Ser encantado

No dia 26/06, durante a noite, recebi uma mensagem de um número desconhecido e iniciei esse diálogo. Não sei de quem é esse número que está me mandando essas coisas, e não, não quis ligar. A conversa tá boa… Ainda mais pra mim, que adoro coisas assim… As frases em itálico são desse ser que está me enviando as mensagens no celular, as normais são as minhas respostas. Então, caro ser, se você ler isso aqui, por favor, diga logo quem você é!

26/06/2012

– “Todas as formas de se controlar alguém só trazem um amor vazio. Saber amar é saber deixar alguém te amar”.

– Uau. Mas quem é?

– Um anjo… ou uma fada.

– Hum, e esse ser encantado tem nome?

Não obtive resposta. Aí emendei:

– Sou como a Alice, sabe? CURIOSA!

27/06/2012

Então hoje de manhã, recebo:

– E você já fez seu exercício de acreditar em seis coisas impossíveis antes do café da manhã?*

– Faço isso todos os dias. Às vezes os pensamentos são iguais, às vezes eles mudam.

– Isso é bom. Apesar do possível e do impossível serem a mesma coisa…

– Como uma questão de ponto de vista e opinião…

E o que é “ser real”? Talvez essa seja a questão…

– Algumas coisas são verdadeiras, acredite nelas ou não. Como Dom Quixote que leu livros de cavalaria e saiu pelo mundo buscando aventuras de cavaleiros…

A vida é uma grande ilusão…

(Não lembro ao certo o que eu respondi, mas foi algo no mesmo estilo de realidade e ilusão)

– Será que existe uma diferenciação? Talvez o real seja somente o que a maioria acredita…

– Matrix diz muito sobre isso… a realidade e a ilusão são apenas concepções humanas…

– Então talvez a questão seja: “o que é que te faz bem”?

– Talvez sim, pois esse jogo real x ilusão, nada mais é do que uma maneira de tentar descobrir quem a gente realmente é…

– Acho que o jogo é que é grande ilusão…

– Mas a própria vida não seria um jogo?

Não obtive resposta, uns dois dias depois mandei um I’m still curious.

02/07/2012

Eu não tenho um nome… Então pode me chamar de V.

– Interessante. V é o protagonista de um dos meus quadrinhos e filmes favoritos…

Desde então não tenho notícias desse ser. Cadê tu, tatu?!

Ser encantado

Country

O céu parecia o Cheshire Cat, da Alice nos País das Maravilhas quando saí de casa hoje de manhã. Listras rosas e roxas se intercalando no horizonte. Fiquei com vontade de tomar um chá com o Chapeleiro Maluco. E de divagar sobre a vida com o Caterpillar enquanto fumamos narguilé. Mas aí o trânsito me lembrou que eu não estava em nenhum país maravilhoso…

***

Descobri um lugar incrível para almoçar. Chama Orgânicos com vida e tem um Ganesha logo na entrada. É um lugar bem simples, super intimista, com três mesinhas lindas para sentar, uma mini-feira só com verduras, legumes e frutas orgânicos e uma mini-venda só com produtos orgânicos também, desde arroz integral e sorvete até desinfetante 100% vegetal. A sua comida é praticamente preparada na hora. A salada e a água são cortesia da casa. Cada dia da semana tem um prato diferente. Conversei com a dona, uma vegetariana de 40 e poucos anos super animada. Eles aceitam encomendas de salgados e também entregam delivery. O ambiente conta com uma leve musiquinha zen para relaxar e possui revistas sobre vida saudável, comida orgânica e afins, espalhadas pelas prateleiras, onde você pode pegá-las para dar uma lida. E o melhor de tudo: é na rua atrás do meu trabalho! Já encontrei meu cantinho preferido para almoçar em Pinheiros!

Orgânicos com vida

Avenida Pedroso de Moraes, 677 – Pinheiros

Telefone: 3596-9214 / 7995-7774

WWW.organicoscomvida.com.br

organicoscomvida@hotmail.com

***

O modo aleatório me matando novamente: Ao meu redor, da Luiza Possi, duas vezes seguida sem estar ao menos no repeat.

“Tanta coisa fora do lugar, ao meu redor, minha parte dentro de você já foi melhor. Mesmo assim não quero te deixar, não há razão, é preciso ainda enxergar na escuridão. Quanto tempo vai durar a incerteza no olhar, o perigo das horas? O tempo passa e eu não posso deixar
de dizer: não, não vá embora, nunca mais, agora ou depois, as outras tardes, você guarde bem
nesse coração, onde não há pecado nem perdão”. http://www.youtube.com/watch?v=lfmR2ctq7uM

Country

Insustentável leveza do ser

Um drink após o outro e a percepção aumenta. Ou seriam distorções? Seja o que for, acabaram por tomar conta da visão. Um olhar convidativo excita. Um sussuro encorajador convida. As luzes artificiais proporcionam um tom onírico. Surreal. Algo no estilo País das Maravilhas. Eis que acontece o primeiro contato corporal. Quem observasse a cena podia ver as faíscas que saíam enquanto os corpos se tocavam. Provocações mútuas. Insinuações quentes. Uma boca na outra, mãos em todas as direções. Um enorme moinho movido às mais perversas e deliciosas sensações. Quem sabe em um lugar mais calmo? O jardim atrás da casa parecia ideal. Corpos na grama, formigas inconvenientes, suor, pêlos, êxtase.

Insustentável leveza do ser

Para Maria da Graça

Texto do Paulo Mendes Campos.

 Quando ela chegou à idade avançada de 15 anos e eu lhe dei de presente o livro Alice no País das Maravilhas.

Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.

Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. A realidade, Maria, é louca.

Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: “Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?”

Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. “Quem sou eu no mundo?” Essa indagação perplexa é o lugar comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.

 A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: “Estou tão cansada de estar aqui sozinha!” O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas, nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados conseguem abrir uma porta bem fechada e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.

Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial, e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece geralmente às pessoas que comem bolo.

Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser séria ou profunda.

A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: “Oh, I beg your pardon!” Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo para a tua sabedoria de bolso: se gostas de gato; experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: “Gostarias de gatos se fosses eu?”.

Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os corredores chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: “A corrida terminou! mas quem ganhou?” É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não conseguirá saber quem venceu. Para o bolso: se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde queres, ganhaste.

Disse o ratinho: “Minha história é longa e triste!” Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: “Minha vida daria um romance”. Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois um romance é só o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: “Minha vida daria um romance!” Sobretudo aos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.

Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: “Devo estar diminuindo de novo”. Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.

E escuta esta parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida toda uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. Mas como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom-humor. Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de sofrimento ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.

Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago,  pensava: “Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas”.

Conclusão: a própria dor tem a sua medida. É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.

Para Maria da Graça

Pra sempre Alice

Entramos no carro dele, uma daquelas Hilux gigantes. Ele dirigindo, ela ao seu lado no banco da frente. Eu e Otávio no banco de trás com o vidro aberto fumando mais um cigarro. A história é aquela: eu e Otávio na Augusta enchendo a cara quando conhecemos esses dois.

No carro, sabe-se-lá-como começamos a conversar sobre Nietzsche. Mentira sei sim. Acabo de lembrar. Minha memória funciona assim vezenquando (sim, eu quis escrever tudo junto, e aí?): vou lembrando conforme vou escrevendo. Ele disse que era filósofo. Quando perguntei qual filósofo ele admirava mais, a resposta foi certeira: Nietzsche. Me contive pra não soltar um gritinho histérico. Eterno retorno, amor fati, super-homem… Aquele papo intelectual bêbado, sabe?

Saímos da Augusta, fomos a um pub, continuamos enchendo a cara e ouvimos The Strokes, Jet, The Clash, David Bowie, The Cure, enquanto Nietzsche, Schopenhauer, Sartre, Descartes, Platão continuava no repertório. Óbvio que no meio da conversa eu começa a cantar ou a conversar com uma das bartenders tatuadas, mas eu conseguia manter o foco ali. E claro que depois da noite inteira mandando e enchendo a cara, eu não parava de falar.

Em uma mudança de perspectiva, comecei a conversar com a garota me veio com a gente. Garota não, mulher mesmo. Fez curso de piloto – começou a usar uma linguagem técnica que eu não fazia ideia do que ela falava – , quatro filhos, moça do interior que veio para São Paulo… No começo, nada muito inspirador. O lance de verdade começou quando a gente chegou à casa do cara da Hilux.

De cara, avistei “Crepúsculo dos Ídolos” na mesa. Ele ligou o notebook e escolheu um som. Sentamos no sofá. Ele trazia as bebidas, mudava de música e preparava algumas enquanto eu e ela não parávamos de falar. A vidaem São Paulo, as crianças, a morte aos 27, os homens, as mulheres e todo o caralho a quatro.

Já deitados no quarto, cada um em um canto da cama, aquilo se tornou um divã. Traumas de infância, saudade daquilo que não vivemos, uma falta que nunca é preenchida, a necessidade de urgência. Contei minha infância, ela contou a dela. Então chegamos naquele estágio em que sabíamos que estávamos ali mais uma vez, com desconhecidos, na casa de um cara x, enchendo a cara, se drogando e…  E.

Paramos nessa vogal. Não foi a primeira vez nem a última que isso aconteceu/acontecerá. Mas sabíamos que jamais nos contentaríamos e ir para casa, fazer janta e dormir, ter uma vidinha considerada normal. “Porque a gente tem aquele ‘quê’ a mais dos artistas”, foi o que ela disse. Nietzsche sempre soube disso. Sabe aquele meu gritinho histérico já comentado por aqui? Mais uma vez me segurei para não soltá-lo.

“Tudo o que eu vivi me tornou quem eu sou hoje e não eu não mudaria nenhuma experiência”, ela continuava dizendo. Eu concordava e continuava o raciocínio. Sobre as vezes que nos fudemos, sobre o voltar para casa depois de uma noite como aquela. A sensação de que mais uma vez você não encontrou aquilo. E você continuar não sabendo que porra é esse aquilo. Então falamos o quanto transmitíamos isso para a arte, ela por trabalhar com decoração, eu por escrever e como a música unia tudo isso e íamos, íamos, íamos.

Já era quase uma hora da tarde. Havíamos passado a manhã inteira ali. Ele dormindo e a gente sem calar a boca por um só instante. Eis então, do alto e auge da minha loucura, viajo ao mundo de Matrix. Explico toda a cena entre Morpheus e Neo para ela, com as diferenças entre a pílula azul e a vermelha. No final, pergunto qual ela escolheria. Sem hesitar, ela escolhe a azul. Respiro fundo. Explico novamente. Ela continua com a azul.

Depois de toda aquela conversa, alma de artista, desgosto, não voltar atrás, de se tornar o que realmente somos, depois de tudo aquilo, ela vai e escolhe a azul?! “Ah, acordar sem pensar em toda essa merda, sem sentir essa falta, seria a melhor coisa do mundo, eu finalmente poderia dizer que sou feliz, a existência seria tão mais fácil”, foram as palavras dela.

Sabe uma facada no coração? Então. E eu nem a conhecia. De alguma forma, aquilo causou em mim um desconforto enorme. Só eu não trocaria todo esse desconforto por uma venda nos olhos que tornasse o mundo cor-de-rosa? Só eu não vejo graça naquilo que vem fácil?

É curioso como uma coisa tão pequena aos olhos dos outros significou tanto para mim. Pelo jeito a toca do coelho continua sendo só minha. E fim.

Pra sempre Alice

Go ask Alice

Matrix – o  primeiro deles, é claro, os outros dois não são tão bons – é um filme para te fazer pensar. Um dos diálogos entre os personagens Morpheus e Neo está entre os melhores da história do cinema em minha opinião.  

 Morpheus se encontra com o Neo para tentar explicar que o mundo no qual ele vive não é tão real como a maioria pensa. No filme, os humanos são controlados pelo Matrix, uma espécie de sistema de computadores que controla a vida humana, escravizando a população.

 Então Morpheus propõe a Neo que escolha entre duas pílulas: a vermelha ou a azul. Se tomasse a primeira, seria como se nada tivesse acontecido e ele acreditaria no que quisesse acreditar. Já com a vermelha, ele poderia conhecer a complexa verdade do mundo real e do mundo ilusório.

 Acho essa metáfora incrível. Ela traça um paralelo com a nossa vida: podemos escolher entre aceitar passivamente tudo o que existe à nossa volta ou questionar os meios e descobrir a verdade atrás das aparências.

 Morpheus cita Alice no País das Maravilhas, comparando Neo com a garota:

Morpheus : Eu imagino que você esteja se sentindo um pouco como a Alice entrando pela toca do coelho.

Neos : Você tem razão.

Morpheus : Eu vejo nos seus olhos. Você tem o olhar de um homem que aceita o que vê porque está esperando acordar. Ironicamente não deixa de ser verdade. Você acredita em destino, Neo?

Neo : Não.

Morpheus : Por que não?

Neo : Não gosto de pensar que não controlo minha vida.

Morpheus : Sei exatamente o que você quer dizer.Vou te contar porque está aqui. Você sabe de algo. Não sabe explicar o quê. Mas você sente. Você sentiu a vida inteira que há algo errado com o mundo. Você não sabe o que é, mas há. Como um zunido na sua cabeça te enlouquecendo. Foi esse sentimento que te trouxe até mim. Você sabe do que estou falando?

Neo : Da Matrix ?

Morpheus :Você deseja saber o que ela é?

Neo : Sim.

Morpheus : A Matrix está em todo lugar. À nossa volta. Mesmo agora , nesta sala . Você pode vê-la quando olha pela janela ou quando liga sua TV. Você a sente quando vai para o trabalho, quando vai à igreja, quando paga seus impostos… É o mundo que foi colocado diante de seus olhos para que você não vise a verdade.

Neo : Que verdade?

Morpheus : Que você é um escravo. Como todo mundo, você nasceu num cativeiro, nasceu numa prisão que não pode sentir ou tocar. Uma prisão para sua mente. Infelizmente é impossível dizer o que é Matrix. Você tem que ver por si mesmo. Esta é a última chance . Depois não há como voltar. Se tomar a pílula azul a história acaba e você acordará na sua cama acreditando no que quiser acreditar. Se tomar a pílula vermelha ficará no País das Maravilhas e eu te mostrarei até onde vai a toca do coelho. Lembre-se: tudo que ofereço é a verdade. Nada mais.

Neo, claro, escolhe a vermelha. Também podemos fazer associações com o mito da caverna, de Platão, que também é uma metáfora da condição humana perante o mundo no qual os homens podem viver na escuridão achando que representam a realidade das coisas e também do francês Beaudrillard, que inclusive, conheci devido ao filme, após os criadores de Matrix, os irmãos Wachwoski, terem comentado a influência do filósofo, que acredita que vivemos em um mundo de simulacros e simulação.

 Óbvio que eu iria para o País das Maravilhas. Poderia entrar na toca do coelho sem hesitar. E você, qual delas escolheria?

Go ask Alice

Fuck your reality

Certo dia alguém veio me falar que ela havia dito algo como “ela vive no seu próprio mundo, acha que é a Alice No País das Maravilhas”. Não foi a primeira vez que ouvi isso, mas eu achava que ela me conhecia o suficiente para saber que não é só isso. Até porque, ela faz o mesmo e eu não acho isso um defeito, como ela sugeriu achar. Ninguém aqui tá falando em olhar só pra o próprio umbigo e esquecer do resto do mundo. Mas qual o problema em fazer o seu mundo, digamos, mais aconchegante? É, eu tenho meu mundinho. Mesmo assim, não deixo de viver o que as pessoas chamam de “realidade”. Até porque, não há muito o que fazer pra escapar dela sem enlouquecer completamente. “Realidade” entre aspas mesmo. Porque a verdade pode até ser uma só, mas ela existe diante de inúmeras realidades. O real é uma concepção nossa, assim como o imaginário, então como realmente distinguir o que você diz ser real do que você diz ser imaginário? Quem define isso? O que você pensa ser imaginário, pra mim não pode ser a pura realidade e vice-versa? Aí você poderia dizer: olha lá, ela novamente presa às suas palavras, inventando sua realidade com elas e bla bla bla. So boring.

Quer saber? Eu sempre gostei da Alice e considerei e sempre considerarei um elogio essa comparação comigo. Eu só não esperava que você um dia pudesse ser a autora de uma comparação perjorativa ligando eu e a Alice. Mas como diria Elis Regina, “vivendo e aprendendo a jogar”, não é mesmo?

Fuck your reality