1 ano sem a mamãe Giovana

há exatamente 1 ano a mamãe Giovana nos deixou. dias antes, passei alguns dias com ela no hospital, indo pra casa apenas pra dormir. assistíamos TV, conversávamos, falávamos sobre a vida… mas sabíamos que a morte estava por perto. apesar de toda a fé, de toda a esperança, sabíamos que não demoraria muito para ela descansar. um dia antes, os nenês foram visitá-la no hospital. não era dia de visita, mas minha mãe insistiu para que a enfermeira deixasse todo mundo entrar. foi o último dia antes da mamãe Giovana partir. lembro até hoje da minha mãe me ligando de madrugada para contar. não dormi, não conseguia dormir: tudo o que eu conseguia fazer era chorar. até que deitei no sofá e minha cachorra e minha gata vieram deitar em cima de mim. acabei adormecendo.


foi tudo tão rápido, a descoberta da doença, a quimio, as metástases, as internações… apenas 2 anos após realizar o sonho da sua vida – ser mãe – , mamãe Giovana já não estava mais com a gente. quem te acompanhou e esteve ao seu lado sabe como foi difícil – nunca é fácil. com a gravidez de risco e a perda da Fezinha com apenas 7 dias achávamos que já tínhamos passado por muita coisa. nos enganamos, é claro. de alguma maneira, o Universo nos preparou para cuidarmos dos seus nenês. 


minha mãe estava lá quando ela se foi e suas últimas palavras foram “eu estou tranquila, vocês vão cuidar bem dos nenês”.
hoje eles estão com 3 anos e acho que estamos fazendo um bom trabalho. a cada sorriso e a cada novo passo deles, sua presença está ali. mamãe Giovana pode ter nos deixado fisicamente, mas vai estar pra sempre com a gente na memória e no coração.


jamais poderíamos imaginar que você nos presentearia com dois molecotes lindos. agora temos uma responsabilidade grande: criar os nenês para esse mundão. a cada dia eles me ensinam coisas novas. a cada dia eles aprendem coisas novas. é incrível acompanhar esse processo, estar presente todo dia na vida desses pequenos. obrigada pelo presente, tia.


termino de escrever com a garganta seca e os olhos cheios de lágrimas. lágrimas de quem esteve ao seu lado e agora está ao lado dos nenês. porque só assim para saber como é difícil. só assim para saber o quanto doeu e ainda dói. porque daí de onde cê tá, tenho certeza que cê deve tá rindo demais de certas coisas/pessoas.


aqui, um memorial virtual: http://giovana.inoue.muchloved.com/

te amamos para todo o sempre e além, mamãe Giovana ♥

1 ano sem a mamãe Giovana

NÃO VENHA TIRAR MEUS PRIVILÉGIOS!

b7bcf71f87f452b0c1f6b5e2ed944f98– Ô gostosa!

– Que delícia, hein?!

– Essa aí é para comer e repetir o prato!

Alguém pode me explicar como uma mulher pode não gostar de receber um elogio? Certamente são as feministas mal comidas que colocam essas coisas na cabeça das mulheres. Essas feministas vadias lésbicas feias mal comidas peludas.estão tentando acabar com a reputação masculina. Elas ainda não entenderam que temos o direito de dizer/fazer tudo o que quisermos para uma desconhecida na rua. Ou no trabalho. Ou na balada. Ou em um foguete espacial com destino a Marte.

Ser homem já não é fácil e agora aparece um monte de mulherzinha fazendo campanha contra os assobios e cantadas que nós usamos desde que nos entendemos como seres másculos e viris. Como se isso não bastasse, agora elas acham que podem usar roupas curtas e provocativas dentro do transporte público e não serem encoxadas. Será que elas não sabem que nós não conseguimos nos controlar? Homem pensa com a cabeça de baixo e ponto final. Elas que andem de burca. Hum, se bem que eu ficaria excitado só de pensar no que ela pode estar escondendo debaixo de tanto pano… Ah, elas que andem em vagões separados!

Outra prova de como estamos nos fins dos tempos é essa tal de Marcha das Vadias. Ouvi dizer que vai acontecer dia 24 de maio, com concentração no MASP, às 11 horas. Anotei os dados certinho para chegar lá e ver um monte de peitinho. É, elas tiram o sutiã, ficam quase nuas – e acham ruim quando olhamos com desejo, pode uma coisa dessas?! Mas eu tenho um truque: vou fingir que sou feminista. Quem sabe até consigo apertar umas tetinhas?!

Essas tais feministas estão dizendo que a marcha é contra a cultura do estupro. Nunca entendi direito. Se a menina bebeu demais e abusaram dela, é óbvio que a culpa só pode ser dela. Se usou roupa curta, é porque estava querendo. Se voltou sozinha e tarde para casa é porque é uma puta procurando, literalmente, se foder. Não é difícil entender: não somos nós, homens, os culpados. A culpa é sempre da vítima, jamais do agressor. Se ele agrediu, é porque ela mereceu. Até porque, na maioria das vezes elas não falam nada. E todo mundo sabe que quem cala consente.

Não sei por que elas continuam lutando contra uma coisa tão natural. Nós, homens, nascemos para dominar. O topo da cadeia alimentar pertence a nós. É tudo nosso, saca? Essas aí tem que é procurar o lugar delas no mundo. Porque o nosso já está bem definido e não vamos abrir mão dele por essas feministas vadias lésbicas feias mal comidas peludas.

NÃO VENHA TIRAR MEUS PRIVILÉGIOS!

Um livro sobre a cultura do estupro que pretende dar voz às mulheres

E você pode contribuir.

Se você é mulher, certamente já sentiu medo ao andar sozinha na rua. Ou ao voltar de uma festa tarde da noite ou ao pegar um ônibus lotado sem saber ao certo se o cara está maliciosamente encostando em você ou ao usar uma roupa mais curta. Esse temor é apenas um dos reflexos da sociedade patriarcal e machista em que vivemos – e que traz com ela a violência contra a mulher.  E não, a culpa não é sua por voltar tarde, por não conseguir um lugar melhor no ônibus ou por gostar de usar certo tipo de roupa.

A diretora-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Margaret Chan, classificou a violência contra mulher como um problema de saúde global no mesmo patamar de uma epidemia. Um relatório divulgado pela entidade em junho de 2013, diz que a violência física e sexual atinge 35% das mulheres no mundo. Isso significa que uma em cada três mulheres sofreu algum tipo de abuso.

Recentemente, dados sobre a violência contra a mulher encheram os noticiários, como a pesquisa do IPEA, que após correção indicou que 26% dxs entrevistadxs consideram que uma mulher que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”, as cada vez mais frequentes denúncias de abusos cometidos em transportes públicos e as campanhas com o slogan “Sua cantada não é um elogio”, o que mostra que a cultura do estupro segue firme e forte.

Mas o que é a tal “cultura do estupro”?! Em poucas palavras: quando a violência sexual torna-se algo usual dentro de uma sociedade, podemos usar o termo cultura do estupro para nomear tal abuso. É um conceito usado para indicar o quanto a violência contra a mulher é normalizada dentro da sociedade. Entre os exemplos de comportamentos associados à cultura do estupro estão a culpabilização da vítima, a sexualização da mulher como objeto e a banalização do estupro.

E é exatamente este o tema do meu projeto. Estou escrevendo um livro sobre a culpabilização da vítima de abuso sexual/cultura do estupro. Um assunto tão profundo não pode ser tratado superficialmente no noticiários dos jornais ou nas páginas das revistas. Por isso, o projeto: para dar voz às mulheres. Para que a violência que sofremos cotidianamente não fique às cegas. A minha proposta é escrever uma detalhada e extensa reportagem sobre a questão, abordando tanto a perspectiva de mulheres que sofreram abusos como a visão de especialistas e estudiosos do tema e as propostas governamentais para coibir tais violências.

Porém, para que o projeto aconteça eu preciso da sua ajuda: fica aqui meu convite para que vocês participem do livro. Tem um relato e gostaria de compartilhar? Está precisando de ajuda? Leu um texto incrível sobre a cultura do estupro e acha que eu também deveria ler? Estuda sobre o assunto e tem material para compartilharmos? Quer apenas tomar uma cerveja e conversar comigo sobre o tema? Me manda um e-mail (gnmassonetto@hotmail.com) ou me procura lá no Facebook (Grazi Massonetto).

Vamos juntas, escrever o primeiro livro-reportagem brasileiro sobre a cultura do estupro.

 

Um livro sobre a cultura do estupro que pretende dar voz às mulheres

Do you think you can tell?

We’re just two lost souls
Swimming in a fish bowl
Year after year
Running over the same old ground
What have we found?
The same old fears

Repeat, repeat, repeat. Incessantemente. Não sai nada. Só entra, entra e se dissipa pelo corpo inteiro. Não há mais palavras. Todas elas já foram ditas. O que resta é o sentimento. O que fica é o sentimento. Que já não sabe mais o que sentir, o que sente, o que deveria estar sentindo. Um buraco, um vazio, uma imensidão de eucaliptos mofados no caminho. Já não se sabe. Talvez nunca souberam ou virão a saber. A dúvida pairando no ar como a fumaça saindo da boca de um fumante de Lucky Strike vermelho. Incertezas, indigestões, dor de estômago. Nada mais serve para acalmar ou trazer paz. Não há calma. Não há paz. Só esse terremoto de emoções cinzentas, estranhas, apagadas, dolorosas. O sorriso não demonstra nada, o afeto não está ali. Onde foi que se perderam? Será assim daqui pra frente? Não, não, não… Só preciso descansar, desacordar. Extirpar essa coisa ruim aqui dentro. E repetir, repetir até o fim: wish you were here. E você, deseja estar aqui?

Do you think you can tell?

and I’ll burn

too young to hold on

and too old to just break free and run

and I’ll burn

will I ever see your sweet return

or will I ever learn?

lover, you should’ve come over

but maybe I’m just too young

to keep good love from going wrong…

 

Colocar para fora. Dar um jeito. Tem jeito? Tento. Mas tentar e conseguir são verbos bem distintos… O sentimento extrapola. Aquela coisa ruim mesmo. Que a gente sente e não passa, não acaba. Nem depois de um banho, de um porre, de (tentar) dormir. Tá aqui a todo instante, martelando, socando, gritando. Me sufocando. O vento frio corta meu rosto e eu me entristeço ao lembrar que o corte não é real. Eu sangraria. Sangraria até não sobrar mais nenhum sentimento. Até me esvaziar. Me esvaziar de tudo. Até não restar mais nada. Até não ser mais nada. O que eu faço com isso? Cada átomo sendo assassinado, contaminado, destroçado. Nem jeito de escrever tem. Cada palavra soa tosca, idiota, fútil, infantil, desnecessária diante do que me aflige. Não dá. Continua aqui dentro, berrando, rastejando, atormentando. Os olhos inchados, a garganta seca, os pés sem caminho para seguir. Palavras escassas… elas certamente ainda estão em algum lugar tentando assimilar a ideia. Não quero assimilar. Não quero pensar. Não quero sentir. Não mais…

and I’ll burn