Adolf Hitler continua sorrindo no inferno

“São Paulo, dia 1º de outubro de 1992, 8h da manhã. Aqui estou, mais um dia, sob o olhar sanguinário do vigia”.

Durante quase toda a existência, o presídio conviveu com a superlotação e a violência. A célebre frase de Luiz Camargo Wolfmann, diretor da casa entre 1980 e 1986, dita em 1983, se concretizou: “No dia em que houver uma rebelião vai ser uma coisa tão terrível que entrará para a história do mundo”.

Superlotação, falta de assistência jurídica e médica, presos com penas já cumpridas, deficientes mentais, presos de alta e baixa periculosidade misturados, falta de funcionários, violência, motins, homicídios, corrupção, abuso sexual, tráfico de drogas, corrupção… O Carandiru era a verdadeira imagem do que um presídio NÃO deveria ser. Era nítido que se tratava apenas de uma questão de tempo para um assassinato em massa acontecer…

Uma briga entre presos desencadeou uma rebelião no pavilhão 9… “Era a brecha que o sistema queria”: para conter a revolta, a Tropa de Choque, comandada pelo coronel Ubiratã Guimarães, invadiu o prédio. Em cerca de 30 minutos, o chão do lugar se revestiu de sangue. Detentos foram metralhados pelos policiais – mesmo depois de se entregarem -, outros tiveram órgãos arrancados por cães. Um dos sobreviventes relatou: “eles não deram chance, abriam as portas e apertavam o gatilho”.

111 detentos mortos. Um episódio sinistro que marcou para sempre a história do sistema carcerário do Brasil. 20 anos depois do massacre, ninguém foi punido. Só o coronel Ubiratã Guimarães, foi julgado pelo caso – e absolvido por ter agido, ao ver da Justiça (Justiça????) no “estrito cumprimento do dever”. Para constar: Guimarães foi assassinado em seu apartamento, em 2006. Apenas semana passada a Justiça (!!!) resolveu agir: foi marcado para 28 de janeiro de 2013 o julgamento de 28 dos 100 policiais acusados por homicídios e lesões corporais. Mas… a Justiça (é rir para não chorar) não autorizou as exames de balística nas armas utilizadas pelos PMs, pois segundo o juiz José Augusto Nardy Marzagão, não haveria evolução nas investigações de uma perícia que está “fadada ao insucesso” e passados 20 anos, não teria como examinar com precisão os projéteis que estariam oxidados. Assim, os exames que poderiam identificar os autores dos disparos que mataram os 111 presos não serão feitos.

Em 2001, o presídio foi implodido. Eu estava na casa da minha avó. Lembro das pessoas dizendo ver fantasmas/monstros e afins na fumaça que a explosão causou. Lembro de ter visto uma tentativa de apagar da memória um dos episódios mais sangrentos do país. Hoje, no lugar do antigo Carandiru, existe o Parque da Juventude. Onde havia uma prisão, hoje há uma biblioteca onde não existem livros relatando o horror vivido ali por milhares de detentos. As vozes dos que sofreram foram abafadas, porém não caladas. Que o sofrimento não seja esquecido e que os culpados sejam, enfim, punidos. A memória deve ser mantida para que algo parecido não se repita – se bem que é só olhar para atual condição carcerária do país e para o crescente número de pessoas mortas pela polícia que vemos que não estamos tão distantes assim do 2 de outubro de 1992… Em 20 anos, nada mudou em matéria de direitos humanos.

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