fingi na hora rir

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faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que dela não estava em silêncio escorrendo sangue escarlate. faz de conta que ela não era lunar, que não estava chorando por dentro – pois agora mansamente, embora de olhos secos, o coração estava molhado; ela saíra agora da voracidade de viver. se fosse uma pessoa inteiramente só, como era antes, saberia como agir. mas após sentir o que sentiu, após estar com elx inteiramente, de corpo e alma, como nunca havia se permitido antes, não sabia mais. sentiu ela, que então se amedrontava de ser uma só. o seu descompasso com o mundo era gritante. ser era uma dor? a noite que não vinha, não vinha, não vinha, que era impossível. e o seu amor que agora era impossível – que era seco como a febre de quem não transpira era amor sem ópio nem morfina. não havia senão faltas e ausências. era raro uma pessoa tocar tão de perto a sua própria perdição. sou um monte intransponível no meu próprio caminho, Lóri.

– fragmentos meus e da clarice, em sintonia.

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fingi na hora rir

on writing well

sabe, hoje li duas coisas distintas de dois autores distintos, mas que se ligam completamente e se encaixam perfeitamente na minha pessoa. li uma carta do andre gorz onde ele diz que mesmo depois de escrever escrever escrever escrever escrever e reescrever e reescrever e reescrever e terminar o texto, ainda há muito a dizer. parece até óbvio, mas pra quem escreve é um tanto quanto insano. porque o que acontece é que você nunca fica plenamente satisfeitx com o seu texto. algumas horas depois, fui ler um trecho de uma obra da clarice (sim, a lispector). não que eu já não soubesse que ela nunca relê o que escreve depois de publicado. mas acho que hoje isso me chamou mais atenção do que nunca. vou reproduzir o trecho aqui:

“Em entrevista concedida a Affonso Romano de Sant’Anna e Marina Colasanti, para o Museu da Imagem e do Som, em 20 de outubro de 1976:

Affonso – Você tem os seus textos escritos na cabeça. E uma vez você me disse uma coisa impressionante: você nunca relê um texto seu.

Clarice – Não. Enjôo. Quando é publicado, é como livro morto. Não quero mais saber dele. E quando eu leio, estranho, acho ruim. Aí não leio, ora!”

é exatamente isso, clarice. é exatamente isso, gorz. nunca um texto seu é bom o suficiente depois que você lê ele de novo. nunquinha. mas isso é até bom (mesmo sendo ruim), sabe? porque estar plenamente satisfeito com  o que se escreve é deixar para trás a inquietação que te leva a escrever. e essa inquietação eu não quero perder nunca.

on writing well

the girl with the most cake

um gosto amargo na boca, o estômago queimando e o coração achatado no peito. era uma daquelas segundas-feiras-pós-final-de-semana-enchendo-a-cara. levantar às 6 da manhã após ter ido dormir às 3, para assistir a uma aula chatíssima sobre consumo de mídia; a última coisa que quero saber às 8 da manhã é sobre o perfil de quem mais acessa a internet. fuck it.

então a mente voa. dscapa. desconcentra. vai pro heavier than heaven, pro the great Gatsby, pra perto do coração selvagem, pra ela. chego à conclusão de que todos os caminhos – ou pensamentos, se preferir – me levam até ela.

um “precisamos conversar” sempre deixa um nó na garganta. quero desfazer esse nó. que ela me ajude a desatar. que ela não tenha dúvidas de que todo o meu amor é dela. e o mais importante: que ela descubra que não são apenas palavras. que ela não é apenas mais uma história. que ela é a personagem principal não (apenas) dos meus contos, poesias e crônicas, mas da minha vida.

the girl with the most cake

Metade de um inteiro

Nunca gostei de coisas mornas. O quase nunca me conveceu. Sou da turma do Fernando Pessoa: sê por inteiro. Algo naquela linha 8 ou 80. Quer ser frio? Seja frio. Quer ser quente? Seja quente. Mas não seja morno, please. Porque eu não vou ser morna, sabe? Eu sou leonina com Lua e Vênus também em leão: eu não sei ser pela metade!

Então, se estiver me dando as suas mãos quentes para eu segurar, não me dê apenas metade delas. Não vou dar só metade do meu colo para você, então quando eu estiver deitado no seu, não quero ficar só com metade dele. Caio Fernando Abreu sabe bem o que quero dizer: quando estiver comigo, seja todo você. Corpo e alma. Às vezes, mais alma. Às vezes, mais corpo. Mas, por favor, não me apareça pela metade. Não quero migalhas dormidas do seu pão. Não quero restos e raspas. Quero só o que for completo.

E quero hoje. Amanhã? Amanhã a gente vê no que vai dar. Vamos construindo o presente. O futuro a gente deixa para depois. Por que não é a ideia de fim que me incomoda. É a ideia de não ser completo que me destrói. Então se você ficar, fique por inteiro. Se quer que eu fique ao seu lado, fique ao meu. Não estou falando só fisicamente, compreende? Quero algo mais profundo. Não sei ser rasa. Pelo menos não com você. De você eu só quero TUDO. Por que eu estou te dando TUDO.

Repito: sou leonina com Lua e Vênus em leão. EU NÃO SEI AMAR PELA METADE, como diria a minha grande confidente Clarice. Se você quiser metades, me avisa agora. Não me deixa acreditar no que não existe. Eu entreguei meu coração nas suas mãos. Você disse que entregou o seu nas minhas. Mas será que entregou completamente? Se a entrega não foi verdadeira e completa, eu faço a devolução. Não por não te amar. Mas porque não sei me entregar se não for completamente.

Se for durar um dia, dois, um ano, sete anos, uma vida inteira, não importa. O tempo não é importante. O que importa é que seja intenso, verdadeiro, inteiro, profundo.

Agora me diz: você vem comigo ou não?

Metade de um inteiro

Sobre olhos que mudam de cor

Camila Strongren,

Tenho um certo problema para começar cartas. Nunca sei como começá-las. Nosso começo foi meio nonsense, então não dá para esperar uma carta com um começo no estilo conto de fadas, né? Se antes tudo era apenas uma espécie de plano, hoje, se há algum plano é o de que possamos ficar juntas até ficarmos bem velhinhas… Foram meses sem falar contigo, após toda a merda que eu fiz. Lembro que minha irmã foi ao show da Kate Perry e eu fiquei lembrando de quando fomos ao prédio da Gazeta para comprar o seu ingresso. Durante esse tempo em que ficamos distantes e eu via algo que era a sua cara, tinha vontade de te mostrar – mas aí eu lembrava que a gente não tava se falando e desencanava.

É, eu reconheço, fui uma vadia estúpida e sem coração. Mas não quero falar do passado. Quero falar do quanto você foi, é, e sempre será importante para mim. De como você mudou a minha vida e me fez enxergar o mundo com outros olhos. Sem você, tudo estava incompleto. Claro que eu ainda tenho muito a aprender, mas você é parte essencial desse aprendizado. Sem você eu não seria quem eu sou hoje.

Quando voltamos a nos falar, eu percebi que simplesmente não conseguia ficar longe de você. Que os olhos ainda mudam de cor. Que “o que for para ser, vigora”. Falando em mudar de cor, foi engraçado ter a Nanda Cury no nosso reencontro… Ela sempre botou uma fé enorme na gente. Ah, hoje ela me disse que em janeiro tem show do X So Pretty e nos convidou para ir.

Eu achei que você não fosse compreender, que não confiaria em mim novamente, que me chamaria de louca por estar sentindo tudo isso por você! Mas você não me julgou e me deu, ou melhor, nos deu, mais uma chance. Hoje eu vejo tudo o que passamos como um degrau para que atingíssemos um nível mais alto. Afinal, hoje sabemos bem o que sentimos uma pela outra e o mais importante: sabemos que realmente queremos ficar juntas.

Hoje fazem 10 anos que a Cássia Eller se foi. Tô ouvindo “No Recreio”. E hoje, posso dizer com toda a certeza do mundo, que “só é possível te amar”. Se não me engano, ela nunca escreveu uma música. Mas todas as músicas que ela cantou parecem que foram escritas para ela, já percebeu? Amo a potência e a urgência com que ela canta as músicas mais pesadas e a ternura que ela transparece na voz com as músicas mais calmas. “Agora que eu comecei a gostar da mulher, ela morre?” foi o que ouvi minha tia dizer há 10 anos atrás. Acho que gosto da Cássia desde a primeira vez que a ouvi cantar. Não sei ao certo qual música ouvi primeiro, mas não há uma única música que ela cante da qual eu não gosto. Quando comecei as aulas de canto, cantei “Malandragem” na minha primeira apresentação.

Tava pensando esses dias em como nomes que começam com a letra “c” geralmente pertencem a pessoas fodas. Além da própria Cássia, tem o meu querido Cainho, tem o Cazuza (ok, o nome dele era Agenor, mas ninguém chamava ele assim!), a Clarice… e você, bebê, a pessoa que me fez descobrir o que é o amor, o que é amar de verdade. Acho que merecemos, finalmente, todo o amor que houver nessa vida.

Obrigada por fazer parte da minha vida, obrigada por ter deixado meus erros para trás, obrigada por estar ao meu lado, e principalmente, obrigada por ser quem você é.

Te amo com todo o meu coração, com toda a minha alma, com todo o meu ser e com todo o meu drama e exagero leonino. I’m yours.

Sobre olhos que mudam de cor

Freedom forever

– Ela é tão livre que um dia será presa.

– Presa por quê?

– Por excesso de liberdade.

– Mas essa liberdade é inocente?

– É. Até mesmo ingênua.

…- Então por que a prisão?

– Porque a liberdade ofende.

As palavras acima são da Clarice Lispector. Foram deixadas no meu mural pela Susie Maeno. Acho tão lindo quando alguém diz que algo tão lindo é a minha cara. Sem mais.

Freedom forever

Necessidade

“Eu queria infundir o mundo da escrita com a urgência e o ataque frontal do rock n’ roll”. Não, quem não considera escrever um necessidade, assim como respirar, não compreende essa frase da Patti Smith. Não estou tentando comparar o que eu escrevo com o que ela escreve. O que temos em comum é essa urgência pelas palavras. Coisa que o Caio, a Clarice, o Kerouac, o Buk, o Fante e uma porrada de escritores que eu amo, tinham. Mais uma vez: não estou querendo comparar o que eu escrevo com o que eles escreveram. Estou falando da necessidade de escrever. De depositar todo o caos existente dentro de si nas palavras. Mas… não adianta tentar explicar. Só quem também sente pode entender. Ah, se todos vocês soubessem! Se todos vocês sentissem! Se todos vocês vissem o dono da Tabacaria acenando, ouvissem os solos de guitarra e comessem chocolates! Será que ainda se importariam tanto assim? Não, nem em mim. Nem em mim, meus caros. Muito menos em mim.

Olhando para o meu antebraço, concluo que let it be é a melhor coisa que todo e qualquer ser humano e não humano pode fazer. Ninguém é obrigado a ler o que eu ou qualquer outra pessoa no mundo escreve. Meu espaço, minhas divagações, minhas palavras. Não gosta? Tem um “x” ali em cima, é só clicar nele. Acha que é de verdade, acha que é de mentira? It isn’t my problem, darling. Continuo e continuarei a escrever. Inventando realidades, realizando faz-de-contas. É doce.

A vida é bela, não esquece, tá?

Necessidade