Prison break

“vamos sorrir e viver assim, aceitar tudo como fomos instruídos e então viver em paz, sem olhar pra trás, não reagir, sempre se omitir. e a culpa não será em vão, apagada em álcool e alcatrão. por séculos e para todo sempre, seremos o cidadão padrão” – Dead Fish

Falta discernimento nas pessoas para entender que a redução da maioridade penal não é solução para nada. É apenas uma peneira para tapar o sol. É como colocar pré-monstrinhos em uma jaula para não ter que lidar com eles de verdade. Afinal, é mais fácil encarcerar do que investir em educação e em lazer, essas sim, iniciativas capazes de promover a reinclusão. Aliás, o sistema carcerário no nosso país já é uma vergonha.

Temos a 4ª maior população carcerária do mundo. Dois terços desses presos são de réus provisórios, aguardando decisão judicial (o que deixa cadeias e penitenciárias superlotadas e sobrecarrega as celas das delegacias). Segundo o site www.prisonstudies.org, em 2012, eram 496 mil presos para 299 mil vagas. A maioria deles, 125 mil, presos por tráfico de entorpecentes. Mas claro que pensar na descriminalização das drogas é assunto vetado. É mais fácil continuar mandando todo mundo para cadeia mesmo. E querer que adolescentes entrem nessa também. Mais uma vez: para que educação e lazer, não é mesmo?!

Claro que devemos lutar para combater a violência. Mas não é prender adolescentes que nos trará um mundo mais seguro. É investindo nesse adolescente que conseguiremos uma sociedade melhor. Além dos já citados educação e lazer (não me canso de repetir), precisamos de saúde, moradia digna, igualdade de oportunidade. Tudo o que aqueles que são a favor da redução da maioridade penal têm.

É fácil, de dentro da realidade burguesa, elitista e egoísta, achar que a medida é correta, que vai trazer benefícios à população. Realmente, a essa população burguesa, elitista e egoísta, irá trazer mesmo: ela não precisará ver “esses delinquentes” pelas ruas. Mas não ver alguma coisa não significa que essa coisa não exista. Os prejudicados, como sempre, são os pobres e excluídos, principalmente negros. Depois ainda dizem que não existe racismo no Brasil…

O Deppman estudava na minha faculdade. A morte dele reacendeu o debate sobre o tema. Claro que acho bonito essa mobilização e solidariedade geral por conta da morte dele. De fato, é um absurdo o que aconteceu com ele. Mas quantos absurdos desse tipo não acontecem todos os dias e nada é feito, ninguém fala nada?

Nas palavras de uma amiga minha, “o moleque não matou porque queria o celular ou a mochila, matou porque não tinha nada a perder”. É essa a questão. Continua sendo um absurdo ele ter matado o Deppman. Mas olhando a fundo, enxergamos a realidade desse adolescente: pobre, viciado em drogas, esquecido pela família, abandonado pelo Estado, sem perspectiva de vida nenhuma. Não, não tô falando que isso justifica a morte. Tô falando que o Estado abandonou o cara e agora quer punir o cara. Tô falando que o burguês que negou uns trocados quando ele tava vendendo bala é o mesmo que quer vê-lo atrás das grades.

Nas palavras dela novamente, “a diferença é que agora esse adolescente tá aqui ao lado, batendo na nossa porta, ultrapassando o muro alto e a cerca do condomínio fechado, atingindo os nossos amigos e familiares”, e portanto agora devemos agir, devemos destilar todo nosso ódio a essa sociedade que nós mesmos ajudamos a criar.

A redução da maioridade penal é uma “solução” burguesa, preguiçosa, hipócrita e egoísta. É muito mais fácil colocar todo mundo na jaulinha e fazer de conta que a paz reina naturalmente.

Prison break

do it

não sei quanto a você, mas eu não consigo ser plenamente feliz enquanto índios perdem suas terras e são dizimados, jovens negros de periferia são mortos, mulheres e crianças são estupradas, animais são torturados pelas indústrias da moda, entretenimento, científica e alimentícia, milhares de pessoas não tem o que comer, milhares de pessoas não tem onde morar, milhares de pessoas são expulsas de suas casas, fanáticos religiosos promovem guerras, animais são abandonados, furacões, terremotos e tempestades acabam com a vida de diversas pessoas, os acidentes de trânsito continuam fazendo diversas vítimas fatais, a comunidade LGBT é discriminada, a propriedade vale mais do que a vida, o trabalho é alienante, a educação não é para todxs, o sistema de saúde é precário, tenho que abaixar a cabeça para governantes que não me representam, o homem ainda é visto como superior, pensamentos super mega conservadores rodeiam o mundo, a pornografia infantil domina denúncias de crimes na internet… como não se indignar? não dá pra ser totalmente feliz vivendo em um mundo assim. como existem pessoas que se conformam com suas vidinhas fúteis? I DON’T BELONG HERE, acho que essa é a explicação. eu sinto demais as dores do mundo… e essa dor, essa indignação, é o que me move. não vou ficar parada assistindo toda essa desgraça. SÓ RECLAMAR NÃO ADIANTA NADA. então se você também não está satisfeitx, FAÇA ALGUMA COISA. por menor que seja, qualquer ação em prol de um mundo melhor é válida. dar bom dia ao vizinho, ajudar um animal de rua, visitar comunidades da periferia… ações pequenas fazem a diferença. o que não dá é pra não fazer nada. uma pessoa não pode mudar o mundo inteiro, mas ações locais, feitas por muitas pessoas, em nível global, podem. é clichê, mas é a frase mais adequada para esse momento, dita pelo grande Gandhi: SEJA A MUDANÇA QUE VOCÊ DESEJA VER NO MUNDO. eu estou tentando e você?

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Má educação

Ah, o Congresso Marista. Credencial de imprensa é instrumento de poder. Vinho e queijos franceses à disposição. Acesso aos camarins e afins. Entrevistei o Norberto Liwski, ex-vice-presidente do Comitê da ONU de Direitos da Criança e do Adolescente. Abaixo, algumas frases dele (que eu super concordo):

Precisamos de profissionais de educação com capacidade de examinar o complexo cenário latino americano

Políticas públicas incisivas, levando em conta a disparidade social e a dificuldade de atingir a todas as crianças e jovens devem ser postas em prática

A análise de realidade local, levando em conta o contexto histórico do país, deve servir de parâmetro para a implantação de políticas públicas para a educação

A reflexão e afirmação do direito da participação da criança e do adolescente na sociedade são indispensáveis para a efetivação plena dos Direitos Humanos

A escola não pode se eximir da responsabilidade de ajudar seus alunos a exercer seus plenos direitos

A autoridade pedagógica não pode se transformar em autoritarismo, é preciso haver diálogo entre professor e aluno para que haja uma relação equilibrada

Atividades extracurriculares e a participação da comunidade são ações para melhorar a convivência e o desempenho escolar. Essas ações devem ser incorporadas às práticas cotidianas e não se limitarem a eventos ou a datas comemorativas

A Economia não deve ser vista como um impasse para a Educação, não podemos nos acostumar ao descaso com a Educação só porque a Economia “vai mal”, devemos ter em mente políticas públicas que possam ser efetivadas mesmo com pouco crescimento econômico

Crianças e adolescentes em ambientes mais pobres, ou mesmo em situação de abandono, acabam postos à margem da sociedade, são marginalizados e estigmatizados. A articulação família/comunidade é indispensável nesses casos, é preciso dar a esses jovens uma segunda chance

Trabalhar o fortalecimento de uma pedagogia participativa em que os educadores ajam como protagonistas e as opiniões dos alunos, dos pais e da comunidade sejam levadas em conta é uma ação fundamental para melhorar a Educação

Paulo Freire nos mostrou um novo rumo para a pedagogia brasileira, suas ideias continuam atuais e merecerem ser trabalhadas e postas em prática para a construção de novos cenários

Necessidade de medidas para que as crianças e jovens possam expressar suas opiniões tanto no âmbito escolar como na sociedade

Estimular a cooperação, eliminando a discriminação e alimentando o respeito pelas diferenças é papel da Escola

A estrutura escolar também é importante, alunos ficam mais estimulados e interessados em aprender em um ambiente confortável e adaptado as suas necessidades

Má educação

We don’t need no education

E finalmente trabalhando em uma editora. Dia-a-dia na redação de uma revista. Não é sobre moda, literatura, cinema ou música, como imaginei quando comecei a estudar jornalismo. Mas é em uma revista sobre um assunto do qual eu sei bastante: educação. Chega até a ser engraçado como em todos os empregos que eu tive até agora, o tema educação sempre esteve presente.

Nunca tinha me interessado muito por essa área, até o ano de 2007, quando eu estava terminando o Ensino Médio e minha professora de inglês me chamou para ajudá-la nas aulas. Acabei sendo contratada pelo colégio, para dar aulas de reforço para as crianças. O passo havia sido dado: eu não sairia tão fácil do ramo.

Descobri que levava jeito para coisa. Sim, era estressante, mas ver meus alunos evoluindo compensava qualquer stress. Me apeguei bastante a eles. Eu chegava para trabalhar e logo que pisava no pátio tinha um monte de criança me rodeando. Ganhava cartinhas e desenhos deles todo dia – guardo todos! Era divertido como mesmo as crianças que não precisavam de reforço vinham pedir para ter reforço comigo. Meus próprios professores me elogiavam, diziam que meus alunos falavam muito bem de mim e podiam ver os progressos.

Ainda tenho em mim um pedacinho de cada um deles. E confesso: sinto falta de dar aula. Nesse colégio, tive um aluno com síndrome de Down, que me ensinou a ter mais paciência e a colocar uma dose extra de amor no meu trabalho. Ensinei ele as vogais do alfabeto e os números de 1 a 10. Na antiga escola dele, disseram que ele nunca aprenderia. Eu mostrei que eles estavam errados. A mãe desse meu aluno dizia que ele ficava o dia inteiro falando meu nome, com o caderno na mão, querendo ir logo para a aula. Ele acabou tendo que ir para outra escola, porque o pai conseguiu um emprego em outra cidade, mas não esqueço as palavras da mãe dele: “Natasha, quando voltarmos para São Paulo, vamos te procurar para você dar aula para o Lucas, só vamos colocar ele de novo nessa escola se você ainda estiver dando aula aqui”. Isso foi há uns dois anos. Nunca mais tive contato com a família…

Eu já estava fazendo jornalismo nessa época, mas ainda não tinha trabalhado na área. Até que recebo uma ligação sobre uma vaga de estágio. De outra escola! Mas dessa vez para atuar como jornalista mesmo. Escrever matérias para o site deles. Óbvio que aceitei. Uma hora ou outra eu teria que fazer algo na minha área. E fui. Não sem antes chorar horrores vendo meus alunos chorarem quando eu disse que ia embora. Ganhei uma festinha surpresa de despedida. Fui para casa com os olhos inchados.

Tenho contato com alguns alunos ainda e é engraçado quando eles falam que as novas professoras não são tão legais como eu. Uma mãe, inclusive, disse que o filho dela não estava indo bem nas notas com a nova professora, que só eu tinha paciência e jeito para conseguir ensinar as matérias para ele. Claro que isso fez meu ego crescer, mas comecei a questionar o quanto a educação está em crise no nosso país…

Acredito que a minha relação com meus alunos deu certo por conta da sinceridade, cumplicidade e respeito entre nós. Nunca entrei na sala de aula me achando a dona da verdade. Sempre dei abertura para os alunos exporem o pensamento deles. Acabei me tornando uma espécie de confidente deles. Brigas com os pais, paixãozinhas, ciúmes de irmão… Eles me contavam sobre a vida deles e eu percebia de onde vinham os problemas com a aprendizagem. Comecei a me interessar mais por psicologia nessa fase. Percebi o quanto o sistema educacional tradicional é um lixo…

No estágio, meu contato com os alunos não era na sala de aula, eu apenas entrevistava eles, ou acompanhava alguma oficina ou excursão. Foi uma época bacana: menos pressão do que no antigo colégio, primeira vez atuando como jornalista mesmo, trabalhando 6 horas por dia e ganhando bem mais do que eu ganhava quando trabalhava 8 horas. Então meu contrato acabou e… meses depois me ligam da Editora Segmento para um estágio na revista Escola Pública!

E cá estamos novamente, respirando os ares da educação… Hoje sou uma entusiasta da área. Dessa vez, não terei contato direto com alunos. Não mudarei diretamente a vida deles. Mas indiretamente, continuarei fazendo um trabalho educacional. Jornalístico, mas educacional.

De alguma maneira, quero sempre continuar a mudar a vida das pessoas – para melhor, é claro. Porque todo jornalista tem essa mania de querer mudar o mundo, mas poucos percebem que para o mundo mudar, as pessoas têm que mudar primeiro… Me orgulho de ter feito a diferença na vida dos meus alunos e pretendo continuar fazendo a diferença através da educação.  PORQUE A REVOLUÇÃO COMEÇA NA ESCOLA, TÁ LIGADO?

We don’t need no education