do Irã. E o ocidente não admite vitórias iranianas”, é a resposta dele.

São tempos difíceis para o mundo inteiro.

 

Antes que comece a mais estúpida de todas as guerras ocidentais da história do mundo

Prison break

“vamos sorrir e viver assim, aceitar tudo como fomos instruídos e então viver em paz, sem olhar pra trás, não reagir, sempre se omitir. e a culpa não será em vão, apagada em álcool e alcatrão. por séculos e para todo sempre, seremos o cidadão padrão” – Dead Fish

Falta discernimento nas pessoas para entender que a redução da maioridade penal não é solução para nada. É apenas uma peneira para tapar o sol. É como colocar pré-monstrinhos em uma jaula para não ter que lidar com eles de verdade. Afinal, é mais fácil encarcerar do que investir em educação e em lazer, essas sim, iniciativas capazes de promover a reinclusão. Aliás, o sistema carcerário no nosso país já é uma vergonha.

Temos a 4ª maior população carcerária do mundo. Dois terços desses presos são de réus provisórios, aguardando decisão judicial (o que deixa cadeias e penitenciárias superlotadas e sobrecarrega as celas das delegacias). Segundo o site www.prisonstudies.org, em 2012, eram 496 mil presos para 299 mil vagas. A maioria deles, 125 mil, presos por tráfico de entorpecentes. Mas claro que pensar na descriminalização das drogas é assunto vetado. É mais fácil continuar mandando todo mundo para cadeia mesmo. E querer que adolescentes entrem nessa também. Mais uma vez: para que educação e lazer, não é mesmo?!

Claro que devemos lutar para combater a violência. Mas não é prender adolescentes que nos trará um mundo mais seguro. É investindo nesse adolescente que conseguiremos uma sociedade melhor. Além dos já citados educação e lazer (não me canso de repetir), precisamos de saúde, moradia digna, igualdade de oportunidade. Tudo o que aqueles que são a favor da redução da maioridade penal têm.

É fácil, de dentro da realidade burguesa, elitista e egoísta, achar que a medida é correta, que vai trazer benefícios à população. Realmente, a essa população burguesa, elitista e egoísta, irá trazer mesmo: ela não precisará ver “esses delinquentes” pelas ruas. Mas não ver alguma coisa não significa que essa coisa não exista. Os prejudicados, como sempre, são os pobres e excluídos, principalmente negros. Depois ainda dizem que não existe racismo no Brasil…

O Deppman estudava na minha faculdade. A morte dele reacendeu o debate sobre o tema. Claro que acho bonito essa mobilização e solidariedade geral por conta da morte dele. De fato, é um absurdo o que aconteceu com ele. Mas quantos absurdos desse tipo não acontecem todos os dias e nada é feito, ninguém fala nada?

Nas palavras de uma amiga minha, “o moleque não matou porque queria o celular ou a mochila, matou porque não tinha nada a perder”. É essa a questão. Continua sendo um absurdo ele ter matado o Deppman. Mas olhando a fundo, enxergamos a realidade desse adolescente: pobre, viciado em drogas, esquecido pela família, abandonado pelo Estado, sem perspectiva de vida nenhuma. Não, não tô falando que isso justifica a morte. Tô falando que o Estado abandonou o cara e agora quer punir o cara. Tô falando que o burguês que negou uns trocados quando ele tava vendendo bala é o mesmo que quer vê-lo atrás das grades.

Nas palavras dela novamente, “a diferença é que agora esse adolescente tá aqui ao lado, batendo na nossa porta, ultrapassando o muro alto e a cerca do condomínio fechado, atingindo os nossos amigos e familiares”, e portanto agora devemos agir, devemos destilar todo nosso ódio a essa sociedade que nós mesmos ajudamos a criar.

A redução da maioridade penal é uma “solução” burguesa, preguiçosa, hipócrita e egoísta. É muito mais fácil colocar todo mundo na jaulinha e fazer de conta que a paz reina naturalmente.

Prison break

No title

Primeiro quero deixar esse texto do sempre bom Sakamoto. E complementar: ninguém tá aqui pra servir ninguém, seja homem ou mulher.

Depois quero falar do caso da Julia Gabriele, a criança de 11 anos que sofreu um cyberbullying perverso. Na verdade não quero falar muito não. Esse texto já fala por mim.

E tem também a reintegração de posse na zona leste de SP que teve início hoje pela manhã (com muita truculência, gás lacrimogêneo, spray de pimenta e bomba de efeito moral, como sempre) e que foi suspensa agora a tarde. E o mais impressionante: HADDAD mandou suspender a operação! SIM, a prefeitura fez algo digno! Haddad ganhou minha admiração. Sério. Não que eu morra de amores por ele, mas essa atitude demonstra um caráter fudido e mostra como DÁ SIM PRA FAZER DIFERENTE. Se liga na proposta dele.

Outra coisa: é uma sensação de impotência total quando uma amiga próxima sofre um abuso e ainda não se sente a vontade para falar sobre isso. Porque você fica preocupada com ela, mas não quer ser incisiva a ponto de cutucar ainda mais a ferida. Aí tudo o que você tem a fazer é esperar até ela se sentir bem para vomitar tudo o que aconteceu – e continuar apoiando, deixando claro que você está ao lado dela.

 

 

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