amy, amy, amy

eu também sou um problema. não, não sou boa. nunca me mandaram pra rehab. mas se mandassem, eu diria no no no. não lembro ao certo como conheci amy winehouse. mas tenho em mim a certeza do amor à primeira vista que senti. foi na época do colégio e ela ainda não havia feito sucesso no brasil com o “back to black”. ouvi “stronger than me”, do primeiro álbum, “frank”. ao ouvir aquela voz, soube que o título do álbum só podia ser uma alusão ao frank sinatra. e realmente era. lembro muito bem de quando a apresentei ao meu então professor de história: “quando a ouvi pela primeira vez, imaginei uma negra gigante cantando”, foram as palavras dele. e amy o surpreendeu – e a mim também – , por ser branca, pequena, magérrima, tatuada, ter piercing, usar um topete gigante, exagerar no delineador e, por, em uma sociedade hipocritamente correta como a nossa atual, admitir encher a cara e não desmentir sobre o uso de cocaína e outras drogas mais pesadas.

o alcance vocal, as referências de blues e jazz, o estilo pin-up decadente, as próprias composições, e principalmente, o jeito como ela conseguia ser ela mesma com toda a fama que alcançou. quais são os cantores hoje em dia que se bancam? que são a cara à tapa? que não perdem a própria essência? que tem a coragem de admitir e ser o que realmente são? foi o conjunto, entende? teria como eu não me apaixonar por essa mulher?

em janeiro desse ano, fui ao show dela na arena anhembi. foram os R$200 mais bem gastos da minha vida. vários críticos musicais meteram o pau nas apresentações dela aqui no brasil. mas fã que é fã, sabe que a amy não era uma cantora perfeitinha, com shows perfeitinhos. ela não era uma mera imagem. e quando ela não conseguia cantar, esquecia as letras, ou tropeçava no palco, estava sendo verdadeira, tanto com ela como com quem ia vê-la. como várias outras, ela poderia ter usado playback, feito gravações por cima de gravações, ter editado a voz com programas de computador e o todo o caralho a quatro que a tecnologia nos permite hoje em dia. mas não. ela preferiu ser de verdade. e pagou o preço por isso.

não tenho pena dela, não há motivo. ela sabia por onde estava andando. ela escolheu aquele caminho. fez, até o último instante, aquilo que queria fazer, e repito: pagou um preço por isso. eu tinha acabado de acordar quando soube da morte dela. minha irmã mais nova veio correndo me contar que havia lido no twitter. não consegui conter as lágrimas. não foi simplesmente mais uma cantora que morreu. foi a última cantora. a última cantora de verdade. e o que a mídia falava? sobre como as drogas tinham levado ela pra esse caminho e bla bla bla. é o que interessa pra eles. o que sempre interessou: os escândalos de amy.

mas quer saber? se nem ela se importava, por que deveria eu me importar? fuck off, seus merdas. como disse a kelly osbourne, uma de suas melhores amigas: “te amo para sempre, amy e nunca esquecerei quem você era de verdade”. quer algo mais significativo? a mídia pode falar a bullshit que for, mas quem enxergou a verdadeira amy, sabe o tamanho da perda que tivemos. foi a última junkie que eu amei. e vou amar pra sempre.

só se diz adeus com palavras, era o que você dizia, e por isso te escrevo essas. ainda tenho 6 anos e meio antes de ir te encontrar.

não existe mais ninguém, amy. NINGUÉM.

ficarei por aqui mais um tempo, ouvindo seus discos e tentando manter a chama acesa. gostaria de não ter acertado quando disse que você morreria aos 27. mas como disse seu companheiro mr. cobain, é melhor apagar de uma vez do que queimar aos poucos.  e pessoas como nós sabem disso. não vou explicar que eu não tô comparando um com o outro. enfim, li em algum lugar que pessoas extraordinárias são meteoros designados para se incendiar para que a terra possa ser iluminada. você iluminou, amy.

 

amy, amy, amy

If You Gotta Go, Go Now

Mário Bortolotto começou a recitar, ainda ao som de blues, algo mais ou menos assim:
escuta, baby
eu quero ficar com você
se você quiser ficar comigo
se você tem que ir, vá agora
Me senti escrevendo aqueles versos para ela. Ou vai, ou fica, porra. Ou é ou não é. Mas aí pensei: como posso exigir de outra pessoa algo que nem eu mesma posso dar? Se estou sempre indo e vindo, como pedir para alguém ficar ou ir?!
Não sei. Talvez seja apenas a cerveja. De qualquer maneira, assim como no poema, gostaria de deixá-la com apenas essas duas escolhas. Ir ou ficar.
Mais uma vez, eu mesma escolhi ir. Será que se ela tivesse ficado eu também ficaria? Provavelmente sim. Mas agora é tarde para suposições.
Bortolotto revela, ao final, o autor daquelas frases que me fizeram pensar nela: Bob Dylan.
Chegando em casa, encontrei o poema completo:
Me escuta, baby
Há algo que você deve ver
Eu quero ficar com você, garota
Se você quiser ficar comigo
Mas se você tem que ir
Está tudo bem
Mas se você tem que ir, vá agora
Ou então você terá que ficar a noite todaNão é que eu estou questionando você
Para tomar parte em qualquer meio do quiz
É que eu não tenho nenhum relógio
E você fica me perguntando que horas são

Eu sou apenas um pobre menino, baby
Tentando se conectar
Mas eu certamente não quero que você pense
Que eu não tenho nenhum respeitoNão é que eu estou querendo

Qualquer coisa que você nunca deu antes
É que eu vou estar dormindo logo
E vai estar muito escuro para que você
encontre a portaEntão, se você tem que ir
Está tudo bem
Mas se você tem que ir, vá agora
Ou então você terá que ficar a noite toda

If You Gotta Go, Go Now

Beer

Depois de um Mário Bortolotto recitando Buk, ao som de blues, ao vivo:

e lembra os velhos sacanas
que tão bem lutaram:
Hemingway, Céline, Dostoievsky, Hamsun.

se pensas que eles não enlouqueceram
em pequenos quartos
tal como tu agora

sem mulheres
sem comida
sem esperança

então não estás preparado.

bebe mais cerveja.
há tempo.
e se não houver
está tudo bem
na mesma.

Uma única coisa a dizer: cheguei em casa sem nenhuma buceta pra lamber, mas extremamente feliz, afinal, ainda tenho, e sempre terei, a cerveja pra beber.

Beer