a vida é bélica

a Lua minguante já não estava visível (dizem que a Lua em sua fase minguante pode sugerir alguma desarmonia emocional e atos contraditórios). o dia começava a clarear. Coraline acordou diferente. o que era aquele sentimento? não quis voltar a dormir – e ter novos pesadelos –, mas a realidade também não a confortava. fechou os olhos por alguns segundos, sentiu um torpor invadir todo o seu ser. tudo doía, girava, desencaixava, rasgava. optou por manter os olhos abertos. tudo ainda doía, girava, desencaixava, rasgava. ainda assim, os monstros não pareciam menos reais do que em seus pesadelos. descobriu que não se tratava sobre estar dormindo ou acordada: eles estariam ali de qualquer maneira, seja de olhos (bem) fechados ou abertos. “conviver”, pensou. teria que aprender a conviver com eles – até que tivesse força o suficiente para eliminá-los para sempre. “mas será que alguém já conseguiu eliminar um monstro para sempre?”, questionou. ah, os monstros! eles sempre vêm e vão. a gente cresce e eles só mudam de forma, não é, Coraline? “antes eu tinha medo do bicho papão. hoje o bicho papão se transformou em algumas pessoas, e, de certa forma, em mim.”, continuou a questionar. Coraline chegou à conclusão de que o maior bicho papão era ela mesma.

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