Son(h)o

Foi mais uma daquelas noites de insônia. Sabe quando você passa quase o dia inteiro sem falar com uma pessoa, manda mensagens e nada? Depois eu soube que minhas mensagens não chegaram. Mas naquele momento eu não sabia disso.

Não preciso comentar que sou dramática e blablabla, então fiquei bem mal por causa disso. Comecei a conversar com o Gus sobre como, às vezes, a vida é uma merda. Ele cita uma frase de uma música do Dead Fish – umas das que mais gosto do álbum Contra Todos – : “Nas armadilhas da cidade que nos causa repulsa, nosso horizonte podia ser mais azul, mas você fica tão bem sob estes tons de cinza e seus olhos sempre me refletem algo bom”. Eu nem sabia que o Gus gostava de Dead Fish. Sorri, virei pro lado e tentei dormir.

Naquele estado em que você está meio acordado, meio dormindo, finalmente recebi uma mensagem dizendo que ele não tinha recebido as minhas. Foi quando realmente consegui descansar.

Son(h)o

Ei Dead Fish, vai tomar no cú

Eis que saio da Livraria Cultura, do Conjunto Nacional, caminho em direção ao parque Trianon e ao esperar o semáforo abrir para atravessar a rua, quem avisto do outro lado? Rodrigo. Sim, o Rodrigo do Dead Fish.

Conheço a banda desde os meus 13 anos e sou imensamente apaixonada pelo som dos caras. Lembro da época dos shows no Hangar110 onde eu me enfiava junto com os moleques no bate cabeça e saia toda roxa. Isso antes deles começarem a ter clipe passando na MTV e se tornarem uma banda mais conhecida na mídia.

Mas voltemos ao Rodrigo: ele foi minha paixão platônica durante os primeiros anos da minha adolescência. Cantava numa banda de hardcore, tinha uma visão política fudida, era vegetariano, tatuado, torcia pro Juventus da Mooca… Impossível seria se eu não tivesse me apaixonado por ele. Eu me controlava nos shows para não gritar algo como “Rodrigo, casa comigo”! Cheguei até a ficar amiga da Giovanna, a namorada dele na época, só para me aproximar do cara. Mas eu era uma pivete vivendo uma paixão platônica. Claro que não deu certo.

Mas ao encontrá-lo na Paulista nesse dia, ter conversado com ele, trocado e-mail e números de celular, uma coisa é certa: tenho por ele uma admiração enorme que nunca vai passar.

Ei Dead Fish, vai tomar no cú

Arriba

Arriba Cásper. Nossa tequilada de todo ano. Dessa vez, show dos Raimundos. E de um tal de MC Sapão, do qual eu nunca tinha ouvido falar. Ao entrar no espaço Seringueira, ali na Francisco Matarazzo, lembrei o por quê eu odeio baladas. Pelo menos as baladas, digamos, “tradicionais”, e principalmente, as da Cásper. A fila imensa da chapelaria foi só o começo. Também tinha aquele empurra-empurra escroto para conseguir pegar algo no bar. Malditas festas open-bar! Mas todo o aperto e espera valeu a pena: uma linda de dread azul e piercing na bochecha e no lábio foi quem me deu as bebidas.  

Aí também tinha as meninas frescurentas que tanto me dão nos nervos. Porra, era uma tequilada com show dos Raimundos, por que diabos ir de vestidos (que a qualquer movimento não calculado mostravam absolutamente tudo) com cara de casamento e salto agulha? Sim, eu sou totalmente a favor da pessoa se vestir do jeito que quiser. Mas não suporto piriguetes, gente. Não me desce. Não dá. Ainda por cima, repito, em uma tequilada com show dos Raimundos!

Para a minha sorte, começamos direto com o show. Duas vódegas na mão e simbora para pista. Fucking dyke, eu pensei. Quase que instantaneamente ao meu comentário de que merecíamos uma boa roda, uma roda se abre. Ficar se fora não estava dentro das minhas cogitações. Então lá estava eu, única mulher participando da roda no show dos Raimundos. Sí, fiquei dolorida e tenho alguns roxos espalhados pelo corpo. Mas os garotos da Cásper me mostraram que não são totalmente cuzões: sabem fazer uma roda! Naqueles instantes lindos e doloridos, me redimi com a Cásper Líbero e seus alunos toscos. Nada que se compare com as rodas nos shows do Dead Fish, é claro…

Aí o show acabou e as coisas já não eram tão mais lindas. A atitude hardcore tinha ido embora e a chatice, ignorância, machismo e “bebedisse” dos garotos havia começado. Nem sei ao certo o número de garotos que eu quis socar. Porra, não chega pegando na minha cintura, muito menos puxando meu braço e jamais tentando me beijar a força. Depois leva um chute naquele lugar e não sabe o por quê. E ainda sai me chamando de louca-bêbada-desvairada. Ah, vá, né? Para não dizer que não falei das flores, um dos carinhas chegou perguntando meu nome e dizendo que gostou das minhas tattoos. Um ponto para ele. Conversamos sobre jornalismo e fui pegar mais bebida. Um jeito fino e clássico de escapar de alguém que foi simpático com você.

Após mais vódegas & tequilas, algumas coisas voltaram a ficar lindas de novo. Conheci um gay de Porto Alegre. Quando eu fico bêbada, começo a falar com um sotaque gaúcho, graças à família da minha mãe, que é metade de lá e metade do Paraná. Ele me apresentou para uma amiga dele e aí não preciso falar mais nada, né? Comecei a socializar com todo mundo e fui fazendo amigos pelo meio do caminho, o que acabou fazendo com que em determinado momento, eu nem soubesse mais onde estavam o meu amigo gay e a amiga dele que “às vezes” beija meninas.

A cena mais engraçada da noite veio depois. Eu estava descendo do fumódromo para ir pegar bebida com a linda de dread azul e piercing na bochecha e no lábio, quando, sabe-se lá Deus como, chega uma guria:

– Você é lésbica, né?

– O quê?

– Eu também sou, vem cá.

Eu fui, né?! Só sei ela era linda – um coração lindo nas costas, tipo o da Leandra Leal, olhos cor de mel, cabelo curto. Só sei também que juramos não esquecer o nome uma da outra e nos adicionarmos no Facebook. Meia-hora depois eu só tinha uma tênue lembrança do nome dela ser Mariana e não fazia a mínima ideia do sobrenome.

Um pouco antes da festa acabar, vieram me falar que uma amiga minha queria me ver. Que ela estava trabalhando no bar. Contei sobre os causos da noite, mostrei orgulhosamente meus roxos e exibi uma voz que já começava a ficar rouca. Então me dei conta que a linda de dread azul e piercing na bochecha e no lábio ainda estava ali. “Cara, tô pagando pau para essa mina desde que eu chegay aqui”, foi o que eu disse. “Minha amiga, Grazi, achou você bonita, queria seu telefone”, foi o que disseram para ela.

Ela veio me cumprimentar e tal. Deu uma piscadinha dizendo “eu vou”. Não aconteceu porra nenhuma, mas, descobri, no outro dia, que ela tem namorada. E que a namorada dela também estava trabalhando lá no bar e ficou me olhando feio. Fato um: meu gaydar não mente. Fato dois: como diz uma amiga minha, não tenho culpa se ela está com uma sapatona galinha…

Conclusão: continuo odiando baladas desse tipo, mas sempre há um jeito de torná-las bem mais atrativas, divertidas, gostosas…

Arriba