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“Eu me lembro que um dia acordei de manhã e havia uma sensação de possibilidade. Sabe esse sentimento? E eu me lembro de ter pensado: Este é o início da felicidade. É aqui que ela começa. E, é claro, haverá muito mais. Nunca me ocorreu que não era o começo. Era a felicidade. Era o momento. Aquele exato momento.” – Virginia Woolf

sun

hoje de manhã o sol veio sussurar em minha pele. ele me pegou. logo cedinho, ali estava eu, entorpecida pelo sol. o caminho não parecia nem um pouco sombrio. havia uns cantos escuros no trajeto, mas não eram nem um pouco assustadores. não tinha nada de muito diferente nessa rotina de acordar cedo e pegar esse caminho, exceto essa sensação de possibilidade. sim, o sussuro do sol foi isso: possibilidade. de repente, here comes the sun. as coisas tornam-se mais vívidas. quase um filme do Almodóvar. não sei, só sei que foi assim: coloriu. até as formiguinhas sorriram pra mim nesse momento, sabe? não foi nada e ao mesmo tempo foi grandioso. aquelas pequenas epifanias que às vezes acontecem na vida da gente. um “eu faço parte dessa porra de universo, caralho!”. “o sol tá aqui pra me aquecer, o vento tá cantando em meus ouvidos, as folhas tão balançando nas árvores, o cachorro tá latindo lá na esquina – e eu me sinto conectada com toda essa porra, caralho!”. por alguns instantes, tudo parecia fazer sentido. a little bit insane, i know. mas ela estava ali: possibilidade. ela tá aqui, de pernas arreganhadas.

não sei, mas talvez tenha algo a ver com o dia de ontem: meu aniversário. ano novo astrológico, como dizem. será? sendo ou não sendo, o fato é que sim, sinto como se eu acabasse de começar um novo calendário. novinho em folha, cheio dessas possibilidades que o sol me sussurou. o mundo oscilava e estremecia e eu fazia parte disso. não havia ninguém além de mim e do universo inteiro. é tão estranho o poder do sentir em certos momentos. eu sentia! como se eu tivesse trazido à superfície algo que, ao se manifestar, fosse intangível mas ao mesmo tempo possível. um sentimento extremamente excitante. toda uma febre de viver que no fundo, é a própria simplicidade da vida. assim eu me aproximava da vida, o sol cada vez mais forte, os sussurros cada vez mais altos, algo extraordinário prestes a acontecer. a própria vida, cada um de seus momentos, aquele e este instante, agora, sob o sol. eis aí a verdade: há vida e beleza por toda parte (até mesmo no pior lugar do mundo a vida e a beleza ainda estão lá).

de repente o sol me trouxe a certeza de que tudo daria certo. aquela experiência solitária de comunhão que as pessoas enfrentam sozinhas, assim meio do nada. eu tinha a impressão de estar por toda a parte, não apenas aqui ou ali, mas por toda parte. a vida fluindo: absorvente, misteriosa, com uma abundância infinita. o que afinal, agora, significava isso pra mim, essa coisa chamada de vida? o que era essa excitação que tomava, tomou, toma conta de mim?

fazer dar certo.

ps.: e hoje faz 8 meses que eu namoro a mulher da minha vida ♥

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As Horas

Finalmente assisti “As Horas”. Não, não sabia que era o título provisório que a Virginia deu para Mrs. Dalloway. São três enredos, três mulheres distintas no tempo e no espaço, mas unidas pela escrita/leitura e pela “falta de ajuste” ao mundo.

Virginia, que projeta sua angústias em seus personagens, enfrenta a loucura e pensa em suicídio; Laura, que lê exatamente o livro Mrs. Dalloway e é uma mãe e dona de casa insatisfeita com a vida que leva; e Clarissa, uma editora que tenta preencher o vazio de sua vida dando festas… a todas elas, falta um sentido. A falta de sentido em suas vidas torna a angústia das três evidente.

O filme fala dessas horas, do tempo que se mede em instantes: instantes de urgência em ser, em viver, em sentir a cidade e experimentar-se a si mesmo. E nessa urgência, vida e morte não são mais opostos. Esses instantes compõem a vida, no que ela tem de mais essencial: o ritual diário de abrir os olhos, as janelas, as portas, e saltar para a vida – ou para a morte.

Nas palavras da própria Virginia Woolf, “examine por um momento uma mente comum em um dia comum. A mente recebe uma miríade de impressões – triviais, fantásticas, evanescentes, ou gravadas com a agudeza do aço. De todos os lados as impressões chegam, como uma chuva incessante de átomos; e quando caem, tomam a forma da vida de segunda-feira, terça-feira, e o modo desta chuva de impressões é diferente de outra; (…) A vida não é uma série de lampiões simetricamente arrumados; a vida é um halo luminoso, um envoltório semi-transparente que nos envolve do início da consciência até o fim” ♥

As Horas

Black

Caio, eu também queria saber usar a palavra voragem. “Qualquer abismo nas estrelas de papel brilhando no teto”… Ler vórtice e pensar na vertigem. Na voz rouca das mulheres que segundo John Fante tem ela assim devido há anos de conhaques e cigarros. Mesmo preferindo vodca… Então surge o abismo, aquele abismo do Assunto de Meninas e muitos outros. Aquilo tudo que subverte ou consome: “paixões, ideologias, ódios, feitiçarias, vocações, ilusões, morte e vida. Essas outras palavras de maiúsculas implícitas – vorazes, voragem -, abismais”.

Eu estava e continuo no centro do furacão, Caio. Repetindo algumas palavras que não são minhas, lembra? Até a chuva parece se repetir. Não tem nenhum porteiro tocando violão e cantando, então vou pedir para qualquer um que me socorra. Aí você vem e fala de Virginia Woolf e eu estou contigo também tendo certeza absoluta que já fui ela em outra vida. Enganada pelas fadas, principalmente. Culpa do Peter Pan e da Wendy. Quero a respiração aliviada de, pelo mesmo instante, não ser mais eu. Não nos suportamos nem nos perdoamos de ser como somos e não termos solução.

A matéria escura, o buraco negro, todo o Universo inteiro. Sabe o pior? Assim como o Eddie Vedder, I know someday you’ll have a beautiful life, I know you’ll be a star in somebody else’s sky. Você continua atingindo meus ouvidos com nomes cheios de sangue. Dói bastante, por mais que eu não demonstre. Só as estrelas de papel do teto do quarto brilham. Você consegue enxergá-las? Consegue vê-las brilhar?

Preciso do solo de guitarra rasgando a madrugada.

Black

Potencialidades

Estava no bar com dois amigos. Na mesa ao lado, uma mulher tira da bolsa um livro da Virginia Woolf. Não, não resisti. Fui lá e começamos a conversar. Ela já tinha seus 40 e poucos anos, estava ali bebendo cerveja com a filha e os amigos da filha, que estava completando 23 anos. Disse pra ela que achei aquilo lindo, ela bebendo num bar qualquer junto com a filha, de como eu não queria perder essa chama que estava viva nela quando eu ficasse mais velha. Puxamos o assunto pros anos 60, Che Guevara, feminismo e então a filha dela virou pra mim, me levou mais pra perto das pessoas da mesa e soltou:

 – Temos aqui entre nós uma revolucionária!

 Sim, todos pararam, olharam, bateram palmas. Pode parecer babaca. Mas gostei tanto! Tanto, tanto, tanto. Não é extraordinário quando as pessoas reconhecem o potencial revolucionário que existe em você? Mas aí vai de você transformar todo esse potencial em atitude, viu? Eu tento. Tô tentando.

Potencialidades

Forget her

Sabe a coisa mais ridícula, cretina e absurda? É ainda desejá-la. Depois de tudo. Mas quer saber de outra coisa? Chega. Não dá mais. Cansei. Hora de seguirem frente. Re-começar.Nãovou estragar a porra do relacionamento de ninguém. Nem ficar me submetendo a ela. It’s over, baby. A garota pela qual eu me apaixonei naquele bar já era. Os olhos podem até continuar mudando de cor, mas não estou disposta a observá-los. Não dá para continuar com esse joguinho onde não há vencedor. Aliás, tem um monte de coisa que não dá mais. Não dá para continuar bebendo Balalaika e lembrando dela. Lendo Sartre e Virginia Woolf e lembrando dela. Ouvindo Brollies & Apples, Luxúria, Hole e The Smiths e lembrando dela. Vendo aranhas e pinguins e lembrando dela. Assistindo Friends e lembrando dela. Não dá, saca? Talvez o antigo lance do “o que os olhos não veem o coração não sente” possa dar certo. Não custa tentar. Pelo menos até as borboletas irem embora e as coisas se normalizarem.

Forget her

Some girls are bigger than others

A primeira coisa que viu quando saiu de casa e entrou no carro foi a Lua. Crescente, mas com um brilho de Lua cheia. Extremamente nítida. Impossível não pensar no sorriso do Gato da Alice. Eram 5h23 da manhã. Uma terça-feira gelada. Fazia apenas 5º graus. Fechou o portão de casa soltando aquela típica fumacinha que sai de nossas bocas em dias muito frios. Gostava do inverno. A garganta raspava, ameaçava começar a doer de verdade.  A boca seca devido aos copos de cerveja e às doses de vodka da noite anterior. Mas nada disso importava. A Lua sorria para ela. Além de sorrir, a seguia por todo o caminho até o trabalho. Ela observava aquele sorriso e sorria de volta, enquanto divagava em seus pensamentos sobre como a última noite havia sido, no mínimo, divertida.

Encontrou-se com um amigo no bar de sempre. Aquele da 9 de julho. Sentaram para tomar algumas cervejas e conversar. Pensaram em ideias para o site que têm juntos. Música, festas, baladas, teatro, cinema, artes plásticas… Não daquela maneira convencional a qual todos estão acostumados a ler nos veículos de comunicação. Usariam certa dose de acidez.  Entre cervejas, cigarros e ideias inspiradas, chega uma conhecida de ambos.

Pediram mais cervejas e compraram mais cigarros. “Tá na hora de uma vodka”, ela pensou. Como era de se esperar, não foi apenas uma. Os três dividiram algumas doses. “Agora é hora de ir pra Augusta”. E foram. Em plena segunda-feira, estavam ali, indo para Augusta, sorridentes, tagarelas, alcoolizados e o mais importante: felizes.

Pararam no Pescador. “Alguém disse cerveja?”. Ali ela viu a garota de meia-calça preta, bermuda, cinto de rebite, all star, blusa de moletom marrom e uns olhos que não eram de ressaca, mas levava em si as cores do mar.

 Um-cara-qualquer passou com um cachorro lindo. Louca por bicho como ela é, foi conversar com o animalzinho e fazer carinho nele. Quem foi conhecer o belo cachorrinho também? A Ju. Juliana era o nome da dona daqueles olhos intrigantes, arredios, penetrantes e tremendamente interessantes.

Conversaram sobre Seu Jorge, cantaram Gritando HC, falaram sobre Biologia, Virginia Woolf, Nietzsche, ratos e iguanas, além de dividirem cigarros e bebidas.

Ela chega no trabalho, desce do carro e sorri o mesmo sorriso que a Lua. Dá uma última olhada para aquele céu ainda escuro, entra na sua sala, liga o notebook, coloca o fone de ouvido e começa a ouvir David Bowie e The Smiths.

Some girls are bigger than others

Toque dela

A chuva caía lá fora enquanto eu escutava Brollies & Apples e lia Caio Fernando Abreu. Exatamente no ponto em que ele dizia: “tentando reunir os fragmentos, não saberia dizer se teria mesmo precisado acender outro cigarro ou beber mais um gole de uísque para ajudar a ideia vaga a tomar forma”, ela me liga.

Vejo seu nome no visor do meu celular e estremeço. Um estremecimento bom. Senti meu rosto ficar vermelho. Senti algo não identificado se mexendo no meu estômago. Ri de mim mesma: como sou patética!

Retornei a ligação. Ela havia saído do trabalho e descido na Av. Paulista. Resolveu se abrigar da chuva no escadão da Gazeta, enquanto aguardava o ônibus. Como eu estava ali na Cásper, resolveu me ligar e pedir para eu descer e encontrá-la.

Porém, o ônibus passou antes que eu descesse e ela foi para faculdade. Continuei aqui na Cásper. Escutando Brollies & Apples e lendo Caio Fernando Abreu. Mas agora com um sorriso bobo estampado no rosto e uma alegria ridícula pelo simples fato dela ter me ligado. Agora o Caio diz “sorriso nos lábios pálidos, não era preciso dizer nada”. Já mencionei que sou patética?!

***

Minha aula começou. O professor falava algo a respeito de um documentário chamado “Santiago”, do João Moreira Salles. Só lembro que é sobre um mordomo argentino de sangue italiano que trabalhou por três décadas para o pai do João, o Walther Moreira Salles. Foi quando mandei uma mensagem para ela dizendo que sairia da Cásper por volta das 21h30 e que se ela quisesse, poderíamos nos encontrar para tomar uma vodka.

Ela veio novamente para a Av. Paulista e nos encontramos. Fomos ao Charme, aquele bar ao lado do Trianon e praticamente em frente ao MASP. Pedimos a nossa vodka. Mas resolvemos fazer isso exatamente no dia em que um ciclone extratropical resolve atingir todo o Sul e Sudeste do país. Ou seja, as rajadas de vento chegaram a 80km/h. Estávamos praticamente sendo levadas pelo vento. Mesmo assim, não posso reclamar.

 Pode ter sido uma merda pelo vento que parecia em fúria, mas a simples presença dela fez qualquer raivinha de Iansã parecer pequena. Não chegou nem aos pés de ser uma de nossas melhores conversas, mas não imagino mais um dia sequer sem fazer alguma-coisa-qualquer com ela. Pode ser ir à banca de revistas comprar uma Super Interessante, ir na Livraria Cultura ficar horas ou ao menos 5 minutinhos vendo os livros da Virginia Woolf , da Katherine Mansfield e da Clarice Lispector, fumar um cigarro juntas enquanto conversamos sobre The L Word, ou mesmo não fazer nada. Desde que eu faça nada ao lado dela. Entendeu por que sou patética?

Toque dela