i only happy when it rains

largeera uma quarta-feira. ou uma quinta? ah, não fazia diferença. ali, pouco importava se fosse carnaval ou natal. de fato, o que havia ali eram os sen-ti-dos. não os pensados. mas os vividos. sentidos na pele, no corpo, na alma. sentido no ser. a lua e as estrelas tímidas em razão das nuvens dominarem o céu não tornava o momento menos belo. até mesmo o céu nublado tem sua beleza particular. o “até” da frase anterior poderia ser retirado. há beleza no céu nublado. ela está em todo lugar se você for um bom observador.

gotas. é das gotas que eu quero falar. vieram ligeiramente, de mansinho, quase manhosas. começaram a cair delicadamente, uma por uma, até cobrir meu corpo inteiro. e enquanto elas caiam, eu sentia. primeiro elas explodiam sob a pele, depois escorriam e finalmente se agarravam ao tecido da minha roupa. algumas resistiam firmes e fortes no meu rosto – essas ganharam meu sorriso. eu sorria ao universo. eu sentia ele todo dentro de mim. a vida e tudo mais. eu estava viva. viva. e nada parecia mais importante que isso. estar viva. sentir. sentir tudo. sentir por todos os poros. o sentimento de estar viva inundava meu ser à mesma medida em que as gotas me molhavam.

junto com a chuva, veio o vento e o frio. nada que tirasse de dentro de mim o universo. ao contrário: eu me sentia mais viva a cada segundo. o universo me inundava. em cada parte do meu ser, eu era tudo. completa – e transbordava. os passos aumentavam de intensidade à medida em que eu sentia. eu sentia e queria sentir cada vez mais. a vida pulsante. o universo em expansão dentro do meu próprio ser. cada veia, cada órgão, cada articulação, cada músculo pulsava. tudo, todo, todxs: ali dentro de mim. nem mais nem menos: every fucking little thing.

o tempo foi abrindo. o caminho encolhendo. avisto a minha casa. já não se vê uma única gota caindo do céu. mas em mim… ah, eu continuava encharcada. eu ainda transbordava quando não mais que de repente, uma a uma, as gotas evaporaram. a exaltação se arrastou até a porta e foi embora. o que sobrou foi uma felicidade leve, levinha. eu estava leve, levinha. uma vez expandida, eu nunca mais voltei ao tamanho de antes. em algum lugar – da minha pele, do meu corpo, da minha alma – , eu ainda transbordo, exalto, pulso.

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i only happy when it rains

it’s raining

ouço a chuva caindo lá fora. aqui dentro me sinto encharcada, mesmo com as minhas roupas secas. devem ser as lágrimas que inundam até a alma. a intensidade dos pingos caindo aumenta a cada instante. assim como a dor e o vazio que sinto em meu peito. “vamos lá, tudo bem, eu só quero me divertir, esquecer dessa noite, ter um lugar legal para ir”, mas a chuva me lembra que esses lugares estão distantes, que você está distante, que eu me tornei distante e fiz você se distanciar. as gotas dão uma amenizada lá fora. mas meu peito aqui dentro continua doendo. olho pela janela e vejo a escuridão cada vez mais próxima. “hoje a noite não tem luar”. faz alguns dias que já não vejo a lua. nem olho para as estrelas ou para as nuvens. não enxergo-as. de que adianta olhar e não ver? dou um tempo, acendo um cigarro, não consigo fumá-lo, apago. fecho os olhos e apenas ouço. ouço a chuva caindo lá fora.

 

it’s raining